O golfe ao serviço da saúde mental e de doenças crónicas
16 de nov. de 2020, 12:13
— Lusa/AO Online
São vários os estudos científicos que apontam o
golfe como uma atividade terapêutica indicada para pessoas com
problemas cardiovasculares, diabetes, obesidade, ADD (défice de atenção)
e, entre outros, músculo-esqueléticos, entre os quais o do cientista
Dr. Andrew Murray da Universidade de Edimburgo.“Para
doentes com patologias crónicas, nomeadamente osteoarticulares,
cardíacas, diabetes, tem a vantagem de ser um desporto que não implica
esforços muito violentos. E pessoas com algumas restrições podem, por
exemplo, jogar de ‘buggy’ e fazer uma movimentação menos marcada ou
jogar em campos mais planos. Proporciona-lhes um tipo de exercício
isométrico, que lhes permite andar e, em nove buracos, fazer cerca de
dois quilómetros”, explica o doutor Francisco Lopes e Sousa, presidente
do Clube Golfe Médico, em declarações à Lusa.Além
de destacar que o golfe “traz benefícios para todo o tipo de pessoas e
qualquer que seja a idade, porque é uma modalidade muito equilibrada”, o
pneumologista, a trabalhar na indústria farmacêutica, enumera algumas
das vantagens para doentes crónicos. “Ajuda
o retorno venoso, a movimentação das articulações, evitando as
anquiloses, e, do ponto de vista cardíaco, é um tipo de movimentação que
não traz grandes riscos. As vantagens são muitas,” refere,
acrescentando ainda “ajudar ao metabolismo da vitamina D, mas também o
bem-estar psicológico e o estar longe de espaços confinados.”Recomendaria
como forma preventiva ou terapêutica? “Com toda a certeza. Do ponto de
vista respiratório, é também extremamente vantajoso, porque a pessoa
está ao ar livre, normalmente o ar é puro, e tem uma extensão de
paisagem que dá azo a poder respirar-se fundo e melhorar a nossa
performance pneumológica, ao nível ventilatório. O caminhar também é
indicado para melhorarmos a nossa capacidade vital em termos de
parâmetros respiratórios”.A opinião é
partilhada por Duarte Medeiros, diretor de serviço de cirurgia vascular
do Hospital Egas Moniz, e também ele praticante de golfe há mais de 20
anos.“Todo o benefício que seja o
exercício físico, mesmo que moderado, talvez seja indicação ótima para
doentes com patologia cardíaca, com diabetes e obesidade, que
infelizmente é uma doença que neste momento atinge muitos portugueses.
Em relação à saúde mental é ótimo, porque uma pessoa aprende a controlar
as emoções e a relaxar”, sublinha.Ainda
assim, o cirurgião, que esclarece que “no caso dos diabetes, em teoria,
será mais fácil o controlo da glicemia”, deixa uma recomendação. “Os
doentes cardíacos têm de ser vistos antes pelo cardiologista, mas em
princípio fazem um exercício de resistência física, desde que saibam
conservar os seus limites e estejam atentos aos sinais de isquemia
coronária. Têm de ter cuidado”, ressalva.Atendendo
aos benefícios atestados, a Fundação São João de Deus recorreu ao golfe
como forma de tratamento à saúde mental, através de um projeto criado
com o apoio da Federação Portuguesa de Golfe (FPG), que cedeu o Centro
Nacional de Formação do Jamor, material e professores.“Há
três anos e meio que temos os nossos utentes da casa do Telhal, em
Sintra, a experimentar golfe, a tornarem-se jogadores habituais, a
estabelecerem relação com as várias pessoas que estão no Jamor e isso é
um dos pontos fundamentais na recuperação da saúde mental, que é a
ligação de forma positiva com os outros”, explica à Lusa Rui Ferreira
Amaral, presidente da Fundação.O projeto
cresceu, tem “40 utentes a praticar golfe de forma regular” e
estendeu-se a várias zonas do país, como Funchal, Braga e Açores, onde a
Fundação São João de Deus tem, lembra, casas e conseguiu estabelecer
parcerias com alguns clubes e a “ponte entre o utente, o golfe e o
praticante normal de golfe”, provando que “a saúde mental pode estar na
vida das pessoas sem problema.”“Temos
notado diversas melhorias. O golfe oferece dois pormenores essenciais
para pessoas com doença mental. O primeiro é privilegiar a relação entre
as pessoas e a relação é um dos focos fundamentais para que a adesão à
terapêutica se possa fazer de forma mais correta. O segundo ponto é que é
impossível estar em ambiente natural e não nos sentirmos também mais
tranquilos”, enumera.O presidente da FPG,
por sua vez, além de apontar o exemplo do CG de Paredes junto de jovens
com problemas escolares, diz que “existem inúmeros estudos que são
inquestionáveis, ao nível de doenças cardiovasculares, diabetes,
demência, e, entre outros, doenças mentais” e que “a FPG tenta sempre
ser um moderador dos processos.”“Temos
aqui uma instalação que pode ser utilizada por todos os praticantes e
não podíamos de forma alguma estarmos alheados dessa realidade. Temos um
protocolo com a Fundação São João de Deus, como temos com os Special
Olympics, e temos todas as condições para acolher este tipo de
iniciativas que valorizamos e apoiamos sem qualquer reserva”, sublinha
Miguel Franco de Sousa, avançando ser o ‘feedback’ positivo e o número
de praticantes cada vez maior.“Pelo que
tenho conhecimento são alunos que se sentem excecionalmente bem no campo
de golfe, que melhoram o seu estado de espírito e há pessoas com alguns
problemas de agressividade e chegam aqui e acalmam-se”, conta.Apesar
de garantir que “a FPG é totalmente inclusiva e tem todo o interesse em
que qualquer iniciativa dessa natureza seja posta em prática”, Franco
de Sousa lembra existirem “instituições que são especialistas em
trabalhar com este tipo de praticantes”.“Nós
não temos essa experiência, portanto este tipo de parcerias faz tanto
mais sentido quanto melhor forem os parceiros com quem nos poderemos
eventualmente associar”, conclui.