Número de países da UE a favor de restrições à imigração sobe e ameaça pacto dos 27
30 de set. de 2024, 11:17
— Lusa/AO Online
Apesar
de o acordo em torno do novo pacto migratório, negociado durante quase
uma década, ter sido alcançado apenas há alguns meses, e de este já
prever um endurecimento das regras, sobretudo a nível de controlo de
fronteiras e de repatriamento, são já vários os países que defendem a
sua revisão para dificultar ainda mais a entrada de migrantes.Neste verão, Berlim e Paris juntaram-se ao grupo de capitais que defendem uma abordagem mais securitária.Se
antes eram apenas ‘pequenos’ países com regimes mais autoritários,
casos de Hungria e Eslováquia, a advogar uma política migratória com
‘mão pesada’ – aos quais se juntou a Itália desde a eleição, há cerca de
dois anos, de um governo de direita e extrema-direita liderado por
Giorgia Meloni -, agora são vários os governos nacionais que defendem um
endurecimento das regras, num contexto de agravamento dos conflitos à
escala global e consequente aumento dos fluxos de refugiados, e de
subida dos partidos de extrema-direita que fazem do combate à imigração a
sua grande ‘bandeira’. A estes países
juntam-se, numa linha cada vez mais ‘dura’, Países Baixos e a Suécia,
havendo também cada vez mais adeptos de acordos com países terceiros
para externalizar os procedimentos de asilo, sendo cada vez mais
apontado como exemplo o acordo estabelecido entre Itália e Albânia para a
criação de dois centros de acolhimento em território albanês a serem
geridos pelas autoridades italianas (embora estes tardem em estar
operacionais).Berlim e Paris, duas
capitais até recentemente defensoras de políticas migratórias justas,
humanistas e coordenadas, mudaram de forma radical o seu discurso,
questionando mesmo as regras de Schengen, o espaço de livre circulação
de pessoas, que agora consideram demasiado livre.O
governo alemão apresentou, há cerca de duas semanas, um pacote de
medidas de “resposta clara aos problemas de segurança”, como sublinhou a
ministra do interior, Nancy Faeser. A decisão surge assumidamente como
resposta ao ataque terrorista em Solingen, que fez três mortos e foi
reivindicado pelo Estado Islâmico (EI), e à ascensão da extrema-direita
no país.O plano do executivo liderado pelo
socialista Olaf Scholz, que pretende aliviar a pressão interna para
travar a imigração ilegal, inclui medidas de segurança, restrições nos
serviços aos requerentes de asilo e medidas para facilitar a expulsão de
migrantes.O estabelecimento de novos
controlos nas fronteiras com a Bélgica, Dinamarca, França, Países Baixos
e Luxemburgo, desde o dia 16 de setembro, que se somam aos já
existentes com a Polónia, a República Checa, a Suíça e a Áustria, tem
sido a mudança mais polémica.“Como Governo
Federal, estamos a fazer o que é necessário e legalmente possível para
garantir a segurança das pessoas na Alemanha. Estamos a alargar os
instrumentos da nossa democracia orientada para a defesa, a fim de
prevenir, resolver e sancionar as infrações penais”, apontou Faeser.Além
disso, a ministra garante que as autoridades passam a ter “mais
facilidade em manter as armas longe das mãos de extremistas, terroristas
e criminosos ou em retirá-las, melhorando também o intercâmbio de
informações entre as agências envolvidas”.Os
requerentes de asilo perderão a proteção do Estado se saírem de férias
para o seu país de origem, por exemplo, com algumas exceções. Deixarão
também de ter o reconhecimento do Governo se forem condenados por crimes
graves, como antissemitismo, racismo, homofobia ou misoginia. Além
disso, a iniciativa do Governo procura acelerar a expulsão de
requerentes de asilo que se encontram na Alemanha e a sua entrada
inicial foi registada noutro país da União Europeia (UE), de acordo com a
Convenção de Dublin."Quem recebe a nossa
proteção não deve abusar dela, caso contrário terá de abandonar o nosso
país”, disse a ministra do Interior alemã.Na
mesma linha parece seguir a França, agora sob um governo de direita
liderado por Michel Barnier, que já assumiu a vontade de reabrir as
negociações sobre o Pacto Europeu para as Migrações e adotar uma posição
mais rigorosa em matéria de migração, seguindo o exemplo dos ‘vizinhos’
Alemanha e Países Baixos.“Temos de rever
as legislações da UE que já não estão adaptadas. Estou a pensar, em
