No novo balcão para pedidos de nacionalidade, as filas de sempre
1 de set. de 2025, 17:22
— Lusa/AO Online
Por volta das 14:30,
quando a secretária de Estado da Justiça, Ana Luísa Machado, chegou para
visitar o novo espaço inaugurado, havia dezenas de pessoas
repartidas por três filas à porta do novo balcão, sem senha atribuída e
sem qualquer garantia de ainda virem a ser atendidas hoje.Questionada
sobre a aparente relocalização das filas e várias horas de espera dos
dois anteriores postos de atendimento agora concentrados num único no
Parque das Nações, em Lisboa que pretende agilizar os atendimentos, a
governante disse lamentar a situação, mas considerou-a normal, pelo
“fator novidade” do novo balcão.“Lamento
imenso. Infelizmente, nós gostaríamos de ser perfeitos e gostaríamos de
ter sistemas perfeitos. Não existem sistemas perfeitos, estamos a dar o
nosso melhor”, disse a secretária de Estado.Até
ao início da tarde o novo balcão já tinha atendido cerca de 160 pessoas
e a expectativa é a de que a média diária venha a superar as 200,
adiantou o presidente do Instituto dos Registos e Notariado (IRN), Jorge
da Ponte, que acompanhou a secretária de Estado da Justiça na visita.Questionados
sobre os mais de 500 mil pedidos de nacionalidade pendentes de análise e
decisão nos serviços, a secretária de Estado disse que está a ser feito
“um esforço muito grande para recuperar todas as pendências”.Jorge
da Ponte remeteu para breve a atualização dos dados relativos às
pendências, acrescentando, sem detalhar, haver “alguns sucessos” a
registar na redução do número de processos pendentes, cujo último valor
oficial, divulgado em junho, era de cerca de 515 mil.No
dia em que inaugurou o novo balcão de atendimento presencial, Ana Luísa
Machado reforçou o apelo a que as pessoas recorram aos meios digitais e
aos correios para submeter pedidos e documentação, consultar o
andamento do processo, ou até agendar um atendimento, mas nas filas à
porta havia quem estivesse há semanas a tentar o agendamento online, sem
sucesso.Era o caso de Fabiana, que soube
que o balcão exclusivo para pedidos de nacionalidade abria hoje e
resolveu tentar a sorte presencialmente. Chegou ao início da tarde e
quando falou à Lusa já só tinha pouco mais de uma dezena de pessoas à
sua frente na fila dos que ali estavam para dar início ao processo.As
outras duas filas - para quem só queria juntar documentos ao processo
já existente ou na dos que pretendiam apenas informação sobre o
andamento do processo - não pareciam avançar e houve quem desistisse da
espera.Fabiana, que reside em Odivelas e
em outras ocasiões já tinha tentado ser atendida noutros balcões,
permanecia na fila, otimista.“Eu tentei
vir aqui com esse otimismo, que aqui, como é uma unidade nova, a
expectativa é de conseguir, nesse momento inicial, o atendimento
presencial, já que nos outros eu não consegui”, disse à Lusa, referindo
que não tem sido fácil gerir o tempo perdido nas esperas com os dias de
trabalho.Fabiana já não teme eventuais
impactos no seu processo da nova lei da nacionalidade que possa vir a
ser aprovada no parlamento, mas teme por outros brasileiros, que agora
já reúnem as condições e o tempo de residência necessários para dar
início ao processo e que podem vir a ter que esperar mais algum tempo se
não conseguirem iniciá-lo antes de a nova lei entrar em vigor, que
prevê aumentar o tempo de residência necessário para se poder pedir a
nacionalidade.“Eu fico impactada com
vários cidadãos brasileiros que estão aqui há (…) quase cinco anos, vão
fazer cinco anos até o final do ano, e estão na expectativa de saber se a
legislação vai ser promulgada ou não. Porque se for, eles podem ter de
ficar mais dois anos. (…) Eu sinto empatia em relação a isso”, disse.Ligeiramente
à frente na fila estava Cláudio, que chegou pelas 09:30 e a essa hora
já tinha muitas pessoas à sua frente. Outras pessoas ouvidas pela Lusa
que preferiram não ser identificadas e que chegaram por volta da mesma
hora contabilizaram mais de 80 pessoas à sua frente na fila logo na hora
de abertura do novo balcão.Cláudio, que
também pretende iniciar o processo de pedido de nacionalidade, que no
seu caso é por ascendência – o avô era português – não sabia que o novo
espaço ia abrir e chegou já depois de ter ido a outro balcão encerrado.Também
não conseguiu um agendamento online com a brevidade que precisa e, tal
como muitos outros, lamenta as complicações laborais que os dias de
trabalho perdidos nas filas de espera lhe trazem.“A
gente perde dias de trabalho, arruma problema até com o patrão, porque
não compreende muito bem, ele quer trabalho, produção, e aí fica
difícil, complica a vida da gente”, disse.Apesar do transtorno, não abdica do otimismo nem do lugar na fila: “Ah, sim, sou brasileiro, não desisto nunca”.