"O dinamismo da Páscoa é a luz que se projecta para oferecer sentido à vida de toda a humanidade " diz bispo de Angra
20 de abr. de 2019, 20:16
— Tatiana Ourique / AO Online
Açoriano Oriental - O que simboliza (ou deveria simbolizar) a Páscoa para os
cristãos?
Dom João Lavrador- A Páscoa remonta à experiência do Povo
Hebreu que, liderado por Moisés, foi chamado a deixar a opressão do Egipto e
caminhar até alcançar a Terra Prometida. Como sinal permanente deste
acontecimento, foi convidado a celebrar a Ceia Pascal, segundo as determinações
do Livro do Êxodo, imolando o Cordeiro Pascal. Soma-se ainda a passagem do Mar
Vermelho como acontecimento que manifesta a passagem da opressão para alcançar
a terra da libertação. Foi no contexto da celebração da Páscoa Judaica que
Jesus de Nazaré instituiu a nova e definitiva Páscoa, reunindo os Seus
Apóstolos e deixando-lhes o mandato de realizarem a Ceia Pascal, celebrada esta
quinta feira na Eucaristia, em Sua memória. Esta nova Ceia é Sinal da Sua
entrega, morte e Ressurreição.
A pessoa humana participa nesta Nova Páscoa através do Baptismo,
Confirmação, Eucaristia e demais sacramentos, reconhecendo que a Vida Nova do
Ressuscitado o impele a viver na Comunidade Cristã, constituída pelos
discípulos de Jesus Cristo, e assume a missão de testemunhar ao mundo a Boa
Noticia que Jesus Cristo como Salvador.
A Páscoa torna-se, deste modo, a celebração central dos cristãos e
compromete-os na missão permanente de tornar presente no mundo de hoje a Jesus
Cristo como o Único Salvador.
Açoriano Oriental - A Páscoa é o momento alto do calendário
litúrgico. Devia ser a celebração mais importante dos cristãos. Ainda assim é
vivida de uma forma menos festiva do que o Natal. Como se justifica esta
vivência tão diferente?
Dom João Lavrador-
O Natal torna-se mais atractivo para a sensibilidade do ser humano e mesmo para
os cristãos porque celebra o Filho de Deus que nasce na ternura e candura de
uma criança e progressivamente, o natal foi-se tornando a festa da família. Não
é alheio também o facto de o Natal ter sido apanhado pelo consumo. Reconhece-se
que o frenesim das compras e vendas, próprio desta quadra, tem a sua
publicidade que acaba por desvirtuar o essencial do natal.
Já a Páscoa, celebrando o
mistério da morte e ressurreição de Jesus de Nazaré interpela mais e compromete
intensamente cada pessoa, cristão ou não, que se interrogue sobre o seu ser, a
realidade da revelação de Deus feita na Pessoa do Seu Filho Jesus Cristo e,
sobretudo, o compromisso que brota da experiência da Páscoa. A Páscoa é um
apelo à conversão pessoal e comunitária, é experiência de testemunho e de
anuncio, que nem sempre é fácil para quem ainda não iniciou um processo de
comunhão com Deus, vivido na entrega a Cristo, à Comunidade Cristã, e de
compromisso com o mundo.
Açoriano Oriental - Quais são os momentos altos de uma
semana tão rica em celebrações?
Dom João Lavrador - Na
verdade estamos perante uma semana rica de significado, de celebrações e de
experiência cristã. É tradicionalmente chamada de semana maior, na qual se
integram três dias denominados de Tríduo Pascal. Este inicia-se com a
celebração da Eucaristia, comemorativa da Ceia Pascal que Jesus Cristo realizou
na intimidade com os Seus Apóstolos e na qual deixou a densidade e profundidade
que a partir d’ela, continuamente, na vida da Igreja, se viver o mistério de
Jesus Cristo entregue, na Sua morte e ressurreição; seguem-se as celebrações de
Sexta Feira Santa, nas quais se revivem, através da escuta da Palavra de Deus e
o adorar a Cruz, os grandes passos da Paixão e da Morte de Jesus Cristo;
continua com um tempo de silêncio, durante o dia de Sexta Feira e de Sábado
Santo e culmina com a grande Vigília Pascal, na qual se celebra a alegria da
Ressurreição de Jesus Cristo, toda ela centrada na Luz e na longa leitura da
Revelação de Deus, através do Seu projecto libertador do Seu Povo, pela
liturgia baptismal e pela celebração da Eucaristia. Daí resulta a experiência
de Jesus Cristo Ressuscitado que envia todos os baptizados a testemunharem a
Sua Vida Nova.
