O "caçador de palavras" que escrevia para espantar a depressão
Óbito/António Lobo Antunes
Hoje 10:00
— Lusa/AO Online
A sua obra
fala da solidão, da morte, do amor, da loucura e, invariavelmente, da
guerra colonial, para a qual foi mobilizado em 1970, embarcando para
Angola no ano seguinte, de onde regressou em 1973. "A
psiquiatria está presente nos meus romances, mas não só da maneira
explícita como os críticos habitualmente observam", disse António Lobo
Antunes ao jornal Estado de S. Paulo, em 1996. "Eles prendem-se aos
aspetos temáticos, mas há uma influência ainda maior, que aparece na
técnica. A formação em psiquiatria é uma aprendizagem técnica, um
exercício de lucidez e rigor. Ela deu-me um raciocínio diferente, uma
maneira particular e talvez mais aguda de encarar o mundo. [...] Além
disso, a psiquiatria dá-nos um contacto intenso com o sofrimento e a
morte. Isso enriqueceu-me e fez-me ver que poucas coisas realmente valem
a pena nesta vida. Ela ajudou-me também a ver como relativos o sucesso e
o insucesso. É claro que a literatura é importante, mas existem coisas
muito mais importantes."Em 2004, quando
assinalava 25 anos de vida literária, em entrevista à agência Lusa,
António Lobo Antunes disse que "nunca soube verdadeiramente fazer outra
coisa que não escrever”. Na altura publicava um novo romance, "Eu hei de
amar uma pedra", e ia receber a grã-cruz da Ordem de Sant'Iago da
Espada. Um ano antes recebera o Prémio
União Latina pelo conjunto da obra, e a lista de distinções já era
longa, atravessava fronteiras, ia do Grande Prémio de Romance e Novela
da Associação Portuguesa de Escritores (APE), ao Melhor Livro
Estrangeiro publicado em França ("Manual dos Inquisidores") e ao
reconhecimento pela Feira do Livro de Frankfurt (1997), na Alemanha.António
Lobo Antunes nasceu em Lisboa, a 01 de setembro de 1942. A escolha do
curso universitário “foi para dar prazer aos pais que entendiam que
devia ter uma enxada”, contou à Lusa. António Lobo Antunes licenciou-se
em Medicina pela Universidade de Lisboa, em 1969, e especializou-se em
Psiquiatria, depois do regresso de Angola.O
seu primeiro livro, “Memória de Elefante”, foi publicado em 1979, logo
seguido de “Os Cus de Judas”, no mesmo ano, duas obras marcadas pela
Guerra Colonial que dividiram opiniões da crítica da época. Se, para
alguns, Lobo Antunes representava um ponto de viragem na literatura
portuguesa, para outros, era um autor que não justificava especial
atenção.As obras seguintes, "Conhecimento
do Inferno", de 1980, onde voltava à guerra, e "Explicação dos
Pássaros", de 1981, também marcado pela prática da psiquiatria, da
angústia e crueldade das personagens, confirmavam a perspetiva de algo
novo estar a acontecer, o que foi reafirmado por "Fado Alexandrino", de
1983, e consagrado com a atribuição do Grande Prémio do Romance e Novela
da Associação Portuguesa de Escritores (APE), ao sexto título, “Auto
dos Danados" (1985). O público desde cedo
demonstrara apreço pela obra, tornando-o um dos autores mais lidos de
língua portuguesa, o que nem sempre facilitou a crítica da época nos
momentos iniciais do seu percurso.Depois,
veio o reconhecimento no estrangeiro, com a edição dos seus romances em
países europeus, como Espanha, França, Alemanha, Itália e Reino Unido, a
que se juntaram os mercados livreiros do Brasil, Estados Unidos e
Canadá.Em 1987, o Prémio Literário
Franco-Português foi atribuído à tradução francesa do romance “Os Cus de
Judas”. Foi o primeiro prémio de dimensão internacional que o escritor
recebeu ao longo de 45 anos de carreira literária, distinguida em 2007
com o Prémio Camões, atribuído em conjunto por Portugal e Brasil.Em
2004, em entrevista à Lusa, definiu-se como um “caçador de palavras”,
“uma arte difícil” de que se podem passar alguns ensinamentos, mas nunca
o talento.António Lobo Antunes exerceu
Medicina no Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa, passando a partir de
1985 a dedicar-se à escrita, pois não tinha muito mais tempo para outras
coisas. “Um escritor tem de escrever”, sustentou, acrescentando:
“Escrever é muito difícil" e “exige humildade”.Manteve,
porém, uma rotina no hospital, durante mais de uma década, onde ia uma
vez por semana, "para não ficar maluco", como disse ao Estado de S.
