Nove em cada 10 sem doença cardiovascular tem pelo menos um fator de risco
4 de nov. de 2024, 11:23
— Lusa
O estudo RADICAL
(RAstreio DIgital do risco Cardiovascular), que recolheu informação de
mais de 4.000 pessoas com idades entre os 40 e 69 anos e sem doença
cardiovascular conhecida, concluiu que há uma elevada prevalência nesta
população dos fatores de risco modificáveis, como a atividade física,
sobrepeso, alimentação ou as horas de sono.“São
pessoas que aparentemente são saudáveis, ou seja, que não têm doença
cardiovascular conhecida (…)”, sublinhou o cardiologista Helder Dores,
lembrando a metodologia inovadora usada neste trabalho, que teve luz
verde da comissão de ética da Nova Medical School.Segundo
explicou, habitualmente o cálculo do risco cardiovascular é feito em
consulta, com perguntas aos utentes e usando tabelas que são a
probabilidade de a pessoa vir a ter doença. Neste
caso, a inovação foi estratificar o risco à distância, por via digital,
conseguindo alcançar mais gente, e o facto de o risco ser
autorreportado, explicou o especialista, lembrando que esta opção, além
de ajudar a própria pessoa a tomar consciência do seu risco, pode
facilitar a deteção mais precoce.Helder
Dores acrescentou ainda que o estudo permitiu estratificar fatores de
risco que não são tão estudados nesta franja da população – sem doença
cardiovascular.Destacou os dados
recolhidos sobre a inatividade física, com uma prevalência de 33,7%, e
as horas de sono, um fator nem sempre relacionado com o risco de doença
cardiovascular.“É muito relevante, embora
esquecido, como fator risco cardiovascular”, afirmou o especialista,
lembrando que, das pessoas que responderam, mais de metade (58,4%)
dormiam menos de sete horas por noite.O estudo insere-se no projeto Cardio da Vida, uma plataforma de literacia em saúde na área cardiovascular.Quanto
à prevenção, o especialista saudou a possibilidade de as doenças
cardíacas poderem passar ser diagnosticadas nos centros de saúde a
partir de janeiro de 2025.Segundo um
despacho publicado em Diário da República na semana passada, a partir de
janeiro deixa de ser necessário o médico de família encaminhar o utente
para o hospital para este tipo de diagnóstico, sendo-lhe permitida a
prescrição de exames como “TAC Cardíaca” e “Ecocardiograma de sobrecarga
com exercício”, entre outros.A este
respeito, Helder Dores lembrou que a prevenção cardiovascular “não é só
um ato que diga respeito ao cardiologista” e que o facto de o doente, se
for necessário, ser referenciado para a cardiologia já com exames
"acelera o processo para eventuais tratamentos", o que considera
fundamental.“Em termos clínicos, como é
óbvio, se detetarmos mas precocemente uma doença, (…) melhora o
prognóstico com intervenções terapêuticas mais precoces, que podem ser
implementadas imediatamente. Por outro lado, também se ganha tempo (…),
com impacto clínico positivo para o doente”, sublinhou.O
cardiologista disse que “o ónus da saúde não é só dos profissionais de
saúde”, sublinhando que cada um deve fazer a sua parte na prevenção da
doença.As doenças cardiovasculares são a
principal causa de morte no mundo, com 18,6 milhões de mortes/ano. Em
Portugal, as doenças do aparelho circulatório causam 35.000 óbitos por
ano e são igualmente a primeira causa de morte. Os
oito fatores de risco para as doenças cardiovasculares são a
alimentação, exercício físico, tabaco, horas de sono, peso, pressão
arterial, níveis de glicose e de lípidos no sangue.