Açoriano Oriental - A Semana Santa arranca com o Domingo de Ramos dia em que também
se assinala o Dia Mundial da Juventude que é assinalado em todas as ilhas dos
Açores. Os jovens participam nos restantes dias da semana maior da Igreja
Católica?
Dom João Lavrador - Devemos afirmar acerca da pertença e
participação dos jovens na Igreja tal como se deve reconhecer com os demais
cristãos. Não podemos generalizar. Graças a Deus, ano após ano, a celebração da
Jornada da Juventude, conta com um bom número de jovens, em todas as Ouvidorias
e paróquias. Muitos destes jovens estão integrados nas suas comunidades cristãs
e paróquias, movimentos juvenis e outros grupos. Claro que o esforço de
consciencialização dos jovens para a sua participação activa na Igreja e no
mundo, levando a sua fé ao compromisso eclesial e com a força de transformar o
mundo em que vivemos é uma tarefa constante.
Apesar da participação de muitos jovens na vida da paróquia, há
outros que ainda não descobriram o seu espaço na comunidade cristã e também há
comunidades que ainda não se abriram plenamente à participação dos jovens. É um
caminho conjunto a percorrer por todos.
Açoriano Oriental - Que desafios vive a Diocese de Angra
atualmente?
Dom João Lavrador - A Diocese de Angra sente os mesmos desafios de
todas as dioceses e que diz respeito à Evangelização. Isto é, a proclamação e o
testemunho da Boa Noticia que é Jesus Cristo para o mundo de hoje. Isto implica
que todos os cristãos sintam a necessidade de uma formação cristã que os
habilite para um encontro com Jesus Cristo que se expresse na experiência de
amor que se traduz numa alegria esfuziante, que não se pode conter e que
necessariamente tem de ser comunicada.
No contexto deste grande desafio, exige-se a capacitação de todos
os cristãos para dialogarem com a cultura de hoje oferecendo a frescura e o
dinamismo do Evangelho absolutamente necessário para edificar uma sociedade
onde a dignidade humana seja plenamente salvaguardada e o bem comum seja
respeitado.
A Igreja sente que necessita de
uma forte purificação e renovação para que não se criem obstáculos pessoais ou
estruturais à credibilidade do Evangelho. Esta é uma exigência permanente que
se lança à Diocese e à Igreja no seu todo.
Claro que há características próprias da expressão da fé cristã no
contexto da nossa Diocese e tem a ver com a Religiosidade Popular, tão rica mas
sempre a necessitar de ser orientada pelo Evangelho e atenta à renovação do
Concilio Vaticano II.
A vida cristã é uma experiência de comunhão que o baptizado é
chamado a realizar na sua relação com Jesus Cristo que o conduz à integração e
participação numa comunidade cristã concreta, na qual partilha os seus dons e
capacidades e é interpelado para a sua corresponsabilidade na missão da Igreja.
Açoriano Oriental - A formação tem sido uma aposta forte em
todas as ouvidorias. Como tem sido a adesão dos crentes a todo o programa
formativo nas diversas áreas pastorais?
Dom João Lavrador - A primeira etapa foi definir as
estruturas e os itinerários de formação dos cristãos. Chegou-se à conclusão que
a par com a formação prestada por algumas instituições diocesanas, a estrutura
básica para a formação, seriam as Ouvidorias, de modo que em cada uma se
criasse uma escola de formação cristã que coordenasse as diversas áreas de
formação, se integrassem as orientações diocesanas nesta área pastoral e se
criassem respostas concretas às necessidades sentidas por cada Ouvidoria.
