“O gosto pela música nasceu comigo”

8 de mar. de 2026, 09:00 — Susete Rodrigues

Emanuel Cabral diz-se privilegiado por ter crescido no seio de uma família que lhe proporcionou todas as condições para viver uma infância plena e muito feliz. Conta-nos que cresceu “sabendo que nada nesta vida é um dado adquirido, que a liberdade se conquista e é indissociável da responsabilidade e que os valores humanos tais como o respeito, a amizade, o sentido de comunidade e de partilha, são fundamentais para se viver em plenitude”. Sendo o mais velho de quatro irmãos, “filho de um pai que trabalhou como administrativo na delegação regional da RTP e de uma mãe que dedicou a sua vida profissional como professora primária”, guarda muitas e boas memórias da sua infância, “desde os convívios familiares, às cerimónias festivas, às brincadeiras com os meus irmãos, as saídas à rua para estar com os amigos”. Recorda também as idas ao “campo com o meu pai e o meu avô materno na altura das férias de verão, as vindimas, a apanha do milho e do feijão” e ainda as idas aos banhos na Baixa D’Areia, no Cerco e na Caloura. “Experiências que conservo para a vida, apenas marcada negativamente pela partida prematura do meu pai quando ainda tinha 15 anos”. Emanuel Cabral afirma que “o gosto pela música nasceu comigo”, explicando que “cresci rodeado de sons, instrumentos e estímulos musicais que moldaram, desde cedo, a minha relação com esta forma de arte”, dando como exemplo “as panelas e tampas de alumínio que a minha avó materna guardava na cozinha e se transformavam numa bateria improvisada, os kazoos feitos de cana pelo meu avô materno, a melódica e o bandolim que existiam em casa dos avós (...)”. Ao ingressar no quinto ano de escolaridade do ciclo preparatório, “os meus pais matricularam-me no Conservatório Regional de Ponta Delgada. Foi aí que o gosto pela música ganhou forma”. Confessa que o ambiente escolar do Conservatório “proporcionava-me um profundo sentimento de realização artística. As notas escritas na partitura ganhavam vida, emocionavam-me, aquando das audições formais e culturais em que o Conservatório se apresentava, desde o Natal dos Hospitais, apresentado pelo saudoso Victor Cruz no Teatro Micaelense, às celebrações religiosas, até às viagens realizadas pelo Coro Juvenil do Conservatório, sob a direção da saudosa e querida professora Natália Silva (...)”. Ingressou na Universidade dos Açores com o objetivo de se formar em Engenharia Mecânica, visando especializar-se em Acústica Arquitetural. Contudo, a vertente performativa da música fazia-lhe falta. Foi então que, no último ano do ciclo preparatório do curso de Engenharia Mecânica, “uma antiga colega do Conservatório deu-me a conhecer a licenciatura em Produção e Tecnologias da Música, ministrada na Escola Superior de Música e das Artes do Espetáculo do Porto. Este curso conciliava a cientificidade do som com a vertente de criação artística centrada na tecnologia”. Após concluir a licenciatura em Produção e Tecnologias da Música, Emanuel Cabral regressou a São Miguel e, “numa altura em que o Coliseu Micaelense estava a construir uma equipa técnica própria e residente. Fui convidado a apresentar o meu currículo e, como já estava a trabalhar na área do ensino, propus um acordo de colaboração, mas a tempo parcial”. Recorda que “naquela altura, o Coliseu Micaelense não dispunha de sistema de áudio próprio, tendo ficado responsável pelos procedimentos concursais para a aquisição do primeiro sistema eletroacústico de difusão para a sala principal, da estrutura de monitores, das mesas de mistura digitais para sala e palco, etc., e responsável pela constituição da área técnica de som, convidando mais um elemento para integrar a equipa”. Foi o início de uma jornada que “contou com cerca de 15 anos, marcada por valiosas experiências com músicos e artistas das mais variadas áreas performativas, desde regionais a internacionais, incluindo as suas respetivas equipas técnicas e de produção, possibilitando muitas e múltiplas aprendizagens”. Ao longo de muitos anos, Emanuel Cabral foi investindo “em equipamentos de áudio profissional que atualmente me permitem desenvolver trabalhos de produção musical”. Tem um estúdio que prefere designar “como um ‘laboratório’”, até porque “a minha vida profissional a tempo inteiro está direcionada atualmente para o ensino, não permitindo dedicar-me por inteiro à produção musical”. É, portanto, “um espaço de experimentação e de criação pessoal”. Emanuel Cabral trabalha com vários artistas, na sua maioria açorianos, “não obstante, de outros que, não sendo naturais da região, foram por ele apadrinhados”. Enaltece que todos os projetos “deixam marcas únicas e pessoais. Nenhum é igual ao outro e todos merecem a minha máxima entrega”. São, “invariavelmente, experiências de profunda aprendizagem”. Como já referiu, no Conservatório Regional de Ponta Delgada, é professor e “leciono as disciplinas do curso secundário, nomeadamente a de Acústica Musical e Organologia e a de Tecnologias e Informática Musical, bem como a disciplina de Produção e Tecnologias da Música em regime livre”. Integra ainda a comissão ‘Música na Comunidade’, cujo objetivo é promover a proximidade entre a escola e a comunidade através de projetos artísticos com impacto social e cultural”. É também responsável pela “implementação de soluções tecnológicas ajustadas ao ensino vocacional da música e pela gestão dos recursos audiovisuais do Conservatório, estando em desenvolvimento projetos no âmbito da futura requalificação do edifício”. Paralelamente, está envolvido num projeto de “consultoria acústica visando a melhoria do conforto acústico de uma sala de ensaios de uma banda filarmónica e de outro que se prevê para a construção de um novo estúdio em São Miguel por parte de um investidor estrangeiro”. Está igualmente a trabalhar as “edições e mistura de dois concertos ao vivo - um do projeto Alquimia, apresentado no Teatro Micaelense, e outro da Banda Filarmónica Nossa Senhora da Estrela, no Coliseu Micaelense -, encontrando-me também a preparar alguns concertos e festivais de verão, um deles fora de São Miguel”. Conjuntamente com uma equipa artística da Associação 432Hz, da qual faz parte como presidente da Assembleia Geral, está a colaborar na criação de alguns workshops que serão brevemente anunciados.Emanuel Cabral afirma que o seu principal foco é “continuar a contribuir para a consolidação de projetos que venho desenvolvendo há já algum tempo”, sendo que “tudo o resto são sonhos que só o tempo dirá serem possíveis ou não de concretizar”.