ONU diz que a Faixa de Gaza está a tornar-se “inabitável”
31 de jan. de 2024, 19:03
— Lusa
Pelo
menos metade de todos os edifícios da Faixa de Gaza estão destruídos ou
danificados, e após quatro meses do mais recente conflito
israelo-palestiniano, justificado pelos ataques do movimento islamita
Hamas em 07 de outubro, o enclave palestiniano tornou-se “inabitável”
segundo o organismo mundial. De acordo com
um relatório da Conferência das Nações Unidas Sobre Comércio e
Desenvolvimento (Cnuced) serão necessários dezenas de milhares de
milhões de dólares para que a estreita faixa de terra se torne de novo
viável. Os investigadores da Cnuced
basearam-se em imagens de satélite de alta definição para estabelecer a
amplitude da devastação, comparando as imagens anteriores a 07 de
outubro com as atuais, após Israel iniciar o bombardeamento incessante
de Gaza em resposta a uma operação sem precedentes da ala militar do
Hamas palestiniano em território israelita. Este relatório foi concluído no final de novembro, cerca de dois meses depois do início do conflito. Na
ocasião, foi calculado que 37.379 edifícios – equivalente a 18% do
total de estruturas na Faixa de Gaza – foram danificados ou destruídos
pela operação militar israelita. Desde
essa data que os dados por satélite indicam que as destruições
duplicaram, segundo indicou Rami Alazzeh, economista da Cnuced,
especializado no apoio ao povo palestiniano e coautor deste relatório. “Os novos dados indicam que 50% das estruturas de Gaza estão danificadas ou destruídas”, declarou à agência noticiosa AFP. “Atualmente, Gaza é inabitável”, sublinhou. A
Cnuced tinha já referido que a situação em Gaza era desastrosa antes do
início da guerra, com a imposição de um bloqueio de 17 anos e repetidas
operações militares que deixaram 80% da população dependente da ajuda
internacional. Através de imagens satélite
e dados oficiais, a agência das Nações Unidas assinala que a economia
de Gaza tinha já contraído 4,5% no decurso dos três primeiros trimestres
de 2023. “A operação militar acelerou
consideravelmente o declínio e precipitou uma contração do PIB de 24% e
uma baixa de 26,1% do PIB por habitante para o conjunto do ano”, indicou
a Cnuced em comunicado. Alazzeh sublinhou
que a baixa no Produto Interno Bruto (PIB) por habitante registado em
2023 é equivalente ao registado no decurso de todo o período de bloqueio
e durante as seis anteriores operações militares israelitas. Em
07 de outubro, sublinha o documento, 45% da população ativa de Gaza
estava desempregada, mas a taxa de desemprego disparou para 80% em
dezembro passado. “O setor económico de
Gaza está totalmente paralisado”, explicou Alazzeh, acrescentando que as
únicas pessoas que trabalham atualmente estão envolvidas nas operações
humanitárias. A Cnuced calcula que mesmo
que a reconstrução fosse iniciada no imediato e a Faixa de Gaza
regressasse à taxa de crescimento médio de 0,4% registada no decurso dos
últimos 15 anos, seriam necessárias sete décadas para que o território
regressasse ao modesto nível do PIB de 2022. O
economista também frisou a necessidade de uma ajuda internacional
maciça, em particular se o objetivo consiste em melhorar o nível de
desenvolvimento em Gaza. “Sem dúvida que se elevará a várias dezenas de milhares de milhões de dólares segundo um cálculo prudente”, indica o relatório. A
agência sublinha que qualquer resolução da crise implica o fim da
operação militar, o levantamento do bloqueio e a evolução em direção a
uma solução de dois Estados. O objetivo, defende a agência, não pode ser simplesmente “o regresso ao ‘status quo’ anterior a outubro de 2023”. O
conflito em curso entre Israel e o Hamas, que desde 2007 governa na
Faixa de Gaza, foi desencadeado pelo ataque do movimento islamita em
território israelita em 07 de outubro. Nesse
dia, 1.140 pessoas foram mortas, na sua maioria civis mas também perto
de 400 militares, segundo os últimos números oficiais israelitas. Cerca
de 240 civis e militares foram sequestrados, com Israel a indicar que
127 permanecem na Faixa de Gaza.Em
retaliação, Israel, que prometeu destruir o movimento islamita
palestiniano, bombardeia desde então a Faixa de Gaza, onde, segundo o
governo local liderado pelo Hamas, já foram mortas pelo menos 26.900
pessoas – na maioria mulheres, crianças e adolescentes – e feridas mais
de 64.000, também maioritariamente civis. A
ofensiva israelita também tem destruído a maioria das infraestruturas
de Gaza e perto de dois milhões de pessoas foram forçadas a abandonar as
suas casas, a quase totalidade dos 2,3 milhões de habitantes do
enclave, controlado pelo Hamas desde 2007.A
população da Faixa de Gaza também se confronta com uma crise
humanitária sem precedentes, devido ao colapso dos hospitais, o surto de
epidemias e escassez de água potável, alimentos, medicamentos e
eletricidade.Desde 07 de outubro, pelo
menos 365 palestinianos também já foram mortos pelo Exército israelita e
por ataques de colonos na Cisjordânia e Jerusalém Leste, territórios
ocupados pelo Estado judaico, para além de se terem registado 5.600
detenções e mais de 3.000 feridos.