“O exercício é seguro durante o tratamento oncológico”
Hoje 09:42
— Paula Gouveia
Os estudos mais recentes apontam para a importância do exercício físico no contexto de doença oncológica. Quais as razões apontadas?Durante décadas, era comum considerar que o doente oncológico precisava de repouso e de evitar esforços. Nos últimos anos, a evidência científica tem vindo a transformar esta visão. Hoje sabemos que, quando devidamente prescrito e adaptado à condição clínica, o exercício é seguro durante o tratamento oncológico e pode contribuir para reduzir alguns dos efeitos secundários dos tratamentos, preservar a força e a capacidade física e melhorar a qualidade de vida. Embora a investigação continue a estudar o seu impacto direto no controlo da doença e na eficácia dos tratamentos, o exercício é atualmente reconhecido como uma componente importante dos cuidados de suporte em oncologia. (Ligibel et al., 2022).Que tipo de exercício físico é adequado? É recomendado a todos os doentes e em todos os estágios da doença?Não existe uma receita. O tipo, a intensidade e a duração do exercício devem ser adaptados a cada pessoa, tendo em conta o tipo e o estágio da doença, o tratamento, os efeitos secundários e a condição física. Mas, entre as diferentes formas de exercício, o treino de força, a chamada musculação, assume um papel particularmente importante. Preservar a força e a massa muscular é fundamental, uma vez que a perda de músculo é frequente ao longo da doença oncológica e está associada a um pior prognóstico. Quando contraímos os músculos, estes libertam diferentes moléculas, conhecidas como miocinas, que participam na regulação da inflamação e da resposta imunitária do nosso organismo. Além disso, a ciência demonstra que o treino de força pode contribuir para reduzir a fadiga, preservar a força e a função física e melhorar a qualidade de vida em pessoas com doença oncológica.Haveria vantagens em que o Serviço Regional de Saúde incluísse o exercício físico na abordagem à doença?Sem dúvida. A evidência científica aponta cada vez mais nesse sentido. Aliás, várias entidades internacionalmente reconhecidas, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a American Society of Clinical Oncology (ASCO), defendem a integração do exercício nos cuidados prestados às pessoas com cancro. Isto significa criar uma resposta integrada, em que o exercício seja prescrito e acompanhado por profissionais qualificados, em articulação com a equipa clínica e adaptado à condição clínica de cada pessoa. Os profissionais de exercício físico devem trabalhar de forma interdisciplinar com os restantes profissionais de saúde, contribuindo para preservar a capacidade física, reduzir alguns dos efeitos secundários dos tratamentos e melhorar a qualidade de vida ao longo de todo o processo.Há exemplos de unidades de saúde em Portugal que já o fazem?Sim. Já existem em Portugal alguns exemplos de integração do exercício na abordagem à doença oncológica. A Fundação Champalimaud, por exemplo, dispõe de uma equipa dedicada ao exercício em oncologia, com programas individualizados e supervisionados por fisiologistas do exercício, em articulação com as diferentes unidades clínicas e existem também experiências em hospitais públicos. Mas estes exemplos mostram também que ainda há um caminho a percorrer para que esta abordagem seja uma realidade mais acessível e transversal no sistema de saúde. Nos Açores, de momento, não conheço nenhuma unidade que integre, de forma sistemática, o exercício físico prescrito e acompanhado por profissionais do exercício na abordagem à pessoa com doença oncológica. É uma realidade que gostava de ver mudar nos próximos anos, porque acredito que os Açores também podem dar este passo e colocar o exercício físico no lugar que a evidência científica já lhe reconhece.Como deveria ser integrado o exercício físico no percurso do doente oncológico?O primeiro passo do processo deverá ser uma avaliação médica, que permita realizar o devido rastreio, obter autorização clínica para a prática de exercício e identificar eventuais contraindicações ou cuidados específicos, como, por exemplo, a presença de metástases ósseas.Posteriormente, deverá ser realizada uma avaliação física individualizada por um profissional do exercício físico especializado, que permita definir o tipo, a intensidade e o volume de exercício mais adequados à condição e às necessidades de cada pessoa.A partir dessa avaliação, o exercício deverá ser realizado com supervisão especializada e acompanhamento contínuo, permitindo ajustar o treino ao longo do processo e monitorizar eventuais sinais de alerta ou alterações na condição clínica.De acordo com as recomendações internacionais, nomeadamente as da American College of Sports Medicine (ACSM), é recomendada a realização de 2 a 3 sessões de treino de força por semana com uma intensidade moderada a vigorosa. Naturalmente, estes princípios devem ser adaptados à condição clínica, capacidade funcional e tolerância de cada pessoa. Se pudesse implementar amanhã uma única mudança na abordagem à doença oncológica nos Açores, que papel gostaria que o exercício físico tivesse?Colocaria o exercício físico como um coadjuvante do tratamento, fazendo parte do percurso do doente e integrado num trabalho interdisciplinar com diferentes profissionais de saúde.