“Os açorianos que residem fora sentem a ligação às suas raízes com maior intensidade”

18 de jan. de 2026, 09:00 — Ana Carvalho Melo

Entre a Medicina e o Fado, entre a Viola da Terra e os palcos internacionais, a comissária de Ponta Delgada 2026 quer transformar “O Lugar do Amanhã” num projeto que semeie pensamento crítico e novos públicos, sobretudo entre crianças e jovens.Katia Guerreiro contou que aceitou o desafio de comissariar a Capital Portuguesa da Cultura em 2026 porque “os açorianos que residem fora do arquipélago sentem a ligação às suas raízes com maior intensidade”, pelo que regressar e contribuir para a comunidade onde cresceram, colocando toda a experiência adquirida ao serviço da região, é um desejo sempre presente. A fadista recordou ainda que, embora o convite tenha ocorrido no final de 2023 e a nomeação oficial tenha sido anunciada a 15 de abril de 2024, apenas assumiu funções formais no dia 3 de fevereiro de 2025.A programação terá início a 29 de janeiro, no Coliseu Micaelense, com o espetáculo “Deixa Passar a Vida”, ponto de partida simbólico para um ano em que Ponta Delgada se apresenta como “Lugar do Amanhã”. “O tema da Capital Portuguesa da Cultura 2026 é ‘O Lugar do Amanhã’, focando na cultura e educação como peças fundamentais. Queremos deixar sementes nas crianças e jovens, promovendo o pensamento crítico e criando novos públicos e criadores”, explicou.Da missão cultural à motivação pessoal, a fadista sublinha que é com forte sentido de pertença e responsabilidade que conduz esta iniciativa. “Há uma vontade de contribuir para que esse território possa beneficiar de ainda maior criação, que é bastante vibrante, e de maior fruição, inclusive de poder fazer chegar muita coisa de qualidade que vai girando pelo mundo e a toda a gente. Há uma vontade genuína de contribuir. E, a partir do momento em que eu recebo esse convite, achei que era essa a minha oportunidade, era esse o meu momento. E foi um apelo que chegou por algum motivo”, afirmou.A ligação de Katia Guerreiro a Ponta Delgada é muito forte, sendo esta a cidade do seu coração, ainda que, por circunstâncias do percurso de vida dos pais, tenha nascido na África do Sul. “Eu costumo dizer que nasci a segunda vez em Ponta Delgada aos 11 meses de idade, quando cheguei à ilha. Fisicamente nasci na África do Sul, por circunstâncias da fuga dos meus pais de Angola, mas é em Ponta Delgada que me reconheço; foi onde comecei a andar, a falar e a crescer rodeada de um lugar marcante que vincou a minha personalidade. Senti-me totalmente açoriana e ‘filha da terra’ quando o Dr. José Manuel Bolieiro me anunciou num espetáculo de solidariedade no Coliseu como sendo ‘mais açoriana do que muitos açorianos’”, contou.Foi em São Miguel que a artista cresceu e onde a música, que nem sempre esteve no centro da sua vida, a acompanhou desde cedo e acabou por traçar o rumo da sua carreira. “Sempre fui muito melómana. No ciclo preparatório, a minha professora de música na Escola Roberto Ivens perguntou-me porque não me inscrevia no conservatório, dizendo que eu escrevia ditados musicais como quem escreve português. Guardei essa frase, mas, por timidez, não segui o conselho na altura. Mais tarde, aproximei-me da música de forma informal na Igreja Matriz de Ponta Delgada e, aos 15 anos, entrei para o Rancho Folclórico de Santa Cecília, onde aprendi a tocar Viola da Terra. Foi lá que ouvi o Fado pela primeira vez”, recordou.Foi, no entanto, quando foi para Lisboa estudar Medicina que aprofundou essa relação com a música, agora em paralelo com a vida académica. “Quando vim para Lisboa estudar Medicina, trouxe a Viola da Terra e fundei a Tuna Médica de Lisboa. Durante os seis anos da faculdade, a música era um passatempo, mas tornou-se um escape essencial para a minha organização e saúde mental, especialmente no difícil terceiro ano”, contou, realçando que era a única estudante no país a utilizar a Viola da Terra numa tuna académica.O cruzamento entre vocação artística e formação médica ganhou expressão plena em 2000, quando começou a carreira profissional no Fado. “O João Braga ligou-me no dia em que terminei o meu último exame da faculdade, convidando-me para cantar no Coliseu de Lisboa numa homenagem à Amália Rodrigues. Eu já cantava em tertúlias e casas de fado vadio, onde conheci o João Veiga e o filho do Alfredo Marceneiro. Aceitei o convite do Coliseu de forma inconsequente, mas o espetáculo foi transmitido na TVI e as críticas foram tão fortes que, dois meses depois, estava a gravar o meu primeiro álbum, ‘Fado Maior’”, revelou.A artista ainda exerceu Medicina durante 12 anos, fazendo urgências hospitalares em locais como Évora e Montemor, e tendo deixado a prática formal quando a filha nasceu, embora continue inscrita na Ordem dos Médicos. Do palco de Portugal aos grandes centros culturais internacionais, Katia Guerreiro tem vindo a somar momentos marcantes ao longo de 25 anos de carreira. “É difícil escolher. Um momento marcante foi ser condecorada pelo governo de França como Chevalier da Ordem das Artes e Letras. Outro foi nos ‘Encontros para a Europa da Cultura’ em Paris, onde, num painel com figuras como Costa Gavras e Jeanne Moreau, pediram-me para cantar um fado a capella. Cantar Sofia de Mello Breyner e ver toda aquela plateia aplaudir de pé foi um orgulho imenso por representar a minha língua e o meu país”, elencou.E, apesar de toda a carreira internacional e de grande sucesso, Katia Guerreiro realça: “Levo sempre os Açores comigo”, reforçando que, embora o Fado esteja muito associado a Lisboa, o seu percurso é indissociável das influências do cancioneiro açoriano, que moldou a sua forma de sentir e viver a música.