Norte-americanos procuram os Açores para fazer pilates e yoga em pranchas no mar
17 de ago. de 2019, 09:54
— AO Online/ Lusa
À dificuldade dos exercícios de yoga e pilates junta-se a necessidade de manter o equilíbrio numa prancha insuflável, que vai balançando ao sabor das ondas, mas é isso que torna a modalidade divertida, segundo Joana Meneses, instrutora de yoga e pilates há 18 anos.“Faz parte cair, por isso é que é joga, de jogar. A gente puxa pela filosofia da yoga e pela anatomia do pilates, mas também é brincar, é mexer com as pranchas e ver se a tua amiga ao teu lado pode cair na água. A gente diverte-se”, descreve, em declarações à Lusa, antes de iniciar mais uma aula na piscina do hotel em que o grupo fica alojado.Há quatro anos que no verão Joana troca Nova Iorque, onde reside há mais de duas décadas, pela ilha em que nasceu, para das aulas de ‘sup joga’ a locais e a turistas na sua “malmequer”, um conjunto de 10 pranchas ligadas, em forma de flor, a outra no centro, a partir da qual vai demonstrando o que fazer.Este ano, as inscrições para o retiro de sete dias superaram o número de vagas (e o número de pranchas disponíveis), com 11 participantes não só dos Estados Unidos da América, mas também da Alemanha e da ilha Terceira.Para além do sup joga, o retiro inclui aulas de yoga e pilates ao ar livre, percursos pedestres, atividades náuticas, como observação de cetáceos, e jantares de gastronomia tradicional, para que os participantes tenham uma verdadeira “experiência açoriana”.Kari Hansbarger conheceu Joana no prédio em que as duas moravam em Nova Iorque e, depois de integrar a sua turma de pilates, ajudou-a a desenvolver o programa ‘sup joga’ na água.Há três anos que não perde o retiro na ilha Terceira, mesmo que este ano tenha cedido a prancha a uma amiga que queria experimentar a modalidade.“Eu volto, não só pelo retiro, volto porque me apaixonei pelas pessoas. Elas são tão generosas. Apaixonei-me pela cultura, pela comida, pelo oceano, por tudo. É como voltar atrás no tempo, com todas as coisas que amamos sobre família e amigos. Há aqui qualquer coisa de muito especial e diferente, que eu não encontrei em lado algum em todas as minhas viagens”, salienta.Natural da ilha Terceira, Sandra Canto experimentou as aulas de yoga e pilates no tapete, em 2016, e há dois anos que integra também o retiro junto com os turistas.Diz que a aula tem benefícios para o corpo e para a mente e que é tão divertida que faz exercício sem dar por isso, ainda que no dia seguinte sinta dores.“A primeira aula que eu tive com a Joana foi no jardim da Praia da Vitória. Eu estava a passar uma fase complicada da minha vida e aquela aula fez com que eu descobrisse o que eu queria verdadeiramente para a minha vida”, conta.Joana Meneses saiu dos Açores com dois anos, quando os pais decidiram emigrar para o Canadá, mas os verões eram passados com frequência na terra natal e nunca perdeu o contacto com as raízes e com a língua.“Sinto-me muito abençoada. O meu pai era tanto chegado à sua terra, à sua Terceira, que nunca deixou os filhos esquecerem a sua língua, a sua cultura, a sua família… E é por causa disso que eu agora posso voltar. Tenho amigos desde a infância, que acreditam muito neste programa. É a única maneira de eu poder fazer isto, porque isto dá muito trabalho”, apontou.É numa mistura de português e inglês que conta como teve a ideia de criar o retiro na ilha Terceira, em 2015, numa ida à praia da Riviera, na Praia da Vitória, com o pai, que veio a falecer pouco depois com cancro.“No verão, é sol e mar, mas no inverno fica um bocadinho mais frio, não se pode estar sempre na praia. Nesse dia, com o meu pai, eu disse: mas porque é que eu não posso vir nos verões e trazer pessoas para a minha terra”, relata.Quando regressou aos Estados Unidos, falou com amigos surfistas e desenhou as pranchas insufláveis, em forma de malmequer – a flor preferida da mãe –, que mandou fazer numa empresa francesa.Podia ter levado as pranchas para qualquer parte do mundo, mas é nos Açores que se sente “em casa”, pela forte ligação que mantém com as pessoas e com a natureza.Este ano, decidiu deixar Nova Iorque, para onde partiu há 22 anos com o sonho de ser atriz, e instalar-se em Lisboa, no inverno, e na Terceira no verão.“O meu objetivo é estar aqui na Terceira e dar aulas aos locais de meados de junho, quando o tempo fica bom no mar, até meados de setembro. E depois no inverno vou tentar trabalhar em Lisboa com exercício físico, pilates e yoga, mas nós já estamos a criar uma prancha que é interior, que obrigue a equilibrar como na água, mas que possamos fazer dentro de casa, para fazer retiros no inverno”, avançou.No próximo ano, quer dar formação para que o programa que chama de Liquid Roots Sup Joga chegue a outros países, aumentar o número de retiros para quem chega de fora e criar retiros mais pequenos para os habitantes da ilha, que também já se deixaram conquistar pela modalidade.“Os locais dizem-me: nunca pares de fazer o que estás a fazer, Joana”, revela, acrescentando que antes de chegar à ilha já a contactam nas redes sociais a perguntar quando regressa.