Novo livro quer ser “registo literário” de Ponta Delgada para “memória futura”
29 de nov. de 2019, 12:43
— Lusa/AO online
"Existem muitos
livros de fotografia, daí a ideia de mapear a cidade com ficção escrita
de forma a ficarmos com um registo literário para memória futura. A
ideia é de algum modo fugir ao que já está feito", avançou à Lusa Maria
Helena Frias, editora da Artes e Letras.A
obra, que teve como "única premissa" a delimitação do espaço geográfico,
confinado à mais populosa cidade do arquipélago, acaba por "de certa
forma ser uma homenagem à cidade", frisou. Os
autores desta edição são os escritores Joel Neto, Nuno Costa Santos,
Leonor Sampaio da Silva e Leonardo, as tradutoras Blanca Martin-Calero e
Maria Brandão, o radialista Tiago Ribeiro, o artista plástico Mário
Roberto, a empresária do setor do turismo Maria das Mercês Pacheco, o
antigo jornalista e assessor Carlos Tomé e o advogado e ex-deputado à
Assembleia da República Pedro Gomes. Nomes de diferentes formações que permitem "linguagens diferenciadas", numa "simbiose" entre diferentes autores, diz a editora "É
uma edição onde a ficção tem a ousadia de trazer para o espaço
literário aqueles que estão à sua margem, numa simbiose com escritores
de renome da nossa literatura", apontou ainda Maria Helena Frias. O
título da obra remete para um poema de 1978 do açoriano Emanuel Jorge
Botelho e a escolha do conto como género escolhido deve-se às
características do "mundo contemporâneo""O
conto deve-se ao facto de ser uma prosa curta, concisa, mas completa,
perfeita. Embora se fale da crise do contar na era do digital, ele não
deixa de ser perfeita para o mundo contemporâneo onde tudo é rápido,
fugaz e fragmentado", destacou.Esta é a
primeira edição da coletânea de contos que terá periodicidade anual: "Já
estamos a trabalhar na edição do ano que vem", disse Maria Helena
Frias.Um dos autores desta primeira
edição, Leonardo, em declarações à agência Lusa, afirmou que representou
a cidade como uma "cidade bêbeda", que vai aproveitando "algumas coisas
boas que acontecem", sem saber "muito bem para onde vai" e sem calcular
as consequências futuras. Leonardo
destacou que Ponta Delgada se "foca muito no centro", o que provoca uma
"morte cultural" nas freguesias mais "periféricas".O
escritor acredita que Ponta Delgada está a "interromper" aquele que
considera o seu "património mais rico", a vista para o mar, sobretudo
devido à construção de edifícios, em virtude do aumento do turismo. "Chegarmos
ao ponto de haver quem escreva que o turismo é tão importante quanto o
oxigénio para essa cidade, isso acho que é um erro estratégico. Por aí
vamos ter muitos alojamentos locais e muita gente feliz com máscaras de
oxigénio a tentar respirar", considerou.Outra
autora, Blanca Martin-Calero, referiu à Lusa que mais do que retratar
Ponta Delgada, procurou explorar as "vivências da cidade"."Esta
também é uma viagem à memoria, ao passado, ao despertar de sentimentos
que pensávamos que já não existiam. E isso junta-se com a imagem da
cidade", destacou. A espanhola, a residir
nos Açores há 16 anos, considerou a "relação com o mar", as "ruas
estreitas", o "mercado", a pequena dimensão e o contraste entre a "pedra
preta do chão e o branco das fachadas", como algumas das
características de Ponta Delgada. "Avenida
Marginal" tem a chancela da editora Artes e Letras, da livraria
Sol-Mar, e conta com o apoio da Câmara Municipal de Ponta Delgada.