Paulo, em 1996. "Escrever é um ato esquizofrénico, que se pratica
sozinho, entre quatro paredes, sem testemunhas. É um ato enlouquecedor.
[...] Em 1980, já percebia que não poderia conciliar as duas atividades.
Fui abandonando lentamente a psiquiatria e só não a abandono de vez
para conservar a sanidade."Lobo Antunes
disse à Lusa que não tinha rituais para escrever. Preferia fazê-lo no
silêncio, pois “há uma atitude de paciência, ter de esperar que a
palavra apareça”. “As palavras vêm muito devagar, tenho de estar à
espera [...]. Um pouco como atitude do caçador que espera a presa junto
ao ribeiro."Num discurso pleno de
metáforas, o escritor disse que “há todo um trabalho inicial, como um
jardineiro que prepara o jardim, tem de escavar e lá no fundo encontra
um tesouro que é o livro. [...] Esse livro já existe em nós – prosseguiu
– mas não é nosso". "Pertence a cada um que o lê” e “tem uma respiração
própria”.O processo de escrita de Lobo
Antunes era minucioso e aturado, e o seu ritmo de escrita irregular. “Há
dias que são horríveis e escrevo pouco, outros são ótimos, onde as
palavras surgem em torrente e escrevo páginas”, disse à Lusa.Escrevia
sempre à mão e terminado o livro não voltava a ele, nem para o ler.
Escrevia tantas vezes “quantas o capítulo" o exigia. Quando começava a
escrever não sabia ainda se iria dar um livro, algo que surgia
posteriormente, tal como a escolha do título.Quando
escrevia, apenas se preocupava com o livro. “Não penso em mais nada,
nem em nenhuma ideologia” e afirmou-se surpreendido quando lhe citam
referências na sua obra “a esta ou aquela situação”. “Francamente,
naquela altura estava concentrado só no livro, preocupado com ele, e não
pensava em mais nada”.Para Lobo Antunes,
os seus livros “têm vida própria e falam por si, são de cada um que os
lê”, disse à Lusa. O autor contrariava a visão de que em Portugal não se
lê, mas criticava o facto de “os livros, serem caros comparativamente a
outros países europeus”. Por isso, afirmava-se grato a quem o comprava,
quer pelo esforço que isso significa em termos de orçamento, quer pela
disponibilidade. “É incrível depois de uma 'lufa-lufa' de vida terem
ainda tempo para me ler”.Todos esses
leitores “são amigos” que os livros lhe trouxeram, amigos com os quais
conversava nas feiras do livro e nas sessões de autógrafos e através das
muitas cartas que recebeu, revelando uma faceta afável, menos conhecida
do escritor que por vezes se irava.Ao
longo dos anos, a sua obra, que se encontra publicada em dezenas de
países, foi objeto dos mais diversos estudos, muitos deles académicos,
muitos outros de investigação, alguns para lá da abordagem literária,
abrindo também portas no campo da psicoterapia e da psicanálise, em
particular.A "Fado Alexandrino" (1983) e
"Auto dos danados" (1985) sucedeu-se "As naus", em 1988. Vieram depois
"Tratado das paixões da alma" (1990), "A ordem natural das coisas"
(1992), "A morte de Carlos Gardel" (1994), "Manual dos inquisidores"
(1996) e "O esplendor de Portugal" (1997). Lobo Antunes combina
geografias pessoais com a desmontagem da versão falsa e heróica da
História."Exortação aos crocodilos" (1999)
dá-lhe pela segunda vez o Grande Prémio de Romance da APE. "Não entres
tão depressa nessa noite escura" (2000), "Que farei quando tudo arde?"
