O ano em que Chico Buarque ganhou dois Prémios Camões
25 de dez. de 2019, 10:15
— Lusa/AO Online
Capaz de
“soluções elegantes, que apostam na eloquência dos pormenores”, como a
crítica brasileira o definiu, Chico Buarque editou este ano o seu quinto
romance, “Essa Gente”, onde observa com ironia o “colapso em seu
redor”, e quando o Presidente brasileiro se mostrou adverso à assinatura
do diploma que consagra a atribuição do prémio pelos governos de
Portugal e Brasil, viu nesse ato uma nova distinção, um segundo Prémio
Camões.Os jornalistas da Lusa elegeram-no como figura do ano do mundo lusófono.Para
o júri do Prémio Camões, a maior distinção literária de língua
portuguesa, a escolha de Chico Buarque reconhece a sua “contribuição
para a formação cultural de diferentes gerações”, e o “caráter
multifacetado” do seu trabalho, da poesia, ao teatro e ao romance,
estabelecendo-se como “referência fundamental da cultura do mundo
contemporâneo”.A atribuição do prémio foi
de imediato celebrada no universo de língua portuguesa, de autores a
dirigentes políticos, com a exceção do Governo brasileiro e do seu
Presidente, Jair Bolsonaro. Se o
Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, disse, na primeira hora
após o anúncio, que “só pode ser unânime” a decisão de distinguir Chico
Buarque, tendo rapidamente promulgado o diploma do prémio instituído
pelos dois países, só em outubro, cerca de cinco meses mais tarde, se
tornou claro que Bolsonaro estava longe de ter essa assinatura entre as
suas prioridades, até ao termo de um eventual segundo mandato, em 31 de
dezembro de 2026.As declarações do
Presidente brasileiro acentuaram a contestação no setor cultural do seu
país, que se estendeu a autores como a escritora portuguesa Hélia
Correia e o moçambicano Mia Couto.A
Cultura tem sido aliás um vetor de afirmação e controlo do poder de
Bolsonaro, que declarou “guerra contra o marxismo cultural” e tem
defendido a censura nas diferentes áreas do setor.Após
a sua tomada de posse, em janeiro, os principais organismos da cultura
foram ocupados por elementos próximos do presidente brasileiro, desde a
Fundação Nacional das Artes (Funarte) à Agência Nacional de Cinema
(Ancine), passando pela Fundação Cultural Palmares, entidade pública
para a promoção da cultura afro-brasileira, e a Caixa Económica Federal,
que começou a aplicar um sistema de censura prévia nos seus centros
culturais, em todo o Brasil, exigindo saber o posicionamento político
dos artistas.A secretaria de Cultura, no
governo, é ocupada desde novembro pelo encenador e dramaturgo Roberto
Alvim, até então presidente da Funarte, uma das mais importantes
entidades de apoio às artes no país, que revelara a lealdade a
Bolsonaro, acrescentando as palavras “cristão, nacionalista e
conservador” ao seu perfil no Facebook.Alvim
destacara-se em outubro, manifestando “o mais absoluto desprezo” pela
atriz Fernanda Montenegro, quando a protagonista de “Central do Brasil”
celebrou 90 anos. Na altura, Alvim disse querer formar um “exército de
grandes artistas espiritualmente comprometidos com o presidente e com os
seus ideais”, dispostos a “dar as vidas pela edificação do Brasil,
através da criação de obras de arte que redefinam a história da cultura
nacional”.Para lhe suceder na Funarte,
indicou Dante Mantovani, um professor de Linguística, que disse no seu
canal no YouTube que “o Rock leva ao aborto, ao satanismo” e “ativa a
indústria do aborto”. A Agência Nacional de Cinema, dirigida por um
líder evangélico, Alex Braga Muniz, cortou apoio à participação de
realizadores brasileiros em festivais internacionais, e proibiu a
exibição de “A Vida Invisível”, de Karim Aïnouz, longa-metragem
candidata à nomeação para os Óscares de 2020.A
Fundação Cultural Palmares foi entregue ao jornalista Sérgio Nascimento
de Camargo, que nega a existência de racismo, (“'negrada' daqui reclama
porque é imbecil e desinformada pela esquerda”, afirmou) e que quer pôr
fim ao Dia da Consciência Negra, que considera “uma vergonha” (“sou
negro e repudio essa data”, escreveu). Chico
Buarque, que enfrentou a ditadura militar (1964-1985) e detém um
percurso de mais de meio século nas letras e na Música Popular
Brasileira, usou sempre poucas palavras em todo o processo.O
seu mais recente romance, “Essa Gente”, que sucede a “O Irmão Alemão” e
“Leite Derramado”, foi construído como diário de um escritor em
bloqueio. Atravessa a decadência do país, num percurso que vai de
dezembro de 2016 a setembro de 2019, enquanto o Rio de Janeiro colapsa
em seu redor. Em novembro, quando a obra
foi publicada, o jornal Estado de São Paulo destacou as “soluções
elegantes, que apostam na eloquência dos pormenores”, e a “proximidade
com o agora que torna a escrita de Chico Buarque mais atraente (...),
com as escolhas que fez para não se desviar dos problemas do presente
sem, contudo, tomar uma atitude beligerante”.Vencedor
por duas vezes do Prémio Jabuti, com “Leite Derramado” e “Budapeste”,
Chico Buarque tem em “Essa Gente” o seu quinto romance, num percurso
iniciado com “Estorvo”, em 1991, mas que já contava, desde a década de
1960, com obras para palco, como “Roda Viva”, “Gota d’Água” e “Ópera do
Malandro”, e até mesmo com histórias para crianças, como “Chapéuzinho
Amarelo”.Quando soube da atribuição do
Prémio Camões, Chico Buarque publicou nas redes sociais que ficava
“feliz e honrado por seguir os passos de Raduan Nassar”, o escritor
brasileiro distinguido em 2016, que se afastara para uma fazenda no
interior do estado de São Paulo e dela voltara para confrontar o que
considerava a degradação do “Estado democrático de Direito”, ainda
durante a presidência de Michel Temer.Sobre
a posição do presidente brasileiro, Chico Buarque limitou-se a publicar
na sua conta no Instagram: “A não assinatura do Bolsonaro no diploma é
para mim um segundo Prémio Camões”.O
Governo português, por seu lado, disse à Lusa que as regras seriam
cumpridas, garantindo que a entrega do Prémio Camões se realizaria em
Portugal, “na data conveniente a quem entrega e a quem recebe o Prémio”.
A data foi anunciada em dezembro, a
contento de ambas as partes: o dia 25 de abril de 2020, feriado que
assinala a queda da ditadura portuguesa, aquela que Chico Buarque cantou
por duas vezes em “Tanto Mar”, primeiro logo após a revolução e, mais
tarde, em 1978, quando já tinha passado “a festa”, mas sempre com “o
velho cravo” que teimou em guardar.