ONU denuncia que quase metade da população do Haiti sofre de “pura fome”
14 de jul. de 2021, 15:39
— Lusa/AO Online
A
descrição da atual situação alimentar do país caribenho é feita por
Adoniram Sanches, coordenador sub-regional para a Mesoamérica (que
compreende o México e o norte da América Central) e representante da
Organização de Alimentação e Agricultura das Nações Unidas (FAO) no
Panamá e na Costa Rica.“O
Haiti sempre registou entre 40% e 50% (de fome), houve uma ligeira
redução nos últimos anos, mas agora já atinge quase metade da
população”, afirmou o representante, numa entrevista à agência espanhola
EFE.De
acordo com os dados fornecidos por Adoniram Sanches, 48% da população do
Haiti, país que conta com cerca de 11 milhões de habitantes, "passa
pura fome"."É uma grave situação de insegurança alimentar”, que resulta de “fenómenos climáticos e sociais", prosseguiu.O
Haiti regista graves problemas económicos, políticos, sociais e de
insegurança, nomeadamente com raptos para a obtenção de resgates
realizados por gangues que quase sempre ficam impunes.O país ainda tenta recuperar do devastador terramoto de 2010 e do furacão Matthew em 2016.A
inflação tem aumentado e os alimentos e combustível escasseiam no país
das Caraíbas, onde 60% da população ganha menos de dois dólares (1,69
euros) por dia.O
clima de crise agravou-se ainda mais com o assassínio, na semana
passada (dia 07 de julho), do chefe de Estado do Haiti, Jovenel Moise.Na
opinião de Adoniram Sanches, o Haiti pode ser encarado como “uma
tempestade perfeita", porque é "duramente atingido pelas alterações
climáticas", arrasta "uma instabilidade política ao longo dos últimos 20
anos” e, atualmente, também enfrenta à pandemia da doença Covid-19.Como resultado, frisou o representante, “metade da população está a passar fome".“O
Haiti produz arroz desde as décadas de 1930 e 1940, mas entrou num
ciclo de instabilidade política e institucional", acrescentou.Para
o alto funcionário das Nações Unidas, o atual contexto do país faz
antever “uma terrível expectativa” para o futuro, a médio e a longo
prazo, porque “o conflito social está instalado”.O
Haiti, a primeira colónia da região da América Latina e das Caraíbas a
conquistar a independência (1804) depois de França ter exigido uma
dívida exorbitante para reconhecer o novo país, que levou mais de um
século a pagar, "deve procurar a paz nos próximos quatro ou cinco anos",
defendeu Adoniram Sanches. Para
este país caribenho, que atravessa a sua pior crise humanitária,
segundo classificou o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), a
cooperação internacional e a ajuda humanitária são essenciais para
alcançar a estabilidade, concluiu o alto funcionário.