OCDE recomenda mais 1,4% do PIB por ano para saúde para enfrentar novas crises
Covid-19
23 de fev. de 2023, 10:14
— Lusa/AO Online
O relatório “Ready
for the Next Crisis? Investing in Health System Resilience (Preparado
para a próxima crise? Investir na Resiliência do Sistema de Saúde)”, da
Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE, à qual
Portugal pertence), analisa “as lições” daquela pandemia e inclui
recomendações de políticas para que os países sejam mais capazes de
enfrentar a próxima crise.A pandemia,
declarada pela Organização Mundial de Saúde em março de 2020, constituiu
“a maior crise de saúde” no último século e mostrou “três grandes
vulnerabilidades” do sistema: não estava devidamente preparado, tinha
falta de pessoal e de investimento.A OCDE
defende que o aumento do investimento que recomenda para os seus membros
se destine ao pessoal (metade do total), à prevenção e à
infraestrutura.“Mais de 6,8 milhões de
mortes devido à covid-19 foram relatadas em todo o mundo em janeiro de
2023. A análise do excesso de mortalidade sugere que até 18 milhões de
pessoas podem ter morrido em todo o mundo por causa da pandemia até
final de 2021”, sublinha o relatório, acrescentando que “a expectativa
de vida diminuiu em muitos países da OCDE em 2020 e 2021”, além de haver
“perturbações generalizadas na sociedade e na educação” e do PIB ter
caído “4,7% em 2020 nas economias” ligadas à organização.O
estudo lembra que “a desigualdade preexistente e as doenças crónicas
pioraram os resultados da pandemia”, assinalando que o facto dos
sistemas de saúde gastarem “menos de 3% do gasto total com saúde em
prevenção” deixou “muitos membros da população vulneráveis”. A
falta de pessoal, por seu turno, “limitou respostas eficazes à pandemia
e continua a fazê-lo”. Pessoal “suficiente e bem treinado” é necessário
para que haja “agilidade em tempos de crise, bem como para lidar com a
acumulação de cuidados” e responder “ao aumento substancial das
necessidades de saúde mental”.O número de
médicos em Portugal por 1.000 habitantes em 2019 (ou no último ano de
que existem dados) era ligeiramente superior ao limiar de 3,54, sendo a
média da OCDE ligeiramente inferior, enquanto o de enfermeiras era um
pouco abaixo da média da OCDE, que não chegava a 10, face a um limiar de
11,45.A falta de profissionais de saúde
no país - quer médicos, enfermeiros ou auxiliares - teve um nível de
impacto médio na capacidade de Portugal lidar com a pandemia, segundo a
organização.Para aumentar a oferta de
profissionais durante os picos da pandemia, Portugal recorreu ao
prolongamento das horas de trabalho e ao aumento da carga deste, bem
como à sua realocação para “localidades ou estabelecimentos com maiores
necessidades”, à redução das atividades não relacionadas com a covid-19 e
à mobilização de mais trabalhadores, como estudantes e reformados do
setor.“Em resposta à pandemia, muitos
países aumentaram os seus investimentos em pessoal, infraestrutura
digital e equipamentos, mas esse esforço terá de ser mantido” se o
objetivo for conseguir que “o próximo choque seja menos perturbador e
dispendioso”, segundo o relatório.A
telessaúde é considerada uma “transformação positiva”, indicando o
estudo que, “no início de 2021, quase um em cada dois adultos tinha
consultado o seu médico remotamente em 22 países da OCDE”.Portugal
foi um dos países que recorreu às consultas digitais, assim como a
“prestadores privados”, para “aumentar o volume de cuidados não
urgentes” por parte do Serviço Nacional de Saúde. Reduzir
o impacto de futuros choques passa também por promover a saúde da
população, a retenção e recrutamento de pessoal, a recolha e a
utilização de dados. Além destas, a OCDE recomenda a promoção da
cooperação internacional, assinalando que “o sucesso e a velocidade
inigualáveis do desenvolvimento da vacina contra a covid-19 salvaram
milhões de vidas”, assim como da capacidade de resistência da rede de
abastecimento (92% dos países da organização tiveram dificuldades em
obter equipamentos de proteção individual, 83% materiais para testes e
68% ventiladores) e da administração e confiança. A
propósito desta última recomendação, o relatório chama a atenção para o
facto de a confiança nas instituições ser “necessária para respostas do
conjunto da sociedade”, assinalando que a desinformação tem “o
potencial de (as) minar”.Em relação à
informação e conhecimento, a pandemia levou a alterações em Portugal ao
nível de “novas tecnologias para melhorar a disponibilidade de dados de
saúde, acessibilidade, partilha ou privacidade (…) e proteções de
segurança” e das necessárias reformas legais.Para
a organização, que inclui 38 países da América do Norte e do Sul, da
Europa e da Ásia-Pacífico, que, em 2021, representavam 60% do PIB
mundial, construir a capacidade de resistência dos sistemas de saúde
“nunca foi tão urgente”, tendo em conta que “o legado da pandemia pode
durar décadas”.Além disso, uma nova
pandemia ou crises resultantes da resistência antimicrobiana, dos
conflitos armados e das alterações climáticas, de problemas do sistema
financeiro, de ameaças biológicas, químicas, cibernéticas e nucleares e
da agitação social podem representar testes severos.Constrangimentos
decorrentes do envelhecimento e das mudanças demográficas são outros
dos desafios dos sistemas de saúde e “agravam o impacto das crises”.O
relatório insiste que “investimentos direcionados inteligentes” na
capacidade de resistência do sistema de saúde beneficiarão as
sociedades, garantindo a existência de “alicerces prontos para a próxima
crise”."Sem esses investimentos, os custos e o impacto nas pessoas serão maiores”.