ONU sai de Sevilha com 130 iniciativas e novo compromisso para combater pobreza até 2035
3 de jul. de 2025, 16:57
— Lusa/AO Online
A
conferência das Nações Unidas sobre financiamento para o
desenvolvimento só se realiza a cada dez anos e esta ocorreu num momento
de "escalada das tensões comerciais, cortes acentuados na ajuda pública
ao desenvolvimento" e "aumento do peso da dívida" dos países mais
pobres, como reconheceu a secretária-geral adjunta das Nações Unidas,
Amina J. Mohammed, na sessão de encerramento do encontro.Amina
J. Mohammed referiu os "danos colaterais" para o combate à pobreza e a
promoção do desenvolvimento de haver neste momento outras e maiores
prioridades nos orçamentos dos países doadores: "O apoio ao
desenvolvimento já não se pode dar por garantido"."Apesar
disso, perante este cenário preocupante, a conferência de Sevilha deu
uma resposta forte", adotando o documento "Compromisso de Sevilha",
"centrado em soluções", que "mostra que a cooperação multilateral ainda é
importante e ainda funciona", e que reafirma "o compromisso" da
comunidade internacional e reaviva "a esperança", considerou.O
"Compromisso de Sevilha", um documento de 68 páginas subscrito por 192
dos 193 países da ONU, estabelece metas e compromissos, assim como
propõe medidas para tentar responder a três questões fundamentais para o
desenvolvimento.A primeira é mobilizar
mais recursos, públicos e privados, para reduzir o défice de
financiamento, estimado pelas Nações Unidas em mais de quatro biliões de
dólares americanos (mais de 3,4 biliões de euros); a segunda é aliviar o
peso das dívidas soberanas nos orçamentos dos países mais pobres para
assim libertar verbas para investimentos de combate à pobreza; a
terceira é dar mais protagonismo e voz aos países em desenvolvimento nos
processos de cooperação internacional e na arquitetura de financiamento
global."Os países em desenvolvimento têm de ser ouvidos como foram ouvidos nesta conferência", defendeu Amina J. Mohammed.Foi
ainda lançada nesta conferência a "Plataforma de Sevilha para a Ação",
que junta iniciativas conjuntas de países, organizações
não-governamentais (ONG), organismos e agências multilaterais, setor
privado e bancos de desenvolvimento que pretendem transformar em ações
concretas o que está enunciado no documento global (o “Compromisso de
Sevilha”).Nos quatro dias da conferência
foram apresentadas ou entregues à plataforma 130 iniciativas, como
alianças para suspensão de dívidas públicas em determinados cenários;
para conversão das dívidas soberanas em projetos de desenvolvimento e de
economia verde ou para taxar de forma extra voos privados e grandes
fortunas para assim gerar verbas para financiar projetos de
desenvolvimento.Passaram esta semana por
Sevilha delegações de 192 países, 60 das quais encabeçadas por chefes de
Estado e de Governo. Destes, a maioria era de países em vias de
desenvolvimento, num claro desequilíbrio de representação entre doadores
e devedores."Gostávamos ter tido mais
líderes dos países doadores", reconheceu a vice-secretária-geral adjunta
da ONU, em resposta a perguntas dos jornalistas numa conferência de
imprensa final da conferência.Amina J.
Mohammed acrescentou que, no entanto, este desequilíbrio de participação
não diminuiu "a esperança" com que a ONU sai hoje de Sevilha,
sublinhando que quase todas as delegações tiveram representação "de alto
nível" e que seguramente assim será nas próximas reuniões e nas que
darão seguimento a esta conferência.O
único país da ONU ausente de Sevilha e que não subscreveu o "Compromisso
de Sevilha" foi os EUA, tradicionalmente o maior doador do mundo, mas
que cortou as verbas de apoio ao desenvolvimento desde que Donald Trump
regressou à presidência do país, em janeiro.Amina
J. Mohammed disse que a ONU lamenta a ausência dos EUA e este
"retrocesso repentino”, mas que espera “que seja temporário e que os EUA
regressem", acrescentando que, porém, “como demonstrou a conferência de
Sevilha”, "apesar de tudo", os países e o mundo avançam.A
Conferência de Sevilha foi considerada um êxito do multilateralismo,
num contexto geopolítico atual marcado pelas tensões, pela ONU, pela
generalidade dos Estados-membros da organização e por organismos
multilaterais, como os bancos de desenvolvimento ou o Banco Mundial.Outra
opinião manifestaram porém as centenas de ONG que também participaram
na conferência, que consideram o "Compromisso de Sevilha" pouco
ambicioso e que houve um boicote dos países ricos a medidas eficazes
para aliviar dívidas soberanas dos mais pobres.