Notas tardias deixaram muitos alunos sem saber a classificação
Hoje 10:22
— Daniela Arruda
Dia 17 de julho prometia ser o grande dia. Foi para ontem que o Ministério da Educação adiou a publicação das notas dos exames nacionais, mas estas só chegaram após a hora do fecho das escolas.Os quadros das escolas, normalmente de cortiça, estavam vazios. Só estavam os papéis das listas que ali deviam ter sido afixadas: “9.º ano”, “11.º ano” e “12.º ano”. De resto, era vazio.Logo de manhã, percorreu-se os corredores da Escola Domingos Rebelo à procura dos auxiliares e das tão esperadas pautas. Parecia uma verdadeira caça ao tesouro.Noutros anos, a manhã de ontem seria um entra e sai de alunos e famílias: uns felizes por verem o seu esforço reconhecido; outros a fazer contas de cabeça para ver se a média chegava para o curso e vida que sonharam.Mas nada disso aconteceu, o alvoroço não estava na escola, só mesmo na linha telefónica. Caia uma, duas, três e mais chamadas, quem atendia os telefones, desta vez na Escola Secundária Antero de Quental, já tinha a resposta decorada: “Ainda não foram publicadas. Quando forem, nós pomos uma mensagem no site da escola”. E sem ter ideia de saída, tanto das notas, como do trabalho, os auxiliares esperaram, os professores esperaram, os alunos esperaram, e o jornal Açoriano Oriental também.Professores, “os verdadeiros heróis”Fernando Vicente, presidente do Sindicato dos Professores da Região Açores (SPRA), não tem problemas em apontar responsabilidades e sublinha: “Os professores são os verdadeiros heróis desta trapalhada que o próprio Ministério criou”.Defende que o problema nunca foi a digitalização dos exames, mas a forma como este processo foi implementado. Considera que o Ministério decidiu uma transformação desta dimensão sem um planeamento, sem garantir as condições técnicas e humanas e sem assegurar a transparência e o rigor do processo.“O que nós somos contra é esta trapalhada que foi feita sem planeamento. Temos de assumir que esta foi uma decisão política do ministro”, afirma.Fernando Vicente diz ainda que esta situação é também uma consequência da reestruturação do Ministério da Educação, e lembra que foi o próprio ministro quem assumiu ter reduzido significativamente os recursos humanos e a reorganização dos serviços que, durante anos, colocavam a máquina a funcionar.Já António Fidalgo, presidente do Sindicato Democrático dos Professores dos Açores, alerta que a procissão ainda vai no adro.“Em média, costuma haver 2% de reapreciações e atendendo àquilo que aconteceu, nós poderemos ter vários milhares, se não dezenas milhares de recursos”, pois muitos alunos e famílias perderam a confiança num processo que costumava correr bem.Caso esse cenário se confirme, um grande número de classificadores vai ser obrigado a mobilizar-se numa altura que está a decorrer a 2.ª fase dos exames nacionais.Por isso, a incerteza já nem é só relativa a esta fase, mas sim a todo o calendário escolar: “O ingresso ao Ensino Superior, o início do próximo ano letivo e até as férias dos professores podem ficar condicionadas”, diz António Fidalgo.E a falta de informação que não é dada às escolas sobre os próximos passos é também outra preocupação. Nesse sentido, defende que é urgente informar quem poderá ser chamado para as reapreciações, para que os docentes possam reorganizar a sua vida pessoal. “No fundo, acabaram por ser os professores a resolver um problema que não é deles”.Classificadores dos Açores corrigiram 100% dos itensDo lado da Direção Regional da Educação e Administração Educativa (DREAE), Rui Espínola garante que, nos Açores, todo o trabalho que competia aos classificadores está concluído.Segundo o diretor regional, os professores da Região corrigiram a totalidade dos itens que lhes foram distribuídos e agora resta “aguardar pelos resultados do Júri Nacional de Exames”.O Agrupamento de Exames de Angra do Heroísmo, atualmente o único da Região, depois da decisão do Ministério da Educação de reduzir para metade o número de agrupamentos, digitalizou 8.076 provas dos 9.º, 11.º e 12.º anos. Apesar de alguns constrangimentos semelhantes aos do Continente, Rui Espínola garante que “a digitalização ocorreu na ordem do normal”.Nos Açores, estiveram disponíveis 364 classificadores e, segundo a DREAE, não houve dificuldades em assegurar o processo: “Os professores estiveram sempre muito recetivos à classificação, não tivemos problemas. E ainda ficaram alguns para a segunda fase, que começará na próxima semana”.Sobre o atraso, Rui Espínola diz que não lhe foram reportadas preocupações dos alunos e prefere não falar em impasse. Diz que este processo é “um passo gigante” na modernização da classificação dos exames nacionais. No entanto, reconhece que são precisos ajustes e espera que os problemas sejam afinados para a 2.ª fase.Classificações fora de horasDepois de muitas horas de espera, as classificações chegaram aos Açores depois das 19:00, segundo confirmou o jornal junto dos diretores das secundárias Antero de Quental e da Ribeira Grande. Chegaram, mas não em tempo útil e, por isso, a solução pode passar por as escolas estarem abertas no fim de semana. A RibeiraGrande abriu ontem, das 20h às 21h, e abrirá hoje, das 9h às 10h.Mas questões como a equitatividade se levantam, é justo alunos saberem da sua nota primeiro e outros depois? Agora, o processo de publicar as classificações fica entregue a cada escola e recorde-se que a partir de hoje os alunos já se podem inscrever na 2.ª fase e na segunda-feira poderão pedir a consulta da prova.