3 de jan. de 2019, 12:14
— Tatiana Ourique / AO Online
.Na casa da avó Alzira o Eggnog estava ao lado do licor de
tangerina caseiro que ela tão bem sabia fazer. Do outro lado da licoreira de
vidro aos quadrados estava uma garrafa de Vat69 que o avô Chico trazia todos os
anos da Base. O rei dos licores americanos chamava-se Sheridans. Uma garrafa
mágica dividida a meio: de um lado o branco das natas e do outro o castanho
licor de café. Servir um Sheridans tinha técnica: a garrafa tinha que ser
inclinada direita para que a mistura caísse diretamente proporcional no copo.
Na mesa da minha avó havia Skittles e amendoim com casca.
Havia Pirolito ao lado do Dr. Pepper e do Mountain Dew e a Coca Cola podia ter
sabor a cereja ou a baunilha. Na mesa da minha avó os chocolates 9 Ilhas
misturavam-se com os 3 Musketeers e uma miniatura de Butterfinger era raptada
antes dos chocolates Regina. Na mesa da minha avó as Donas Amélias piscavam o
olho às congéneres americanas que não tinham o nome mas eram as rainhas: as
Reese´s. Já os Baby Ruth são, ainda hoje, os chocolates favoritos de muitos
terceirenses.
“Queres uns émiémes? Ou umas maminhas?” perguntava a avó
Alzira aos meus amigos enquanto apontava para os coloridos M&M´s e para os
Kisses embrulhados em papel brilhante. Eu corava. E os amigos entendiam.
Mas a verdadeira perdição dos mais novos eram os caramelos
Sugar Candy. De papel amarelo e com as letras a vermelho. Eram pouco comuns e,
por isso, mais desejados (ou então pela quantidade de açúcar que continham). A
minha mãe conta que foram os primeiros presentes de Natal das famílias cujos
patriarcas trabalhavam na base, como era o caso do avô Chico. “Poupávamos o
caramelo de tal forma para que, durante um mês, fosse a nossa sobremesa”,
lembrava a minha mãe com olhar de pena para os mais novos a devorar a guloseima
num ápice. Também lhe fazia alguma impressão ver-nos trincar os rebuçados
amarelos de Butter Scotch “como uma galinha a trincar milho”- palavras dela.
Da base vinham bebidas com e sem álcool e vinham doces, mas
os aperitivos também não falavam português. As Pringles e os Combos com sabor a
pizza só não estavam na mesa se o avô fosse lá comprar depois de meados de
novembro. É que a limpeza dos portugueses às prateleiras do B.X. começava demasiado
cedo.
Há cerca de dois anos os sabores de Natal mudaram na
Terceira. Já são poucas as mesas onde podemos roubar uma “maminha” ou um
“émiéme”. As aguardentes e os licores caseiros voltaram a ganhar lugar de
destaque nas noites de “Menino Mija” e até as tangerinas voltaram a ter
estatuto de iguaria de Natal. Os amendoins despiram-se de chocolate e de cores.
São agora servidos ao natural com categoria eterna de aperitivos nas mijinhas dos
meninos açorianos. Com as letras em inglês ou em português… Porque esta
tradição é poliglota.