O oceano é o maior aliado contra as alterações climáticas, mas está em apuros
6 de dez. de 2023, 16:25
— Lusa
Frequentemente
deixado de fora nas discussões centrais das cimeiras do clima, o oceano
é o principal aliado contra as alterações climáticas, sendo responsável
pela absorção de um terço do dióxido de carbono emitido e 90% do calor
em excesso, causado pela emissão de gases de efeito de estufa.Esse
papel pode, no entanto, perder-se se o oceano não for protegido, alerta
Francesca Santoro, coordenadora do programa de literacia dos oceanos da
Comissão Oceanográfica Intergovernamental da UNESCO (IOC/UNESCO).“O
oceano funciona como mitigador do impacto das alterações climáticas,
mas há alguns sinais de que esta capacidade está progressivamente a
reduzir-se devido à continuidade das emissões de dióxido de carbono. É
muito preocupante, porque se o oceano para de funcionar como funciona
agora, estaremos em grandes apuros”, sublinhou a especialista.Francesca
Santoro está no Dubai, Emirados Árabes Unidos, a participar na 28.ª
Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP28), que
espera poder devolver ao tema do oceano algum destaque, perdido na
última cimeira em Sharm el-Sheikh, Egito.Um
dos seus objetivos é mudar a narrativa, para que o oceano possa
finalmente ser visto como o principal aliado no combate às alterações
climáticas e não apenas como uma vítima.Mas
como é que pode contribuir? Francesca Santoro refere, como exemplo, o
carbono azul, isto é, o carbono sequestrado, armazenado e liberado pelos
ecossistemas costeiros e marinhos.“As
algas marinhas e os mangais são cinco vezes mais eficazes do que as
plantas terrestres no que toca ao armazenamento de carbono, (…) mas se
as destruirmos vão libertar todo o carbono que absorveram. São soluções
baseadas na natureza”, explicou a especialista.Por
isso a importância de proteger o oceano, que já apresenta “sinais
preocupantes” do impacto das alterações climáticas, como a acidificação
causada pelo excesso de dióxido de carbono.“É
uma das coisas que está a ter impacto em toda a estrutura dos
ecossistemas marinhos”, referiu, apontando também o aumento da
temperatura da água, particularmente lesiva para os recifes de coral e
um dos motivos para o cada vez maior número de espécies invasoras, com
impacto na pesca e nas economias locais.“Outro
impacto é a subida do nível do mar, que afeta as maiores cidades
costeiras no mundo, e quando falamos do aumento da frequência de
tempestades nas zonas costeiras, isto tem um impacto direto nas
pessoas”, acrescenta.Por que motivo,
então, é que a relevância do oceano continua a não estar refletida nos
resultados de cimeira após cimeira? Francesca Santoro justifica falando
em “cegueira do oceano”.“Não é uma
preocupação para a população e, normalmente, os políticos ouvem as
preocupações da população”, sustentou, apesar de reconhecer que o
percurso, nos últimos anos, tem sido positivo e refere Portugal como um
importante promotor do oceano.A literacia
é, por isso, outra das frentes de ataque da UNESCO e, a esse nível, a
responsável volta a referir o país como um bom exemplo, por ter sido o
primeiro a acolher um dos principais programas da IOC/UNESCO, a Escola
Azul, que pretende promover a literacia do mar na comunidade escolar e
que, em Portugal, foi já foi adotado por mais de uma centena de escolas.