O jesuíta do fim do mundo que tentou cumprir o Concílio Vaticano II
Óbito/Papa
21 de abr. de 2025, 08:47
— Lusa/AO Online
Nascido em Buenos Aires, a 17 de dezembro de 1936, o primeiro jesuíta
que chegou à liderança da Igreja Catóica tentou dar sinais de
modernidade à instituição milenar, indicando mulheres para cargos de
poder e entreabrindo as portas aos divorciados e homossexuais, decisões
que motivaram críticas dos setores conservadores da Igreja. Na
primeira missa depois de eleito, os cardeais ouviram Francisco pedir
que Deus lhes perdoasse por irem buscar um Papa ao “fim do mundo” e,
desde então, ficou marcado pela atitude de desprendimento em relação aos
bens materiais e por um tom duro na condenação dos excessos do
capitalismo.Dispensando mordomias e sem
querer viver no Palácio Pontifício mas na Casa de Santa Marta, onde se
alojam hóspedes do Vaticano, o primeiro Papa não europeu em mais de
1.200 anos e o primeiro vindo do hemisfério sul introduziu mudanças,
procurando recuperar o dinamismo do Concílio Vaticano II, que considerou
estar ainda por cumprir. “Em muitos
aspetos, pode afirmar‑se que o último Concílio Ecuménico ainda não foi
inteiramente compreendido, vivido e aplicado. Estamos no caminho, e
devemos recuperar o tempo”, escreveu, na sua autobiografia “Esperança”,
recentemente publicada.“Ainda precisamos
de implementar plenamente o Vaticano II. E também varrer mais a fundo a
cultura de corte, na Cúria e em toda a parte. A Igreja não é uma corte,
não é lugar para acordos, favoritismos, manobras, não é a última corte
europeia de uma monarquia absoluta”, acrescentou.Nas
congregações gerais, encontros dos cardeais antes do conclave, o então
arcebispo de Buenos Aires, que havia sido um dos mais votados no
conclave de 2005, foi notado pelos seus pares, graças às suas propostas
de reforma da Cúria e do modelo de gestão, defendendo mais participação
dos fiéis e uma Igreja romana mais permeável às sensibilidades de outras
geografias.A nova Constituição Apostólica
fundiu serviços, reorganizou estruturas e introduziu a possibilidade de
mais mulheres e leigos em cargos de gestão. A
política de rigor em relação aos abusos sexuais cometidos por muitos
religiosos foi uma das marcas do seu pontificado, nomeando novas
estruturas de fiscalização, assumindo indemnizações e afastando
responsáveis.O combate aos abusos sexuais
na Igreja Católica foi assumido por Francisco como uma das suas
batalhas, o que o levou a convocar mesmo uma cimeira no Vaticano em
fevereiro de 2019.“Nenhum abuso deve
jamais ser encoberto e subestimado, pois a cobertura dos abusos favorece
a propagação do mal e eleva o nível do escândalo”, disse aos
representantes da hierarquia religiosa e líderes de conferências
episcopais reunidos em Roma.Além do “olhar
para as periferias”, Francisco deixou uma cúria reorganizada, mais
focada na ação social e no apoio aos desfavorecidos.Logo
em 2015, na encíclica “Laudato Si” (Louvado Sejas), Bergoglio assumiu
uma das suas grandes causas, defendendo que os países ricos devem
sacrificar algum do seu crescimento e libertar recursos necessários para
os países mais pobres, num texto em que propôs uma revolução social,
ambiental e económica."Chegou a hora de
aceitar crescer menos em algumas partes do mundo, disponibilizando
recursos para outras partes poderem crescer de forma saudável", escreveu
o Papa na encíclica publicada em junho de 2015.Cinco
anos depois, numa nova encíclica, intitulada “Fratelli Tutti” (Todos
Irmãos), dedicada à fraternidade e amizade social, Francisco criticou o
reacendimento de populismos, racismo e discursos de ódio, lamentando a
perda de “sentido social” e o retrocesso histórico que o mundo está a
viver.“A história dá sinais de regressão.
Reacendem-se conflitos anacrónicos que se consideravam superados,
ressurgem nacionalismos fechados, exacerbados, ressentidos e
agressivos”, escreveu.Identificou, então, o
surgimento de “novas formas de egoísmo e de perda do sentido social
mascaradas por uma suposta defesa dos interesses nacionais” e associou
discursos de ódio a regimes políticos populistas e a “abordagens
económico-liberais”, que defendem a necessidade de “evitar a todo o
custo a chegada de pessoas migrantes”.Além
destas duas encíclicas, Francisco publicou a “Lumen fidei” (Luz da Fé)
em 2013, que havia sido iniciada por Bento XVI e está focada na relação
da fé com o mundo na procura do bem comum, e a “Dilexit nos” (Amou-nos)
em 2024 sobre o “amor humano e divino do coração de Jesus Cristo” que
assinalou o início do ano santo católico (Jubileu) de 2025.O
Papa teve de conviver com a sombra do seu antecessor, Bento XVI
(1927-2022), que renunciou em 2013 e ficou a viver no Mosteiro Mater
Ecclesiae - localizado na Cidade do Vaticano - e que, muitas vezes, foi
visto como o congregador das forças mais conservadoras na Igreja
Católica em contraponto à ação do pontífice argentino.Na
sua autobiografia, o Papa lamentou o crescimento dos populismos,
defendeu os homossexuais e divorciados e criticou os tradicionalistas
católicos ao mesmo tempo que pediu um novo papel da Igreja num tempo de
conflitos e incertezas, comparável ao primeiro milénio.No
seu livro de mais de 350 páginas, o Papa recordou também a declaração
que assinou sobre as “bênçãos aos irregulares”, numa referência aos
divorciados ou católicos que não cumpram as exigências da doutrina,
publicada pelo Dicastério para a Doutrina da Fé, em dezembro de 2023.“Abençoam‑se
as pessoas, não as relações”, porque “na Igreja, são todos convidados,
mesmo as pessoas divorciadas, mesmo as pessoas homossexuais, mesmo as
pessoas transexuais”, escreve Francisco, comentando a polémica.A
“primeira vez que um grupo de transexuais veio ao Vaticano, saíram a
chorar, comovidas porque lhes tinha dado a mão, um beijo... Com se
tivesse feito algo de excecional para elas. Mas são filhas de Deus!
Podem receber o batismo nas mesmas condições dos outros fiéis e nas
mesmas condições dos outros, podem ser aceites na função de padrinho ou
madrinha, bem como ser testemunhas de um casamento”, acrescentou o Papa,
que condenou as leis contra a homossexualidade.Sobre
as reformas que imprimiu na Igreja, Francisco disse que nunca esteve
sozinho no processo de decisão, minimizando a resistência em setores da
Igreja, “na maioria das vezes ligadas a um escasso conhecimento ou a
alguma forma de hipocrisia”.“Os pecados
sexuais são aqueles que a alguns causam mais rebuliço”, mas “não são, de
facto, os mais graves”, ao contrário de outros como “a soberba, o ódio,
a mentira, a fraude ou a prepotência”.“É
estranho que ninguém se preocupe com a bênção de um empresário que
explora as pessoas, e esse é um pecado gravíssimo, ou com quem polui a
casa comum, enquanto se escandaliza quando o Papa abençoa uma mulher
divorciada ou um homossexual”, comentou. Quanto ao futuro, escreveu na autobiografia, “a Igreja seguirá em frente, na sua história”.“Eu
sou apenas um passo” e “também o papado amadurecerá; eu espero que
amadureça, olhando também para trás, que assuma cada vez mais o papel do
primeiro milénio”, resumiu.