Emanuel Cabral diz-se privilegiado por
ter crescido no seio de uma família que lhe proporcionou todas as
condições para viver uma infância plena e muito feliz.
Conta-nos que cresceu “sabendo que
nada nesta vida é um dado adquirido, que a liberdade se conquista e
é indissociável da responsabilidade e que os valores humanos tais
como o respeito, a amizade, o sentido de comunidade e de partilha,
são fundamentais para se viver em plenitude”.
Sendo o mais velho de quatro irmãos,
“filho de um pai que trabalhou como administrativo na delegação
regional da RTP e de uma mãe que dedicou a sua vida profissional
como professora primária”, guarda muitas e boas memórias da sua
infância, “desde os convívios familiares, às cerimónias
festivas, às brincadeiras com os meus irmãos, as saídas à rua
para estar com os amigos”. Recorda também as idas ao “campo com
o meu pai e o meu avô materno na altura das férias de verão, as
vindimas, a apanha do milho e do feijão” e ainda as idas aos
banhos na Baixa D’Areia, no Cerco e na Caloura. “Experiências
que conservo para a vida, apenas marcada negativamente pela partida
prematura do meu pai quando ainda tinha 15 anos”.
Emanuel Cabral afirma que “o gosto
pela música nasceu comigo”, explicando que “cresci rodeado de
sons, instrumentos e estímulos musicais que moldaram, desde cedo, a
minha relação com esta forma de arte”, dando como exemplo “as
panelas e tampas de alumínio que a minha avó materna guardava na
cozinha e se transformavam numa bateria improvisada, os kazoos feitos
de cana pelo meu avô materno, a melódica e o bandolim que existiam
em casa dos avós (...)”.
Ao ingressar no quinto ano de
escolaridade do ciclo preparatório, “os meus pais matricularam-me
no Conservatório Regional de Ponta Delgada. Foi aí que o gosto pela
música ganhou forma”. Confessa que o ambiente escolar do
Conservatório “proporcionava-me um profundo sentimento de
realização artística. As notas escritas na partitura ganhavam
vida, emocionavam-me, aquando das audições formais e culturais em
que o Conservatório se apresentava, desde o Natal dos Hospitais,
apresentado pelo saudoso Victor Cruz no Teatro Micaelense, às
celebrações religiosas, até às viagens realizadas pelo Coro
Juvenil do Conservatório, sob a direção da saudosa e querida
professora Natália Silva (...)”.
Ingressou na Universidade dos Açores
com o objetivo de se formar em Engenharia Mecânica, visando
especializar-se em Acústica Arquitetural. Contudo, a vertente
performativa da música fazia-lhe falta. Foi então que, no último
ano do ciclo preparatório do curso de Engenharia Mecânica, “uma
antiga colega do Conservatório deu-me a conhecer a licenciatura em
Produção e Tecnologias da Música, ministrada na Escola Superior de
Música e das Artes do Espetáculo do Porto. Este curso conciliava a
cientificidade do som com a vertente de criação artística centrada
na tecnologia”.
Após concluir a licenciatura em
Produção e Tecnologias da Música, Emanuel Cabral regressou a São
Miguel e, “numa altura em que o Coliseu Micaelense estava a
construir uma equipa técnica própria e residente. Fui convidado a
apresentar o meu currículo e, como já estava a trabalhar na área
do ensino, propus um acordo de colaboração, mas a tempo parcial”.
Recorda que “naquela altura, o Coliseu Micaelense não dispunha de
sistema de áudio próprio, tendo ficado responsável pelos
procedimentos concursais para a aquisição do primeiro sistema
eletroacústico de difusão para a sala principal, da estrutura de
monitores, das mesas de mistura digitais para sala e palco, etc., e
responsável pela constituição da área técnica de som, convidando
mais um elemento para integrar a equipa”. Foi o início de uma
jornada que “contou com cerca de 15 anos, marcada por valiosas
experiências com músicos e artistas das mais variadas áreas
performativas, desde regionais a internacionais, incluindo as suas
respetivas equipas técnicas e de produção, possibilitando muitas e
múltiplas aprendizagens”.
Ao longo de muitos anos, Emanuel Cabral
foi investindo “em equipamentos de áudio profissional que
atualmente me permitem desenvolver trabalhos de produção musical”.
Tem um estúdio que prefere designar “como um ‘laboratório’”,
até porque “a minha vida profissional a tempo inteiro está
direcionada atualmente para o ensino, não permitindo dedicar-me por
inteiro à produção musical”. É, portanto, “um espaço de
experimentação e de criação pessoal”.
Emanuel Cabral trabalha com vários
artistas, na sua maioria açorianos, “não obstante, de outros que,
não sendo naturais da região, foram por ele apadrinhados”.
Enaltece que todos os projetos “deixam marcas únicas e pessoais.
Nenhum é igual ao outro e todos merecem a minha máxima entrega”.
São, “invariavelmente, experiências de profunda aprendizagem”.
Como já referiu, no Conservatório
Regional de Ponta Delgada, é professor e “leciono as disciplinas
do curso secundário, nomeadamente a de Acústica Musical e
Organologia e a de Tecnologias e Informática Musical, bem como a
disciplina de Produção e Tecnologias da Música em regime livre”.
Integra ainda a comissão ‘Música na Comunidade’, cujo objetivo
é promover a proximidade entre a escola e a comunidade através de
projetos artísticos com impacto social e cultural”. É também
responsável pela “implementação de soluções tecnológicas
ajustadas ao ensino vocacional da música e pela gestão dos recursos
audiovisuais do Conservatório, estando em desenvolvimento projetos
no âmbito da futura requalificação do edifício”.
Paralelamente, está envolvido num
projeto de “consultoria acústica visando a melhoria do conforto
acústico de uma sala de ensaios de uma banda filarmónica e de outro
que se prevê para a construção de um novo estúdio em São Miguel
por parte de um investidor estrangeiro”.
Está igualmente a trabalhar as
“edições e mistura de dois concertos ao vivo - um do projeto
Alquimia, apresentado no Teatro Micaelense, e outro da Banda
Filarmónica Nossa Senhora da Estrela, no Coliseu Micaelense -,
encontrando-me também a preparar alguns concertos e festivais de
verão, um deles fora de São Miguel”. Conjuntamente com uma equipa
artística da Associação 432Hz, da qual faz parte como presidente
da Assembleia Geral, está a colaborar na criação de alguns
workshops que serão brevemente anunciados.Emanuel Cabral afirma que o seu
principal foco é “continuar a contribuir para a consolidação de
projetos que venho desenvolvendo há já algum tempo”, sendo que
“tudo o resto são sonhos que só o tempo dirá serem possíveis ou
não de concretizar”.