“O protocolo é o primeiro a chegar e é sempre o último a sair”
25 de out. de 2026, 08:00
— Ana Carvalho Melo
Há profissões que só se notam quando falham. A de Pedro Lima era uma delas. Durante 30 anos, foi ele quem fez com que a chegada de diversas entidades corresse sem sobressaltos. Sabia onde cada convidado se sentava, quem discursava e a que horas, e tudo era feito com a maior descrição possível e devida. “O protocolo é o primeiro a chegar e é sempre o último a sair”, resume, explicando que tem 44 anos e 1 mês de serviço na administração pública regional, 30 dos quais como coordenador do protocolo e relações públicas do Governo dos Açores.Nasceu na freguesia de São José, em Ponta Delgada. É o mais velho de quatro irmãos e é casado com uma graciosense. Faz 66 anos a 27 de outubro. O pai, natural dos Ginetes, era empregado da mercearia Pereira e Pereira, que Pedro Lima descreve como aquela que veio a ser, mais tarde, a primeira superfície self-service dos Açores, tendo sido o braço direito do gerente. As memórias de Natal ficaram-lhe na pele. Recorda a carrinha que levava as compras a casa dos clientes e o dia 8 de dezembro, o dia das montras, em que o pai chegava de madrugada, cansado. Comer camarão, lembra, era então “só para gente muito abonada”.Estudou na escola primária em Santa Clara e seguiu para a Escola Preparatória Roberto Ivens e para o Liceu Nacional de Ponta Delgada (atual Escola Secundária Antero de Quental), onde concluiu o 11.º ano. Entre os professores que mais o marcaram, recorda o artista plástico Tomás Borba Vieira, de Artes Visuais, e Luís Bastos, de Filosofia.Pedro Lima conta que a primeira experiência com o protocolo, ou, dito de forma mais simples, com a organização de eventos, aconteceu na juventude, quando fundou com amigos a “Sociedade Académica”, num anexo da casa de um deles. “Fundámos um clube chamado Sociedade Académica, onde reuníamos um pequeno grupo de amigos comuns e fazíamos os nossos bailes. E eu recordo perfeitamente que, nessa altura, eu era o responsável do departamento de relações públicas (...) dessa pequena sociedade, uma coisa de rapazes, uma brincadeira sem qualquer vínculo estatutário”, recorda.Em 1977, aos 16 anos, entrou para a Irmandade do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Em 2027, completa 50 anos como membro, sempre “nos bastidores”. Chegou a ser convidado para chefe de cerimónias, mas recusou por conflito de interesses, já que trabalhava no protocolo do Governo.Assistiu à tomada de posse do I Governo Regional dos Açores, a 8 de setembro de 1976, no Palácio da Conceição.Depois do serviço militar, ingressou na função pública em 1983, na Secretaria Regional do Comércio e Indústria. No ano seguinte, deu os primeiros passos no protocolo, sob a orientação do secretário regional, António Costa Santos, que lhe passou a confiar a organização de jantares e receções a congressistas norte-americanos. Em 1988, transitou para o protocolo da Presidência do Governo. Em 1996, com a alternância política, assumiu a chefia.Ao longo dos 30 anos como coordenador do protocolo, trabalhou com os presidentes do Governo Regional Carlos César, Vasco Cordeiro e José Manuel Bolieiro. “Os presidentes Carlos César, Vasco Cordeiro e José Manuel Bolieiro foram pessoas com quem eu tive o grato gosto e a honra de trabalhar. Eu sei que dei o meu melhor e eles também deram o seu melhor”, recorda, revelando que mantém uma relação de proximidade com todos, com quem troca mensagens nos aniversários e também com Mota Amaral e Alberto Madruga da Costa.Sobre o seu trabalho, Pedro Lima explica que consiste numa organização rigorosa de bastidores, cujo objetivo principal é simplificar os eventos e conferir dignidade às funções institucionais. Para tal, tinha de estar presente e apoiar o presidente do Governo Regional em todas as deslocações oficiais, audiências, eventos e viagens, bem como preparar todos os detalhes de cerimónias formais, como a Receção de Ano Novo, as comemorações do Dia da Região e do Dia de Portugal, jantares de gala e almoços de trabalho. Cabe-lhe também criar e fazer cumprir o guião do evento, estabelecendo os tempos certos para cada momento (a chamada fita do tempo), para que as entidades saibam exatamente onde se sentar, quem discursa, quando assinar o livro de honra ou como saudar os convidados.Destas atribuições, realça ainda a de definir e manter um stock permanente de ofertas institucionais de qualidade (como peças de artesanato regional ou de porcelana) para entregar a presidentes, ministros, embaixadores e comitivas internacionais. Pedro Lima defende que o trabalho de protocolo deve ser feito com diplomacia, paciência e persuasão. “No protocolo não impomos, sugerimos. É uma forma airosa e diplomática de pedir que nos compreendam”, afirma.De todas estas experiências, ficam momentos e visitas históricas marcantes, como a do Papa São João Paulo II a São Miguel, em 1991. Na ocasião, Pedro Lima acolheu convidados junto ao Forte de São Brás e recorda o Campo de São Francisco cheio, o aplauso ao avião papal e a passagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres em silêncio, ao som de um coro de várias vozes. “Eu não podia chorar porque estava em trabalho”, conta.Recorda também, com emoção, o dia 8 de junho de 2013, quando foi condecorado pela Ordem Soberana e Militar de Malta, em reconhecimento pelo seu trabalho. Salienta ainda o privilégio de coordenar visitas de relevo, como as dos reis de Espanha (Juan Carlos e Sofia), do príncipe Alberto II do Mónaco e de presidentes da República como, Aníbal Cavaco Silva, Jorge Sampaio e Marcelo Rebelo de Sousa.Homem de fé, considera que “a cereja no topo do bolo” foi a viagem ao Vaticano, onde levou uma coroa do Divino Espírito Santo e uma carta do então presidente Vasco Cordeiro.Pedro Lima encerrou a carreira com duas grandes cerimónias, em maio, com o Dia da Região, no Teatro Micaelense, e o Dia de Portugal, em Angra do Heroísmo e Praia da Vitória, em junho, “o fecho da minha atividade”. Pediu a reforma e saiu em agosto. Continua a acordar às sete da manhã e diz que ainda se está a adaptar: “São três meses, ainda não é nada”. Está agora a organizar o arquivo pessoal e a compilar as numerosas mensagens recebidas aquando da sua despedida. E o que perdeu pelo caminho? “Em termos pessoais falhei a diversos compromissos, nomeadamente o batismo de um familiar”, recordou.