Objeção de consciência na saúde deve respeitar direitos de todos diz Conselho de Ética
23 de jan. de 2025, 10:15
— Lusa/Nuno Martins Neves
O Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV) destaca a
importância de a objeção de consciência para atos de saúde respeitar os
direitos de todos os envolvidos, num parecer divulgado quarta-feira.“Objeção
de consciência: Um direito fundamental que protege a diversidade de
valores” é o título do parecer, da iniciativa do próprio CNECV, que o
conselho justifica com a projeção pública que o tema tem tido, sobretudo
a propósito da interrupção voluntária da gravidez (IVG), e a previsão
de que o debate se intensifique no âmbito da morte medicamente
assistida, ou eutanásia.A tal acresce “a necessidade identificada de
disponibilizar ampla informação e promover a reflexão sobre o tema, no
sentido de contribuir para um debate socioprofissional mais
esclarecido”, indica o CNECV no preâmbulo do texto.A presidente do
CNECV, Maria do Céu Patrão Neves, disse à Lusa que “para equilibrar a
proteção da dignidade e dos valores dos profissionais de saúde com a
garantia de acesso dos cidadãos a cuidados de saúde de qualidade”, o
conselho apresenta duas propostas “concretas e exequíveis”.A
“obrigatoriedade da comunicação prévia do estatuto de objetor de
consciência” dos profissionais de saúde à instituição em que trabalham
permitiria “uma melhor organização do serviço” e, consequentemente, a
prestação de um melhor serviço ao utente, explicou Maria do Céu Patrão
Neves.A declaração prévia seria evidentemente “de acesso restrito” a
“quem tem responsabilidade na organização dos serviços”, assinalou a
presidente do CNECV, considerando que tendo conhecimento dos
profissionais objetores de consciência, um hospital poderá, por exemplo,
organizar o encaminhamento dos utentes, agilizando e tornando mais
eficientes os circuitos para dar uma boa resposta.A outra proposta, a
ser utilizada “em última instância” e a “título excecional”, por se
tratar de “uma questão delicada”, é a contratação de profissionais de
saúde que não sejam objetores de consciência pelos hospitais onde todos
os funcionários em causa o são.Segundo Maria do Céu Patrão Neves,
esta seria uma alternativa ao encaminhamento para o privado dos utentes
que recorrem a esses estabelecimentos de saúde.A presidente do
conselho reconhece que a questão da objeção de consciência ao nível da
prestação de cuidados de saúde “não é fácil”, mas lamenta que exista por
vezes a “tendência para as respostas facilitistas”, para uma “visão
redutora e dicotómica” de que “para salvaguardar os direitos de alguns
temos de sacrificar os direitos de outros”.No parecer, o CNECV
defende ainda que “as instituições e as ordens profissionais devem
investir em formação sólida e contínua sobre o direito à objeção de
consciência, para que as decisões dos profissionais sejam informadas,
responsáveis e em conformidade com os valores éticos, legais e
deontológicos da profissão”.De recordar que o tema da objeção de
consciência é um tema que tem estado em debate nos Açores, região onde
17 dos 23 médicos especialistas em ginecologia e obstetrícia nos três
hospitais do Serviço Regional de Saúde (Ponta Delgada, Angra do Heroísmo
e Horta) declararam objeção de consciência à prática de IVG, o que
significa que perto de três quartos apresentaram o seu direito de
recusar à prática de um ato da sua profissão quando tal prática entra em
conflito com a sua consciência, moral, religiosa ou humanitária.