ONU pede solução para o veto dos talibãs à participação das mulheres em ONG
30 de dez. de 2022, 09:40
— Lusa/AO Online
O
vice-representante especial do secretário-geral da ONU, Ramiz Alakbarov,
indicou, em conferência de imprensa, que o impacto da medida começa a
fazer-se sentir em alguns programas, uns mais urgentes do que outros,
como os de abrigos de inverno ou colheitas nos próximos meses.Alakbarov,
que também é o coordenador humanitário residente no Afeganistão,
explicou que sem as mulheres no setor humanitário, não podem ser feitas
certas avaliações para concluir programas e lançar outros, pelo que
alertou que “o lançamento de novos programas será praticamente
impossível neste ambiente”."A ajuda nunca
pode ser condicionada. Não se pode condicionar a entrega de comida a uma
pessoa faminta ou doente (...), e outro elemento importante é que não
se pode excluir um determinado género ou categoria de pessoas, e esse é o
dilema da situação", explicou, citado pela agência Efe.Alakbarov
destacou que cerca de 30% dos funcionários das ONG no Afeganistão são
mulheres e que, por isso, duvida que os talibãs tenham levado esse
número em consideração nas discussões sobre a medida, realçando que em
muitos casos estas mulheres são a única fonte de rendimento para as suas
famílias.O coordenador humanitário também
negou a "perceção" de que as vagas deixadas por mulheres na área
humanitária serão substituídas por homens: "Isso não vai acontecer,
simplesmente porque [esses empregos] não tem a finalidade de atender a
população masculina".A ONU é a organização
internacional com maior presença e estrutura no Afeganistão e um
importante “interlocutor” junto ao governo, que após o veto talibã de
mulheres em ONG e universidades tem permitido a Alakbarov reunir-se com
ministros de diversos setores.Após uma
reunião da sua equipa com o ministro da Saúde, Alakbarov destacou que
esta foi “bastante construtiva” e que foi acordado que "não deve haver
uma barreira" na atenção à saúde de mulheres e meninas.Entretanto,
Alakbarov referiu que o ministro da Economia manifestou preocupação com
a observância de tradições muçulmanas como o uso do ‘hijab’, mas
reconheceu a importância do papel da mulher na economia, uma das
vertentes a partir da qual o diálogo está a ser realizado.O
diplomata destacou ainda que espera que a tendência de restrição da
vida pública às mulheres seja invertida e considerou "importante que
também os países ricos da região e o mundo islâmico continuem a falar"
sobre o assunto, como alguns clérigos muçulmanos e figuras conhecidas
fizeram.