primeiro lugar, na diretiva do 'regresso'. É tempo de mudar as regras da
UE”, defendeu recentemente o novo ministro do Interior, Bruno
Retailleau.Paris diz também compreender a
decisão de alguns países da UE de reintroduzirem controlos fronteiriços
no espaço Schengen, tendo, a propósito, Barnier observado que vários
governos socialistas estão a ir nessa direção, dando como exemplo a
Alemanha, a Dinamarca e ainda o Reino Unido.“Estamos
a ver o que um chanceler socialista está a fazer [em matéria de
controlos fronteiriços], o que um ministro socialista está a fazer na
Dinamarca, o que um primeiro-ministro socialista está a fazer no Reino
Unido, isto deveria ser um sinal de alerta para nós”, afirmou Michel
Barnier.Já não fazendo parte do bloco
comunitário, o Reino Unido é outro ‘caso de estudo’ no atual contexto,
já que, eleito em julho passado, o novo primeiro-ministro britânico, o
líder trabalhista (esquerda) Keir Starmer, que rejeitou o plano do
anterior governo conservador britânico de expulsar migrantes para o
Ruanda, assumiu-se agora como entusiasta do modelo italiano de Meloni.Depois
de confrontado com os maiores motins no Reino Unido desde 2011, que
tiveram como alvo mesquitas e albergues de migrantes em todo o país,
Starmer admite agora replicar o ‘modelo’ italiano, tendo-se deslocado a
Roma há menos de duas semanas para perceber o que classificou como
“progressos notáveis” de Itália no combate à imigração ilegal, afirmando
concordar com “novas soluções” a serem aplicadas também no Reino Unido.Starmer
admitiu estar particularmente interessado nos acordos estabelecidos
pelo Governo de Meloni com as autoridades da Líbia e da Tunísia, para
reduzir o número de partidas desde estes dois países do Magrebe, mas
também foi abordado o polémico acordo estabelecido em novembro do ano
passado entre Roma e Tirana com vista à criação de dois centros de
migrantes na Albânia.Entre os
Estados-membros da UE já com políticas mais estritas, e além da Hungria
‘de’ Viktor Orbán - desde há muito crítica da política migratória
europeia - contam-se atualmente a Suécia, com um Governo conservador
apoiado pela extrema-direita, e os Países Baixos, com um Governo
dominado pela extrema-direita de Geert Wilders.Na
Suécia, que tradicionalmente recebia um grande número de imigrantes
desde a década de 1990, principalmente de regiões assoladas por
conflitos - incluindo a antiga Jugoslávia, Síria, Afeganistão, Somália,
Irão e Iraque - a nova política de combate à imigração decretada pelo
líder conservador Ulf Kristersson – que chegou ao poder em outubro de
2022, formando um bloco maioritário com o apoio do partido nacionalista
Democratas Suecos – já está a “produzir frutos”, como o próprio Governo
anunciou recentemente.Em agosto passado,
Estocolmo anunciou que o número de pessoas que deixam a Suécia deverá
ultrapassar o número de imigrantes em 2024, o que acontece pela primeira
vez em mais de meio século. Ao mesmo tempo, os pedidos de asilo
continuam a diminuir e atingiram o nível mais baixo desde 1997.Também
noutro país escandinavo até há poucos anos famoso pela sua política de
acolhimento de migrantes, a Dinamarca, a política mudou radicalmente nos
últimos anos, com o atual Governo socialista a utilizar cada mais os
termos “autossuficiência e retorno” em vez de “integração”, à medida que
a opinião pública dinamarquesa se foi manifestando cada vez mais contra
o grande número de migrantes no país e a extrema-direita poderia
capitalizar esse descontentamento.Nos
Países Baixos, o Governo, que chegou ao poder em julho, anunciou na
semana passada o programa de ação para 2025, que inclui políticas mais
rigorosas para reter ou expulsar os migrantes que não reúnam as
condições necessárias para obter asilo, no que constitui uma reforma
radical do sistema de asilo do país, e que prevê mesmo uma opção de “não
participação” nas políticas de migração da UE.E
é neste cenário de um número crescente de Estados-membros a advogar
políticas migratórias mais restritivas – e com conflitos como a guerra
na Ucrânia e no Médio Oriente ‘às portas’ da Europa – que arranca a nova
legislatura a nível da UE na sequência das eleições de junho passado,
que ameaça ficar marcada pela nova resposta do bloco comunitário aos
desafios em termos de migrações e asilo.