"O que vimos foi a esquerda a desviar-se para ser ultrapassada pela direita", diz Centeno
4 de mai. de 2019, 04:04
— AO Online/ Lusa
“O que ontem vimos foi a esquerda a desviar-se para ser ultrapassada pela direita e aprovar algo que não estava nas nossas posições comuns”, disse o ministro das Finanças em entrevista à SIC.Mário Centeno considerou que o diploma “na sua raiz” correspondia às propostas do CDS e do PSD e o que o Bloco de Esquerda (BE) e o PCP fizeram foi “abster-se numa boa parte do diploma”.“O que foi aprovado não foi a proposta do BE nem do PCP, mas, sim, o diploma que tem na raiz as propostas do CDS e do PSD às quais estes partidos tiraram os travões da sustentabilidade”, sublinhou o governante.“Em política, e em particular na condução da governação, as cautelas não se medem por estarmos ou não sozinhos”, considerou.O ministro salientou que nenhum partido com assento parlamentar colocou esta matéria no seu programa eleitoral, defendendo que a aprovação das alterações "é uma falta de respeito pelos eleitores, pelos contribuintes, pelos portugueses", ao implicar uma despesa de 800 milhões de euros, contra os 240 milhões que estavam previstos.O diploma aprovado na quinta-feira na comissão parlamentar de Educação pelo BE, PCP, PSD e CDS "esconde a despesa, que manhosamente coloca no futuro", realçou Mário Centeno."É muito estranho ver a direita em Portugal, que tinha para si os cânones da responsabilidade orçamental, tomar decisões como esta", disse ainda o governante, que criticou a falta de preparação dos partidos que aprovaram as alterações."O Mourinho e o Guardiola quando treinavam o Real Madrid e o Barcelona discutiam mais as táticas das suas equipas do que aqueles partidos discutiram a educação em Portugal em conjunto", considerou o ministro.Questionado sobre se foi contactado por Bruxelas devido ao anúncio do primeiro-ministro, António Costa, segundo o qual o Governo irá demitir-se caso o diploma dos professores seja aprovado em votação final no plenário, Centeno respondeu negativamente."Não, nem informalmente", garantiu, considerando que a posição do Governo "foi tomada com muita humildade".Mário Centeno afastou ainda a possibilidade de um Orçamento Retificativo, afirmando que "Portugal tem hoje uma credibilidade interna e externa que não é compatível com retificativos".A comissão parlamentar de Educação aprovou na quinta-feira, na especialidade, uma alteração ao decreto do Governo, com os votos contra do PS e o apoio de todas as outras forças políticas, estipulando que o tempo de serviço a recuperar são os nove anos, quatro meses e dois dias reivindicados pelos sindicatos docentes.Não ficou estabelecido qualquer calendário de recuperação do tempo de serviço, tendo sido chumbadas as propostas do PCP e Bloco de Esquerda nesse sentido, mas foi aprovado, ainda assim, que os dois anos, nove meses e 18 dias devem ser recuperados a partir do próximo ano, com efeitos a janeiro de 2019.Depois de ter estado reunido cerca de 40 minutos com o Presidente da República, António Costa anunciou que comunicou a Marcelo Rebelo de Sousa que o Governo se demite caso a contabilização total do tempo de serviço dos professores seja aprovada em votação final global."Ao Governo cumpre garantir a confiança dos portugueses nos compromissos que assumimos e a credibilidade externa do país. Nestas condições, entendi ser meu dever de lealdade institucional informar o Presidente da República e o presidente da Assembleia da República [Ferro Rodrigues] que a aprovação em votação final global desta iniciativa parlamentar forçará o Governo a apresentar a sua demissão", afirmou António Costa, numa declaração ao país.