Operadores turísticos e indústria de atum divergem sobre as áreas protegidas nos Açores
16 de jul. de 2025, 10:12
— Lusa/AO Online
“Não
faz qualquer sentido! Não conseguimos compreender esta proposta”,
criticou Jorge Botelho, presidente da Associação de Operadores
Marítimo-Turísticos dos Açores, ouvido na Comissão de Assuntos
Parlamentares, Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do parlamento
açoriano, reunida em Ponta Delgada.O
dirigente associativo referia-se à proposta apresentada pela bancada do
PS na Assembleia Legislativa Regional, que pretende que a pesca do atum
nos Açores, que é efetuada com a arte de pesca de “salto e vara”,
considerada seletiva e “amiga do ambiente”, possa ser permitida dentro
das novas áreas de reserva total, aprovada pelos deputados em outubro do
ano passado.“O atum não está parado em
cima dos bancos submarinos. É um peixe que tanto está aqui agora, como
amanhã de manhã está noutro sítio qualquer”, lembrou Jorge Botelho,
acrescentando que os bancos submarinos como o Princesa Alice, D. João de
Castro e Condor, e os ilhéus das Formigas, “ou são reservas totais, ou
não são!”.Segundo explicou, a atividade de
mergulho e de observação turística, “não se coadunam” com a atividade
extrativa, como é a pesca do atum, e alertou para os perigos que isso
pode gerar no futuro: “andamos nós debaixo de água e andam as traineiras
por cima das nossas cabeças! Temos tido alguma sorte de não ter havido
acidentes”.Jorge Botelho lembra também que
a região não tem capacidade para fiscalizar os 26 atuneiros que exercem
a atividade nos Açores, e que, se a classe política permitir que possam
operar em zonas de reserva total, vai criar “mais um problema” de
difícil resolução.Opinião contrária tem a
Direção da Pão do Mar – Associação dos Industriais de Conservas de Peixe
dos Açores, também ouvida hoje pelos deputados, a propósito da proposta
apresentada pelo Partido Socialista sobre as áreas marinhas protegidas.“Nós
somos solidários com a APASA – a Associação de Produtores de Atum e
Similares dos Açores, porque sem produção não há indústria”, advertiu
Rogério Veiros, presidente da Pão do Mar, durante a audição parlamentar.O
dirigente explicou que o atum é uma espécie com um comportamento muito
imprevisível, que “nunca se sabe onde está, nem para onde vai” e que
proibir a pesca desta espécie nos principais bancos da região vai gerar
dificuldades aos pescadores e armadores, e por consequência, à própria
indústria conserveira.Rogério Veiros
lembrou que existem cinco fábricas de conservas de atum nos Açores, com
capacidade para laborarem 15 mil toneladas de pescado por ano, mas que
existe um “total défice de pesca” de atum na região, que obriga as
conserveiras a adquirirem matéria-prima nos mercados internacionais.A
eventual alteração do diploma aprovado no parlamento regional, que
aumentou para 30% as áreas marinhas protegidas dos Açores, tem dividido
opiniões, entre os partidos políticos e entre a própria sociedade civil.Os
dois maiores partidos nos Açores (PSD e PS) já encetaram, entretanto,
negociações entre si, no sentido de evitar um eventual recuo neste
processo e, também, um previsível embaraço junto das instâncias
europeias, que, na altura, elogiaram as autoridades regionais pelo
aumento das áreas marinhas protegidas nas ilhas.Segundo
apurou a agência Lusa junto dos dois partidos, o acordo poderá passar
pelo adiamento da entrada em vigor da rede de áreas protegidas, de forma
a permitir que a pesca do atum possa continuar a realizar-se nos bancos
submarinos, pelo menos, por mais algum tempo.