Novas gerações da diáspora açoriana precisam de mais que o mercado da saudade
EUA
24 de mar. de 2021, 11:48
— Lusa/AO Online
"Estamos a
investir no mercado da saudade para gerações que não têm saudades
porque nem sequer conhecem os Açores", afirmou Tatiana Ourique, técnica
superior na Direção Regional da Cultura, numa sessão do simpósio
"Filamentos da Herança Atlântica: Os Açores e a Diáspora nos EUA". "Temos
de lhes dar qualquer coisa que as faça identificar com os Açores",
afirmou, referindo a importância de mostrar a arte e a cultura
contemporâneas. A sessão, intitulada "Os
Primos da América: Construindo uma Ponte entre as Novas Gerações", teve
como objetivo a troca de ideias sobre como dinamizar as ligações entre
os Açores e a sua diáspora para lá da saudade e das tradições. Rui
Faria, presidente da Associação dos Emigrantes Açorianos, salientou a
importância histórica destas ligações, lembrando que sempre teve tios e
primos emigrados e que "a alegria maior, mais do que o Natal, era
receber um barril da América".Ricardo
Botelho, que participou no evento como representante da Juventude
Socialista, reforçou que "não há açoriano que não tenha um primo da
América" e disse que se deve "desmistificar" a saudade, para que não
passe "uma versão distorcida" do que o arquipélago é atualmente. "As
novas gerações estão agarradas ao folclore, à dança etnográfica, à
música da filarmónica, que são património, que os emigrantes gostam, mas
é preciso mostrar que há mais, evoluímos", disse. "E até evoluímos
muito bebendo daquilo que os emigrantes foram trazendo e mostrando". Botelho sugeriu mudanças ao nível das organizações portuguesas encarregadas de manter a coesão das comunidades. "Os
emigrantes que consomem o produto dessas associações são os que estão a
desaparecer", disse. "As novas gerações não se identificam, porque
essas associações transmitem aquilo que já transmitiam há anos". Segundo
ele, "devia-se apostar numa política de inovação, de mudança, de
mostrar o processo evolutivo dos Açores. As artes têm de estar ao
serviço desta evolução". Tatiana Ourique
frisou que "há muita modernidade" nos museus espalhados pelas várias
ilhas e que será importante "incluir estes roteiros culturais" nas
visitas dos emigrantes. Outro caminho de
intervenção, segundo a perspetiva do professor luso-americano Logan
Duarte, é o reforço dos intercâmbios universitários. "Muitos jovens da
diáspora têm uma visão muito tradicional dos Açores", referiu. "Adorava
ver mais colaboração entre universidades e jovens luso-americanos",
afirmou, considerando que a literatura pode ser "uma grande
unificadora", em particular através das edições bilingues. O
fadista David Garcia, nascido na Califórnia, considerou que um dos
problemas da comunidade portuguesa é não abrir as portas à comunidade
americana, que sabe pouco sobre Portugal. "O
emigrante vive na saudade e na base das tradições. É o Carnaval, é o
folclore, são as bandas. A comunidade americana não sabe nada dos
portugueses a não ser que fazem bom vinho e bom queijo", afirmou. Garcia
lembrou que o número de associações portuguesas na Califórnia está a
diminuir e que a situação tem tendência a piorar, porque as gerações
mais novas "não conhecem os Açores" e ainda os associam aos carros de
bois. Uma das sugestões do fadista é a
promoção de reportagens e filmes direcionados aos meios americanos, para
chegar às gerações que não têm presente a evolução açoriana nas últimas
décadas. A questão foi ecoada por Sara
Leal, realizadora e produtora que está a trabalhar em documentários
sobre autores açorianos. Para ela, um dos problemas é a comunicação dos
trabalhos que vão sendo feitos. "Já
fazemos muitas coisas, mas não são comunicadas como deve ser",
salientou. "Tem de se investir na comunicação também. Os orçamentos são
relativamente reduzidos e essa fatia da comunicação não é considerada
vital".Considerando que a distância não é
emocional nem identitária, mas financeira, Sara Leal disse que "é
importante criar algumas parcerias diretas e projetos conjuntos",
garantindo mais financiamento.O simpósio
virtual foi organizado pelo Instituto Português Além-Fronteiras,
liderado pelo professor Diniz Borges na Universidade Estadual da
Califórnia, Fresno, e teve o apoio da FLAD - Fundação Luso-Americana
para o Desenvolvimento, Governo Regional dos Açores, Associação dos
Emigrantes Açorianos e Conselho de Liderança Luso-Americano, PALCUS.