Obesidade ainda sem reconhecimento pleno leva a falhas no encaminhamento
23 de mai. de 2025, 11:25
— Lusa/AO Online
O
alerta foi feito à agência Lusa pelo presidente da Sociedade
Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO), José Silva Nunes, a
propósito do Dia Nacional da Luta Contra a Obesidade, que será
assinalado no sábado.Questionado se a
falta de médicos de medicina geral e familiar nos cuidados de saúde
primários pode ser um entrave ao início do tratamento, o
endocrinologista afirmou “claramente que sim”, mas sublinhou que “a
barreira ainda é maior” se o médico não reconhecer a obesidade como uma
doença.“Tenho alguns doentes que reportam
isso, que tiveram dificuldade que o médico os encaminhasse para
tratamento, seja cirúrgico, seja não cirúrgico, porque o que lhes era
dito é que tem que comer menos e mexer-se mais”, contou.José
Silva Nunes lamentou que não haja “um reconhecimento da base
neurobiológica da obesidade por muitos profissionais de saúde, médicos e
não médicos”.“Obviamente que a
dificuldade de acesso aos cuidados de saúde primários é uma barreira,
mas mesmo havendo essa acessibilidade, é importante que o profissional
de saúde (…) reconheça que [a obesidade] é mesmo uma doença e que depois
trate o doente”, precisou.“Se não tem
meios para tratar, deve encaminhar essas pessoas para tratamento. Agora,
o que não podemos é fechar os olhos a este problema, não reconhecendo a
existência desta doença e deixando que estas pessoas continuem sem
tratamento”, alertou.O especialista
adiantou que há um esforço para melhorar o acesso ao tratamento, com o
lançamento, ainda este ano, do percurso de cuidados integrados da pessoa
com obesidade da Direção-Geral de Saúde, que definirá o modelo de
atendimento e de seguimento do doente nos cuidados de saúde primários e
hospitalares.Alertou, por outro lado, para
o aumento da prevalência da obesidade, com “uma repercussão brutal em
termos da saúde global das populações”, uma vez que é fator de risco
para mais de 200 doenças, entre as quais cardiovasculares, cancro e
respiratórias.“Apesar de todas as medidas
tomadas em termos de prevenção, a realidade nacional e internacional é
que se trata de uma doença cuja expressão não para de aumentar, o que
cria um problema grave em termos dos sistemas de saúde”, afirmou. Sublinhou
que a prevenção é “uma arma extremamente importante”, mas “falha muitas
vezes e quando falha surge a doença” que é necessário tratar,
representando “um peso grande nos sistemas de saúde”.”Temos
agora fármacos que são muito mais potentes para tratar a obesidade, mas
são caros e não são comparticipados, limitando grandemente a
acessibilidade das pessoas que padecem desta doença a um tratamento
eficaz”, lamentou.Embora reconheça os
custos desta comparticipação para o Estado, defendeu que, a médio e
longo prazo, terá benefícios em termos de custo-efetividade, sendo
necessário dar “o primeiro passo”. “A
cirurgia, apesar de tudo, o SNS ainda providencia a custo zero. É
verdade que há longos tempos de espera, mas há uma luz ao fundo do
túnel. Em relação aos fármacos, não havendo comparticipação (…) é mesmo a
impossibilidade no atingimento dessa arma terapêutica”, assinalou.José
Silva Nunes realçou os elevados custos que comporta tratar a obesidade,
mas não a tratar implica também “custos extremamente elevados”, em
termos de todas as outras doenças que advêm da obesidade.Segundo
o estudo Custo e Carga da Obesidade, publicado no final do ano passado,
a obesidade e a pré-obesidade representam um custo direto anual de 1,14
mil milhões de euros em Portugal.“Até do
ponto de vista económico, a obesidade tem um impacto brutal,
correspondendo a muito perto de 6% dos gastos em saúde”, realçou José
Silva Nunes.Em 2022, o excesso de peso afetava 37,3% da população adulta portuguesa e a obesidade 15,9%.