Para ajudar neste processo, foram elaborados dois textos com propostas
de reflexão, a partir da Doutrina Conciliar, um destinado aos presbíteros e
outro aos membros dos conselhos pastorais paroquiais. O Seminário Maior
continua a oferecer as suas jornadas teológicas e o Instituto Católico de
Cultura promove um conjunto de acções de formação que fazem parte do seu
programa.
Naturalmente, que a resposta varia de Ouvidoria para Ouvidoria,
ainda há muito caminho a percorrer na sensibilização dos cristãos para a
formação, mas o que já se faz deixa-nos satisfeitos e com vontade continuar
este caminho tão necessário e urgente para a capacitação dos baptizados para a
missão que têm a desempenhar na Igreja e no mundo.
Açoriano Oriental - O Papa Francisco convocou um sínodo dos
bispos no final de 2018 onde os jovens estavam no foco do debate. Primeiro
auscultou jovens de todo o mundo. Recentemente redigiu uma exortação apostólica
pós sinodal com título "Cristo Vive". O que é que trouxe de novo este
documento apostólico?
Dom João Lavrador - A novidade está que pela primeira vez
se dedica uma reflexão aprofundada acerca dos jovens tendo-os a eles como
protagonistas. Um sínodo e a correspondente Exortação Apostólica são reflexo da
importância que a Igreja dedica a uma causa, neste caso, os jovens.
Na linha do Sinodo, o texto do Papa oferece uma visão ampla e
articulada de toda a problemática juvenil no mundo de hoje. O Papa fala aos
jovens de hoje; conhece-os, sabe dos seus anseios, as suas limitações e recolhe
os seus sonhos.
É um texto que aborda a problemática juvenil em todos os sectores
onde se desenvolve a vida dos jovens, desde a realidade juvenil em si mesma, à
família, à escola, aos movimentos juvenis, às novas tecnologias, à sua
participação na sociedade e na Igreja e, ainda, o discernimento vocacional.
Convida a caminhar com os jovens em dinamismo sinodal, isto é, uma
Igreja que faz caminho com os jovens, oferecendo-lhes a eles a possibilidade de
serem protagonistas mas sempre acompanhados e integrados na comunidade cristã.
O convite à formação, ao discernimento e à descoberta vocacional
são traços marcantes deste documento.
O texto parte da constatação da predilecção de Jesus Cristo pelos
jovens e como Ele lança o Seu olhar de amor sobre eles. Esta força de atracção
que vem do amor de Deus é algo de profundamente aliciante
para caminhada progressiva dos jovens para alcançarem a maturidade
humana e cristã.
A Igreja necessita da participação dos jovens para poder recolher
deles a sua frescura, entusiasmo e os seus sonhos, mas também os jovens
necessitam da Igreja para a se sentirem a caminhar amparados e com horizontes
seguros para as decisões na sua vida.
Açoriano Oriental - Como gostaria que os cristãos açorianos
vivessem este momento maior que é a Páscoa e que mensagem gostaria de
deixar-lhes?
Dom João Lavrador - Na Páscoa vivemos o maior
acto de amor de Jesus Cristo pelos homens e mulheres de cada tempo. Este
acontecimento é de hoje. Também nós hoje necessitamos de recolher da celebração
da Páscoa os mesmos efeitos salvíficos da primeira hora. A Vida Nova do Ressuscitado
vem dar pleno sentido e orientação ao sofrimento e à morte. Só a Vida em Cristo
é definitiva.
Aos excluídos, aos pobres, aos
que sofrem e aos que perderam a esperança é necessário oferecer-lhes a
realidade da Páscoa, com a palavra e com os gestos, para que todos e cada um
descubram que na comunhão com Cristo uma Vida Nova renasce e um futuro de
esperança é possível.
O dinamismo da Páscoa, da morte à Ressurreição, é a luz que se
projecta para oferecer sentido à vida de toda a humanidade e sobretudo de todos
os cristãos.
Esta experiência de vida nova é feita em comunidade e alimentada
na Eucaristia.
Uma santa e feliz Páscoa para todos os que vivem no território dos
Açores e para todos que vivem na diáspora.