No lar do Nordeste onde morreram 12 pessoas, a vacina traz “grande satisfação”
Covid-19
29 de dez. de 2020, 14:34
— Lusa/AO Online
“A vacina… com certeza!”,
afirma Boanerges Pacheco, um camponês de 80 anos, que vive neste lar da
ilha açoriana de São Miguel há dois anos.Na
estrutura, que albergava 54 idosos, 38 ficaram infetados e, destes, 12
morreram. O vírus infetou também 13 funcionários e três familiares de
funcionários.O edifício organizado à volta
de um pátio, como um claustro, tem agora portas a separar os corredores
que formam as arestas do quadrado. A circulação está limitada. Desde o
dia 24 de dezembro, e até 07 de janeiro, são permitidas duas visitas de
15 minutos a cada utente. As visitas acontecem numa sala com uma mesa
separada por um acrílico e os visitantes acedem à sala pelo exterior do
edifício. É lá que a Lusa fala com os utentes.Boanerges escapou à doença. Por isso, em breve, deverá ser chamado para ser vacinado.Já
muito ouviu dizer sobre a vacina - “aquilo é passageiro, aquilo não
conta nada, outros dizem que aquilo não vale a pena” -, mas os rumores
não dissuadem o camponês, natural da Lomba da Fazenda, freguesia do
concelho do Nordeste.“O que é que eu vou
descartar aqui?”, questiona. “Vou descartar uma bisca… É levar para
diante! Há de ser o que Deus quiser”, afirma.Da
janela do quarto, Celeste Soares, de 85 anos, foi assistindo à partida
dos utentes do lar que, conforme eram diagnosticados, iam sendo levados,
de acordo com a gravidade do quadro clínico, ora para a enfermaria
covid-19, criada no Centro de Saúde do Nordeste, ora para o Hospital do
Divino Espírito Santo, em Ponta Delgada, onde a primeira idosa infetada
deste lar contraiu o vírus.É com lágrimas
nos olhos que Celeste revê o dia em que viu o seu marido a ser levado:
“Eu disse assim ‘ai, Senhor, nosso Senhor permita que eu não tenha
também’. Ao cabo de dois dias, ou o que foi, veio um enfermeiro. Ele
disse ‘senhora Celeste, eu quero dar-lhe uma notícia’ e eu disse ‘o meu
marido está pior?’. E ele: ‘Não… A senhora também tem o vírus’.”Muitos
dos utentes “não se iam apercebendo” da gravidade da situação, porque
estavam isolados nos quartos. “Só pessoas como a senhora Celeste, que
eram pessoas autónomas, que se iam pondo à janela, se iam apercebendo da
quantidade de pessoas que saíram”, explica a diretora clínica do lar,
Patrícia Cambóia.“Houve um dia em que saíram muitos – saíram 15. Aí, foi o dia mais complicado”, conta.A responsável diz que “chegar ao pé de um idoso e dizer-lhe que está contaminado com covid-19 é muito complicado”. “Aqueles olhos ficam a olhar para nós, do tipo ‘para onde é que eu vou e será que regresso?’”, acrescenta.O
vírus foi gentil com Celeste: “Não sentia nada… Era uma cabeça
maldisposta e [ficava] mais na cama. Não tive sintomas nenhuns”, conta.Para
acelerar a recuperação, com frequência “cheirava álcool, que era para
matar o bichinho, mas aquilo desapareceu da mesinha de cabeceira”,
lamenta.Aos 85 anos, Celeste recuperou de
uma doença que é particularmente severa com os mais velhos. Também o seu
marido, Jeremias, escapou à doença. Com 94 anos, é o recuperado mais
velho do lar.Não tem “boca de agradecer a
Deus” pela recuperação, mas é cautelosa com a vacina, que não terá de
levar, por já ter estado infetada, mas que, ainda assim, a deixa
arreliada.“Tenho medo dessa vacina.
