Organização liderada por Paulo Casaca associada a operação de desinformação na Índia
27 de fev. de 2023, 06:57
— Ana Carvalho Melo
Segundo a notícia avançada na edição
desta semana do jornal Expresso, uma investigação do consórcio Forbidden
Stories revelou um esquema de propaganda que envolve dois portugueses. Um
dos portugueses envolvidos é o antigo eurodeputado Paulo Casaca, tendo
sido identificada nesta investigação uma organização por ele fundada com
sede em Bruxelas, denominada de Fórum Democrático da Ásia do Sul, ou
South Asia Democratic Forum (SADF). A outra organização é o Fórum
Internacional para os Direitos e a Segurança (IFFRA), que foi fundado em
2012 por Mário Silva, um político de origem açoriana emigrante em
Toronto e antigo deputado no Parlamento canadiano. Em 2014, esta
organização foi formalmente dissolvida. Segundo o semanário, esta
operação de desinformação a favor do Governo de Narendra Modi, na Índia,
foi montada na Europa para atacar alvos preferenciais de Nova Deli,
incluindo o Paquistão e a China, e defender o nacionalismo hindu
recorrendo a notícias e media falsos, através de jornalistas e
especialistas inventados e think tanks subsidiados por estruturas
opacas.Por detrás desta campanha mediática estarão um grupo
económico indiano, o Srivastava Group, e a maior agência noticiosa da
Índia, a Asian News International (ANI), que tem funcionado como um
distribuidor massivo de notícias falsas, sendo depois repescadas por
muitos outros sites de informação.O jornal acrescenta ainda que
estas duas organizações fundadas por portugueses já tinham sido
mencionadas em relatórios anteriores da EU DisinfoLab, publicados em
2019 e 2020 com o nome de “Crónicas Indianas” (“Indian Chronicles”),
assim como num terceiro relatório divulgado esta quinta-feira com uma
atualização sobre o esquema, ao mesmo tempo que os parceiros de media da
Forbidden Stories publicam as suas próprias histórias sobre o tópico.Numa
entrevista que Paulo Casaca concedeu ao jornal “Knack” para esta
investigação do Forbidden Stories, o antigo eurodeputado admite que a
organização tem sido prejudicada pelo relatório de dezembro de 2020 da
EU DisinfoLab, que descreveu o SADF como fazendo parte do esquema
montado pelo Srivastava Group para instilar visões negativas sobre o
Paquistão e defender os interesses da Índia.O jornal revela ainda
que embora Paulo Casaca assegure que é independente e não recebe
financiamento direto do Srivastava Group, assume que teve o apoio de
Pramila Srivastava, a chairman do grupo, entretanto falecida, para criar
a sua organização.Por outro lado, o jornal avança que entre 2011 e
2022, o SADF recebeu 2,4 milhões de euros, quase tudo em subsídios dados
por entidades como a European Foundation for International Development,
no Luxemburgo, e a Euro Corporation Ltd, na Nova Zelândia. Mas que o
ex-eurodeputado diz desconhecer quem são os seus financiadores. “Há
dezenas de empresas que têm contribuído para o SADF. Devo conhecê-las?
Deveria fazer-lhes uma auditoria?”Ainda nesta entrevista, o açoriano
revela que depois de ter deixado de ser eurodeputado a sua situação
financeira se tornou dramática. “No final de 2010 eu não tinha um franco
no bolso. Regressei à Bélgica como emigrante. Tive até de pedir
dinheiro à minha mãe para sobreviver. Depois, em 2011, foi criado o
SADF. Foi isso que me permitiu viver.”Paulo Casaca não deixa ainda
de lamentar aquilo que chama de “assassínio de caráter” e acusa a EU
DisinfoLab de ser “o caso mais óbvio de infiltração de interesses
islamistas no seio da União Europeia”.