'One Health' é a melhor forma de prevenir futuras pandemias
27 de abr. de 2023, 07:55
— Lusa/AO Online
Em
declarações à agência Lusa na véspera do congresso internacional que
vai debater o tema no Porto, o especialista diz
que pandemias como a de covid-19 ou outras zoonoses, como a monkeypox,
assim como problemas relacionados com a segurança alimentar e o aumento
das resistências aos antibióticos, vão continuar a repetir-se “se não se
optar por esta abordagem conjunta de uma só saúde”.“A
covid-19 evidenciou a necessidade de uma estrutura global para melhorar
a vigilância numa perspetiva muito mais holística e muito mais
integrada do que é a saúde”, disse o responsável, sublinhando que a
ausência destas abordagens integradas “foram vistas como as principais
impulsionadoras da pandemia”.A segunda
edição do congresso internacional da TOXRUN, Unidade de Investigação em
Toxicologia do Instituto Universitário de Ciências da Saúde - CESPU contará com a participação de especialistas de
centros de investigação e universidades nacionais e internacionais, que
debaterão a importância do conceito ‘One Health’ para a saúde humana.“Temos
agora uma oportunidade sem precedentes de fortalecer, colaborar e até
criar políticas centradas nestes três vetores”, considerou o presidente
do comité organizador do congresso, explicando: “Nunca na história da
humanidade houve uma reunião conjunta das quatro maiores organizações
das Nações Unidas”.Ricardo Dinis-Oliveira
falava do repto lançado, em março, pelas Nações Unidas, através dos seus
organismos ligados à Agricultura e Alimentação (FAO), Saúde (OMS),
Ambiente (UNEP) e Saúde Animal (WOAH), para que os decisores políticos
assumam este conceito de “uma saúde por um planeta saudável”.“O
animal não existe sem um ambiente, o ambiente não existe sem o humano e
esta tríade é fundamental para que exista, de facto, o entendimento do
que é a saúde”, sublinhou.Questionado pela
Lusa se os decisores políticos já estão sensibilizados para a
importância de olhar para a saúde dessa forma integrada, respondeu que
“ainda pensam que é um pouco utópico”.Lembrou
que “60% das doenças infecciosas emergentes nos últimos anos tiveram
origem em animais, sejam eles selvagens ou domésticos” e que “mais de 30
patogénicos humanos foram detetados nas últimas décadas, 75% deles com
origem em animais”, para sublinhar: “Assim percebemos que esta visão
integrada do que é saúde faz todo o sentido”.Disse
ainda que a comunidade veterinária “está muito mais à frente” neste
entendimento: "Os veterinários já perceberam que os animais podem ser os
vetores importantes do aparecimento de novas zoonoses, como, por
exemplo, a covid-19 ou a monkeypox, e que (...) podem ser inclusivamente
vetores para o desenvolvimento de resistências”.“Hoje
(…) as rações para animais estão a sobrecarregadas de antibióticos, que
depois são excretados no leite, nós bebemos o leite e depois comemos os
derivados animais (…) contaminados com pequenos resíduos de
antibióticos que fazem daqui despoletar o aumento das resistências, que é
hoje um problema grave”, explicou.Além de
sensibilizar os profissionais já formados para este conceito,
dando-lhes formação, o especialista chama igualmente a atenção para a
necessidade de introduzir nos currículos dos vários cursos
universitários a ideia de 'One Health'. Lembrou
que no Reino Unido e Alemanha já há muita formação específica nesta
área para os profissionais de saúde e reconheceu que Portugal está mais
atrasado.O responsável disse que há cerca
de dois anos criaram a primeira unidade de investigação dedicada a esta
filosofia, referindo: “Temos hoje mais de 70 doutorados destes três
pilares, para que daqui possa haver uma consciencialização de toda a
comunidade científica, médica e dos decisores políticos para que se
criem políticas e estratégias para começar a tratar a saúde de uma forma
global”.Sobre a formação no ensino
superior, afirmou: “Nós, enquanto estrutura e unidade de investigação,
já estamos a consciencializar as instituições universitárias para que
possam mudar os seus planos de estudos”.“Nos
casos em que temos maior proximidade, já o vamos aplicar a partir de
setembro de 2023, inicialmente através de unidades curriculares
opcionais”, nos ensinos da medicina, das ciências biomédicas, forenses,
da nutrição e da medicina veterinária e ciências farmacêuticas,
acrescentou.