Objeção de consciência não deve colocar em causa acesso à IVG nos Açores
18 de jul. de 2025, 10:12
— Lusa/AO Online
“A
objeção de consciência dos profissionais de saúde não pode colocar em
causa o direito das pacientes”, disse a psicóloga e psicoterapeuta
Joana Amen, da Associação para o Planeamento Familiar e Saúde Sexual dos
Açores, na Comissão de Assuntos Sociais da Assembleia Legislativa
Regional, em Ponta Delgada.Segundo esta
responsável, o elevado número de profissionais de saúde que invoca a
objeção de consciência para não realizar a interrupção voluntária da
gravidez, por motivos éticos, morais ou religiosos, tem constituído,
muitas vezes, um “obstáculo” à aplicação da lei no arquipélago.“A
maioria das mulheres dos Açores que pretende realizar uma IVG, tem de
se deslocar para fora da região”, recordou Joana Amen, lembrando que os
três hospitais dos Açores (Ponta Delgada, Terceira e Horta) não
conseguem dar resposta a todas as solicitações.Dados
divulgados pela Associação de Planeamento Familiar indicam que, em
apenas um ano, 158 mulheres açorianas requereram a interrupção
voluntária da gravidez, mas apenas 10% conseguiram fazê-la no
arquipélago. As restantes, tiveram de se deslocar ao continente, à custa
do orçamento do Serviço Regional de Saúde (SRS).A
audição da psicóloga ocorreu na sequência de duas propostas
apresentadas pelos deputados do PAN e de Bloco de Esquerda, no
parlamento regional, que defende a criação de mecanismos que facilitem o
acesso à IVG por parte das pacientes residentes no arquipélago.Joana
Amen defende que seja elaborada uma “lista atualizada” de profissionais
de saúde nos Açores que sejam objetores de consciências, de forma a
facilitar o trabalho das administrações hospitalares, que se vêm
forçadas a encaminhar muitas utentes para fora dos Açores para
realizarem os tratamentos.Pedro Soares,
presidente da Secção dos Açores da Ordem dos Enfermeiros, também ouvido
pelos deputados, é contra a eventual divulgação pública dos nomes dos
profissionais de saúde que são objetores de consciência: “todos devem
ter direito à sua privacidade, já basta estarem identificados perante a
Ordem dos Enfermeiros”.Segundo explicou,
não há, nos Açores, equipas multidisciplinares suficientes que não sejam
objetores de consciência, que permitam efetuar interrupções voluntárias
da gravidez nos três hospitais do arquipélago, mas lembrou que o
problema não se verifica apenas em relação à IVG.“Não temos também enfermeiros especialistas em obstetrícia. Não temos capacidade para chegar a tudo”, disse Pedro Soares.Por
sua vez, Pedro Neves, deputado único do PAN no parlamento dos Açores,
explicou, durante a reunião da Comissão de Assuntos Sociais, que não
pretende que haja “nenhuma perseguição” aos profissionais de saúde dos
Açores que invoquem a objeção de consciência, mas apenas que as
administrações hospitalares possam ter uma informação atualizada para
coordenarem a respostas aos pedidos de IVG.António
Lima, deputado do Bloco de Esquerda, também entende que “a privacidade”
dos objetores de consciência “é muito importante”, mas lembra que isso
não pode penalizar o livre acesso das mulheres a um tratamento que,
segundo a lei, é de livre acesso nos Açores, até às dez semanas de
gestação.