Confesso: é verdade, tenho muito medo dela. Porque eu sou alérgica a
muita coisa: camarões, lapas… mariscos, e sou alérgica a um medicamento.
Eu não sei o que é que aquilo vai fazer, se é bem, se é mal”, explica.Se
para alguns a vacinação traz ansiedade, a outros traz “grande
satisfação”, como ao provedor da Santa Casa da Misericórdia do Nordeste,
José Carlos Carreiro.“Pelo que nós
passámos, não há dúvida nenhuma de que a vacina representa um grande
avanço no controlo da epidemia e na prevenção da doença e, por isso,
vemos com grande satisfação”, afirma.O
responsável destaca a abertura temporária do lar a visitas, durante o
período natalício, como um “bálsamo” – “a alegria que se gerou trouxe um
alento muito grande”.Ainda assim, segundo
a a diretora clínica, as regras que ditam que cada utente pode receber
apenas duas visitas, com 15 minutos de duração, “são complicadas em
famílias numerosas” e geram “conflito familiar”.Patrícia
Cambóia coordenou a equipa que ficou no lar durante o surto e teve de
assumir todo o tipo de funções quando se viu com apenas 12 funcionários
para cuidar de 54 idosos.Era também
difícil motivar a equipa, porque alguns dos utentes são familiares dos
funcionários: “Tive a situação de uma senhora que viu a mãe e a sogra
saírem. Pensei para mim ‘bem, ela vai atrás’, mas não. Graças a Deus
consegui fazer a equipa toda chegar até ao fim”.As
12 mortes provocadas pelo surto ainda pesam na memória daquele lar, mas
“os utentes que faleceram, na sua grande maioria, eram pessoas com
idade avançada, com problemas de saúde, que, se calhar, se não
falecessem de covid-19, tinham falecido no decorrer deste ano”, explica a
coordenadora.Quem fica lamenta também a
perda de autonomia dos utentes. A diretora técnica adianta que “o grau
de dependência [dos idosos] se agravou significativamente” desde a
imposição de restrições à circulação em toda a estrutura.Antes de a pandemia chegar, havia “dois, três utentes autónomos”. Agora, não há nenhum.Para Boanerges, era habitual ir passar o fim de semana a casa, com a mulher Eduarda.“Ela
faz tudo o que eu gosto”, diz com satisfação visível no olhar, quando
fala das favas que Eduarda lhe prepara. Este ano, queria ir às terras
que tem na Lomba da Fazenda para semear favas, mas quando lhe explicaram
que, se o fizesse, teria de ficar 14 dias em isolamento, abdicou da
ideia.“’Pró’ quarto nunca mais!”, exclama.
“Fiquei farto. Estou teso das pernas. Não posso andar por causa disso…
sinto as pernas todas dormentes”.Aos 80 anos, Boanerges tem ainda a mãe viva, já com 100 anos, ainda que longe, no Canadá, onde moram também os seus oito irmãos.Quando
se queixa das pernas, Patrícia lembra-lhe que, se sair à mãe, ainda tem
muito que viver: “Vai ficar bom, que o senhor é rijo!”, atira.“Eu penso que sim… A idade também não está muito velha demais”, responde Boanerges, entre risos.A
idade também não pesa a Celeste Soares, que, durante a sua vida ativa,
fez “vida de casa”: “ir para a terra, semear batatas, feijão, milho, era
vida de mulher – cozer pão, ir à lenha, ir ao moinho buscar farinha
para fazer pãozinho…”.Também no lar
ajudava a “acartar as cadeiras dos utentes para o refeitório, ia comprar
coisas” para outras idosas, “ia ao centro de saúde, à segurança social,
ia entregar o cheque ao correio, pagar a farmácia”.“Consolava-me
a viver assim. Agora é isto, um isolamento… Para quem andava como eu
andava, ficar assim… isto é muito grave”, lamenta.