Nove anos depois, tribunal administrativo vai julgar ação de Sócrates contra Estado
Operação Marquês
Hoje 11:52
— Lusa/AO Online
Em
comunicado, o chefe de Governo entre 2005 e 2011 revela que o
julgamento está marcado para 14 e 15 de maio, frisando que foi
notificado do agendamento em 14 de abril, um dia depois de ter dado uma
conferência de imprensa em Bruxelas (Bélgica) para tornar público que o
processo com que entrou no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos contra
Portugal "tinha passado à fase de notificação das partes".Para
José Sócrates, tal obriga a reconhecer que "o impulso processual para a
marcação do julgamento não resultou do normal funcionamento do sistema
judicial, mas antes da ação externa do Tribunal Europeu", tendo o Estado
atuado por "medo da jurisdição europeia".A 3 de fevereiro de 2017, o ex-governante socialista entrou com uma ação
no Tribunal Administrativo de Lisboa por violação dos prazos máximos
legais do inquérito da Operação Marquês, iniciado em 2013 e cuja
acusação acabaria por ser deduzida em outubro de 2017.Depois
de uma longa fase de instrução, à qual se sucederam recursos das
defesas e do Ministério Público, o julgamento do processo Operação
Marquês começou em 03 de julho de 2025 no Tribunal Central Criminal de
Lisboa, faltando ouvir dezenas de testemunhas.Na
mesma altura, José Sócrates apresentou uma queixa contra Portugal no
Tribunal Europeu dos Direitos Humanos por considerar estar a ser alvo de
uma violação do princípio do direito a um julgamento equitativo, tendo
esta instância pedido este mês esclarecimentos ao Estado."A
realização apressada do julgamento [da ação administrativa] é uma
confissão de culpa: não apaga a violação já consumada e denuncia a
tentativa de 'regularização tardia'. Se a ideia é evitar o êxito da
queixa, lamento muito, mas a marcação do julgamento confirma-a
inteiramente", sustenta o ex-governante na nota de hoje.No
comunicado, o antigo primeiro-ministro reitera que os nove anos que
passaram até o julgamento ser marcado "excedem tudo aquilo que é decente
e aceitável na relação com os cidadãos" e configuram a violação dos
direitos "a um processo equitativo e em prazo razoável" e "a um recurso
efetivo"."Por estas razões mantenho a
queixa junto do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos e reservo-me o
direito de aí fazer valer a insuficiência dos meios processuais de
reparação interna", conclui o antigo chefe de Governo.No
processo criminal, José Sócrates, de 68 anos, está pronunciado (acusado
após instrução) de 22 crimes, incluindo três de corrupção, por ter,
alegadamente, recebido dinheiro para beneficiar o grupo Lena, o Grupo
Espírito Santo (GES) e o 'resort' algarvio de Vale do Lobo.No
total, o processo conta com 21 arguidos, que têm, em geral, negado a
prática dos 117 crimes económico-financeiros que globalmente lhes são
imputados.Os ilícitos terão sido
praticados entre 2005 e 2014 e, em março, o tribunal esclareceu que
"qualquer indicação da data de prescrição" de crimes "seria imprecisa e
extemporânea", apesar de, em novembro, ter dito que no primeiro semestre
deste ano poderiam prescrever os ilícitos de corrupção mais antigos,
relacionados com Vale do Lobo.