ONG pedem proteção da UE após decreto que limita atividade de resgate em Itália
Migrações
16 de fev. de 2023, 08:18
— Lusa/AO Online
"Os
novos regulamentos e a atribuição de portos distantes impedem os navios
de realizarem as suas operações de resgate. Como resultado, ainda mais
pessoas morrerão na rota de migração mais mortal do mundo", realçou a
advogada da SOS Humanity, Mirka Schaefer, em comunicado.Esta
organização humanitária sublinhou que o novo decreto, elaborado pelo
Governo de extrema-direita liderado por Giorgia Meloni, "viola as leis
internacionais e europeias", instando, por isso, a Comissão Europeia a
“tomar medidas contra as infrações à lei de um país membro da União
Europeia".Também a ONG espanhola Open Arms
apelou à constituição de uma comissão parlamentar para investigar e
apurar responsabilidades face às "violações dos direitos humanos" que os
seus trabalhadores e voluntários testemunharam "nos últimos sete anos".“Não
é possível continuar a prestar assistência aos náufragos devido às
omissões de socorro, às retiradas forçadas por milícias líbias
disfarçadas de guardas-costeiras com dinheiro europeu e à aprovação de
decretos inconstitucionais”, frisou esta organização em comunicado
enviado à agência Efe.No início do ano, o
Conselho de Ministros italiano promoveu o referido decreto com dois
pontos que modificam substancialmente as atividades de resgate: a
obrigação de solicitar o desembarque imediatamente após um resgate, sem
poder fazer mais, e a atribuição de portos distantes para desembarque
das pessoas salvas.As ONG arriscam multas pesadas e o arresto dos navios se não cumprirem as regras impostas pelo Governo italiano.Na terça-feira, o navio Ocean Viking, da ONG francesa SOS Mediterranée,
recebeu autorização para desembarcar 84 pessoas resgatadas em Ravenna
(nordeste da Itália), onde só chegará no próximo sábado por estar a
"quatro dias da travessia", detalhou fonte da organização à Efe.Segundo esta organização, as medidas promovidas pelo decreto “resultam numa redução mortal” das suas capacidades de salvamento.A
única embarcação que nestas semanas conseguiu um porto próximo foi o
Sea Eye 4, que viajava com 109 migrantes e dois cadáveres após duas
operações de resgate no Mediterrâneo central e conseguiu atracar em
Nápoles (sul), visto que o primeiro porto designado ficava a cerca de
cinco dias de navegação.A ONG Médicos Sem
Fronteiras (MSF), no entanto, teve que viajar para os portos de Ancona e
La Spezia, no norte da Itália, depois de resgatar centenas de pessoas
no Mediterrâneo central em janeiro.“No mês
passado já foram interpostos dois recursos solicitando a anulação das
medidas administrativas pelas quais os portos de Ancona e La Spezia nos
foram atribuídos”, destacou esta ONG nas redes sociais, onde voltou a
insistir que o decreto “não cumpre direito internacional" por não
priorizar a atenção à saúde dos resgatados.No
início deste mês, o Conselho da Europa manifestou preocupação em
relação a este decreto que, segundo a comissária para os Direitos
Humanos, Dunja Mijatovic, "poderia impedir o fornecimento de assistência
por parte das ONG no Mediterrâneo Central e, portanto, poderia estar em
desacordo com as obrigações de Itália sob os direitos humanos e o
direito internacional".