(2001), "Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo" (2003) e "Eu hei-de amar uma
pedra" (2004) acentuaram a renovação da linguagem, como a Direção-Geral
do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas destaca, na página dedicada ao
autor.Numa bibliografia com perto de três
dezenas de romances, cerca de metade surgiu nos últimos 20 anos: "Ontem
não te vi em Babilónia" (2006), "O meu nome é Legião" (2007), "O
arquipélago da insónia" (2008), "Que cavalos são aqueles que fazem
sombra no mar?" (2009), "Sôbolos rios que vão" (2010), "Comissão das
lágrimas" (2011), "Não é meia noite quem quer" (2012), "Caminho como uma
casa em chamas" (2014), "Da natureza dos deuses" (2015), "Para aquela
que está sentada no escuro à minha espera" (2016), "Até que as pedras se
tornem mais leves que a água" (2017), "A última porta antes da noite"
(2018), "A outra margem do mar" (2019), "Diccionario da linguagem das
flores" (2020), "O tamanho do mundo" (2022).Pelo
meio, surgiram vários volumes de "Livro de crónicas" e ainda o livro
para crianças "A história do hidroavião" (1994), ilustrado pelo músico e
amigo Vitorino. A correspondência de guerra, organizada por Maria José e
Joana Lobo Antunes, deu origem a "D'este viver aqui neste papel
descripto" (2005), que esteve na base do filme de Ivo M. Ferreira
"Cartas da guerra" (2016).Regularmente
indicado como um dos mais prováveis vencedores portugueses do Nobel da
Literatura, António Lobo Antunes acumulou prémios com a obra e como
autor, pelo percurso literário. Em
Portugal, duas vezes distinguido com o Grande Prémio de Romance e Novela
da APE, recebeu também o Prémio D. Diniz da Fundação Casa de Mateus
("Exortação aos crocodilos", 1999), o Prémio Fernando Namora ("Boa tarde
às coisas aqui em baixo", em 2004), o Prémio Alberto Pimenta de
carreira, do Clube Literário do Porto (2008), o Prémio Autores ("Que
cavalos são aqueles que fazem sombra no mar", 2010), o Prémio Literário
Fundação Inês de Castro ("O tamanho do mundo", 2023).Em
França teve o Prix France Culture de Littérature Étrangère em 1996 por
"A morte de Carlos Gardel", e o Prémio de Melhor Livro Estrangeiro, por
"Manual dos Inquisidores", em 1997, romance também distinguido em
Frankfurt, na Alemanha, como melhor obra traduzida, no mesmo ano. Na
Áustria, onde foi “convidado de honra” do Festival de Música de
Salzburgo, recebeu em 2000 o Prémio de Literatura Europeia do Estado
Austríaco. Em Espanha, teve os prémios Rosalía de Castro, em 2001,
Terence Moix, em 2008, e o da Extremadura para a Criação, em 2009. Em
Itália, recebeu o Prémio Internacional União Latina, em 2003, o Nonino,
em 2014, e o Prémio Bottari Lattes Grinzane, em 2018, enquanto na
Roménia teve o Prémio Ovídio, em 2003. O
Estado de Israel entregou-lhe o Prémio Jerusalém, em 2004. No Chile
recebeu, em 2006, o Prémio Iberoamericano José Donoso. O México deu-lhe o
Prémio da Feira do Livro de Guadalajara (Juan Rulfo), em 2008.A
República Portuguesa condecorou-o com a Ordem da Liberdade, em 2019, 15
anos depois do Grande Colar da Ordem de Sant’Iago da Espada. França
deu-lhe o grau de Comendador da Ordem das Artes e Letras, em 2008.Várias
universidades concederam-lhe o doutoramento 'honoris causa', como a
Universidade Nacional Mayor de San Marcos, de Lima, Peru, em 2022, a
Universidade de Constança, na Roménia, e as portuguesas de
Trás-os-Montes e Alto Douro e de Lisboa, em 2011.O
seu mais recente livro, “Crónicas II”, chegou às livrarias em 24 de
outubro do ano passado, com prefácio do psiquiatra Daniel Sampaio, que
considera as 187 crónicas “reunidas neste volume uma demonstração clara
da sua [Lobo Antunes] criatividade e da capacidade de falar dos temas do
quotidiano ao leitor comum", definindo "uma extraordinária galeria de
personagens inesquecíveis”, como todas as personagens do escritor.Lobo
Antunes disse à Lusa ser favorável a que os livros não incluíssem o
nome do autor na capa, mas sim o do leitor, por serem estes que o fazem,
com a sua leitura. E para detetar um bom livro, explicou, basta ter em
conta os que causam insónias, os que atraem a atenção e começam a
“brilhar na obscuridade”, quando alguém se levanta a meio da noite e
passa perto deles. Estes são os melhores, garantiu.