Observatório da Violência Contra Atletas faz um ano e tema continua “difícil”
21 de set. de 2021, 17:33
— Lusa/AO Online
“Inicialmente,
estaríamos à espera de mais reportes do que aqueles que apareceram, mas
temos perfeita consciência de que este não é um tema fácil de ser
tratado e as pessoas começarem a falar sobre ele. Há alguma resistência,
ainda que as pessoas admitam que este é um fenómeno que existe”,
descreve, à Lusa, a ex-atleta e investigadora universitária na área das
Ciências do Desporto Cláudia Pinheiro, que coordena o projeto.Com
um primeiro ano em que desenvolveram “todos os esforços possíveis para
poder chegar a todo o lado”, no que toca ao panorama desportivo
português, “a própria situação pandémica” não ajudou, mas a presença em
órgãos de comunicação social foi importante.“Por
exemplo, sempre que fomos à televisão, tínhamos, imediatamente a
seguir, um ou outro reporte. Temos consciência de que a comunicação
social é muito importante na divulgação, e íamos tendo resultados, mas
não tem sido um processo fácil, com alguma resistência”, conta.Face
a estes constrangimentos, estão “no bom caminho”, consideram, mas
“ainda há muito a fazer”, sobretudo face a “uma cultura desportiva
existente de validação e normalização de determinado tipo de
comportamentos que ainda é muito forte”.“Ainda
é difícil admitirem que é um fenómeno que acontece no desporto e nas
suas modalidades”, lamenta a coordenadora do projeto lançado no
Instituto Universitário da Maia (ISMAI), no distrito do Porto.Este
ano de “muita divulgação” juntou-se a um trabalho de levantamento da
situação junto de federações parceiras, em alguns casos, e entre recolha
de dados e o tratamento dos mesmos, já começam a surgir alguns frutos.Um
desses casos aconteceu na ginástica, com dados apresentados num
congresso europeu já neste mês, um trabalho que “ainda não está
terminado” e que acontece numa modalidade em que o tema tem sido muito
falado, dado o julgamento do médico Larry Nassar, nos Estados Unidos, e o
estatuto e voz da norte-americana Simone Biles, uma de centenas de
vítimas de abuso sexual por parte do antigo líder do corpo clínico da
ginástica daquele país.Para
a frente, continuam a trabalhar dados, com mais uma modalidade a
demonstrar interesse, via federação, na parceria, acelerando a obtenção
de material e a perceber a especificidade de cada especialidade.Entre
os reportes que receberam, relativos a violência no seio desportivo,
ficando de fora a relação com adeptos, esteve “um ou outro pedido de
apoio, endereçado para as entidades competentes”.Se
a pandemia de covid-19 “poderá ter colocado alguns numa maior situação
de vulnerabilidade”, uma “hipótese” relacionada com o distanciamento e
paragem provocada, o que é certo é que este é um fenómeno “ainda muito
oculto”.Muitos
agentes, explica a especialista, têm ainda “dificuldade em reconhecer
que determinado tipo de comportamentos não pode ser tolerado”, como a
humilhação e outros tipos de agressão.“Temos
de estabelecer limites. Para lá desses limites, não poderemos aceitar
que aconteçam. Se falarmos de atletas que ainda são adolescentes, são
mais vulneráveis a este tipo de comportamentos. É preciso analisar,
avaliar, refletir sobre isto. A questão dos limites é um dos pontos
centrais”, refere.Olhando
para a discussão dos limites, saltam à vista tipos de ‘motivação’ mais
extremos, com um caso recente, e mediático, a vir dos Jogos Olímpicos
Tóquio2020, o da judoca alemã Martyna Trajdos, que levou duas ‘chapadas’
fortes do treinador antes de subir ao ‘tatami’.“Todos
nós reconhecemos que, por vezes, há atletas que necessitam de uma
‘motivação’, digamos assim, um bocadinho diferente, para efetivamente
terem melhores resultados, mas essa motivação extra, como muitos
justificam, como forma de ser a única forma de se obter resultados…
Poderá haver atletas que só funcionam, quase, deste modo, mas há outros
que não, para quem um berro, um grito, uma chapada, não tem
absolutamente nada de normal. Mas não reconhecem como tal, que está tão
normalizado esse comportamento”, analisa.De
resto, de fora, “perceciona-se que não é normal”, mas o problema é
dentro do seio desportivo. “Será que é normal atirar com objetos a um
atleta, dar-lhe uma chapada?”, questiona Cláudia Pinheiro.Em
breve, realizarão o primeiro congresso do ObNVA, no ISMAI, para já sem
data definida, após ter sido adiado do primeiro aniversário devido a
vários constrangimentos, com duas oficinas para treinadores em paralelo.O
objetivo é realizar “mais ações desta natureza”, a da formação, para
todos os agentes desportivos, além da produção científica para revistas
internacionais e o contínuo trabalho de terreno, de recolha de dados, da
divulgação e de um outro projeto, com parceiros internacionais, para já
sem mais detalhes.“Todas
as pessoas que contactámos para estarem presentes no congresso, entre
diferentes agentes, atletas, antigos atletas, treinadores, dirigentes, e
todos ainda muito envolvidos no desporto, reconhecem que isto é um
fenómeno que tem de ser debatido, analisado, e que todos temos de
refletir sobre ele, para tentar ver se podemos obter iguais ou melhores
resultados sem recorrermos a práticas menos adequadas”, atira.O
projeto foi lançado em setembro de 2020 pelo ISMAI e tem como parceiros
várias instituições nacionais, desde logo o Comité Olímpico de Portugal
(COP), a Autoridade para a Prevenção e Combate da Violência no Desporto
(APCVD), a Ordem dos Psicólogos e o Instituto Português do Desporto e
Juventude (IPDJ), entre outros.