Novo presidente afirma que o TC "não esquece direitos dos estrangeiros e dos apátridas"
Hoje 17:38
— Lusa/AO Online
Numa
cerimónia de posse realizada no Palácio Ratton, em Lisboa, João Carlos
Loureiro respondeu aos que acusam o TC de ser "um tribunal político"
afirmando: "Não tenhamos medo da palavra: os tribunais – todos os
tribunais – são políticos enquanto se inscrevem numa comunidade
política, mas não são partidários. É a medida do direito a única que nos
deve mover".Por outro lado, no seu
discurso, o novo presidente do TC apontou para a sobrecarga resultante
dos casos de fiscalização concreta da constitucionalidade: "Estamos a
assistir a um excesso que corrói as instituições e leva a uma afetação
de recursos, a começar pelo tempo, que põe em causa o seu
adequado funcionamento. Importa não esquecer que a escassez existe"."Sobrecarregados
com inutilidades, com um efeito multiplicador de reclamações em que,
nalguns casos, já não se cumprem mínimos de fundamentação, e com
incidentes pós-decisórios deletérios. A justiça, também a
constitucional, deve ser baluarte dos direitos dos cidadãos,
mas confundem-se amiúde garantias com garantismo, num processo que põe
em causa o bem comum, o interesse público, que num Estado Constitucional
inclui os direitos fundamentais e não o seu sacrifício em nome de uma
vontade da maioria, que esqueça a pedra angular: o princípio da
dignidade da pessoa humana", acrescentou.João
Carlos Loureiro, eleito presidente do TC em 15 de outubro, referiu que
esta era uma "celebração de posse", mas "não a clássica tomada de posse,
pois esta já ocorreu pela urgência da necessidade", após o que
qualificou como "espinhoso processo" de recomposição do tribunal, que
terminou com a posse de quatro novos juízes.Na
sua intervenção, enquadrou o TC como "um tribunal que opera para a
comunidade, tribunal dos e para os cidadãos, mas tribunal que não
esquece direitos dos estrangeiros e dos apátridas". "O
ser para a comunidade não significa a cedência a modismos fáceis. O
nosso compromisso é com a Constituição. Esse é o único mastro a que nos
amarramos na viagem jurisprudencial que empreendemos. O único referente,
a única fidelidade que podemos ter nas vestes de juízes
constitucionais é a defesa da Constituição", declarou.A
seguir, João Carlos Loureiro defendeu que entre os juízes "há uma
saudável pluralidade de leituras constitucionais, que têm de
se alicerçar em argumentos", e que "o facto de um juiz votar pela não
inconstitucionalidade numa norma não significa que concorde com ela"."Isso
não é relevante. Apenas temos de saber se a solução proposta é
compatível com a lei fundamental, mesmo que jamais a propuséssemos na
esfera político-legislativa", reforçou, acrescentando: "Se o quiséssemos
fazer, em rigor, só teríamos uma solução lídima: despir a beca e
sujeitar-nos ao escrutínio eleitoral".João
Carlos Loureiro, professor da Faculdade de Direito da Universidade de
Coimbra, é juiz do TC por cooptação em abril de 2023 e foi
eleito vice-presidente do TC em outubro de 2025.Em
15 de outubro, no dia em que tomaram posse os quatro novos juízes
eleitos pela Assembleia da República, o plenário do TC elegeu João
Carlos Loureiro como presidente e Rui Guerra da Fonseca vice-presidente.Estiveram
presentes nesta cerimónia os ministros de Estado e dos Negócios
Estrangeiros, da Presidência, Adjunto e da Reforma do Estado e da
Justiça, os presidentes do Supremo Tribunal de Justiça e do Supremo
Tribunal Administrativo, o procurador-geral da República e
representantes dos partidos com assento parlamentar.Na
sua intervenção, o novo presidente do TC disse também que o tribunal
"abraça todo o território nacional e, inclusivamente, não esquece
direitos dos portugueses no estrangeiro". Sobre
a atual conjuntura, descreveu-a como "tempos turbulentos", marcados
pela "pela multiplicação de ruídos", em que "à construção de pontes se
prefere a tentação ensimesmada de levantamento de muros, e aos
necessários diálogos institucionais, ainda que, com clara afirmação das
diferenças, a fábrica radicalizada de ódios".Segundo,
João Carlos Loureiro, deve haver da parte do tribunal "discrição
institucional" e "o labor de juiz tem de passar, sobretudo nos casos
mais complexos, pela humildade", esperando-se que do TC "se discutam as
suas decisões, e não, passado o tempo de escrutínio curricular dos
indicados, os seus juízes".