Níveis atuais de captura das lapas superam números registados no colapso da década de 80
Hoje 10:24
— Nuno Martins Neves
São um dos pratos mais apetecíveis e reconhecidos nos Açores, mas os dados mais recentes apontam para uma sobre-exploração que coloca em risco a população de lapas. De acordo com o investigador do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO), Gustavo M. Martins, as capturas de lapas no ano passado ultrapassam já as registadas na década de 80, do século passado, quando se deu o colapso. No entanto, o esforço de captura aumentou, o que, no seu entender, significa que há uma menor disponibilidade de lapas, pelo que a situação será mais dramática.“De uma forma global, há sinais preocupantes de sobre-exploração. Por exemplo, a abundância de lapas nas zonas de reserva, em qualquer uma das nove ilhas, é idêntica à abundância de lapas nas zonas fora das reservas, o que sugere o não respeito pelas zonas designadas como reserva. Há um efeito claro da exploração na redução do tamanho médio dos animais que afeta diretamente a reprodução das lapas e interfere na sua capacidade de regeneração das populações”, explica, em entrevista ao Açoriano Oriental.A distribuição de lapas no arquipélago é heterogénea, ou seja, existe por todas as nove ilhas, mas com maior abundância nas Flores, Corvo, São Jorge, Pico e Faial, e menor na Terceira, Graciosa, São Miguel e Santa Maria, reflexo direto dos “diferentes esforços de pesca registados em cada ilha”.Como grande fator de pressão, Gustavo M. Martins aponta, inequivocamente, a sobre-exploração, fruto do crescimento do turismo na região, afastando da equação qualquer fator de natureza climática, seja pelas alterações climáticas ou pela acidificação do mar, seja pela perda de habitat: baseando-se nos dados das descargas em lota e no número de turistas que visitaram os Açores, de 2009 a 2024, as linhas seguem-se quase a par e passo desde a pandemia.Quando a análise se expande até aos finais dos anos 80, período crítico deste molusco, “os níveis atuais de descargas em lota são idênticos aos registados nos finais dos anos 80, quanto se registou o colapso do stock”, afirma.Aliás, os dados de 2024 apontam que foram descarregadas mais de 100 toneladas de lapas, quando nos finais da década de 80 esse valor nunca superou as 100 toneladas.E atualmente, a população de lapas é inferior à existente há 40 anos, pois como refere Gustavo Martins, segundo os dados mais recentes, o esforço de pesca aumentou muito.“Isto significa que para apanhar a mesma quantidade de lapas é necessário um esforço (tempo) muito maior, o que sugere que a abundância de lapas é muito menor hoje em dia.Aliás, de acordo com o Relatório técnico de atualização sobre o estado da população da lapa-brava (Patella aspera) nos Açores, de 2023, após o grande colapso registado nos anos 80, as populações de lapas não voltaram a recuperar”.Perante um cenário que traz recordações do que sucedeu no final dos anos 80, em que foi decretada uma proibição total da captura deste molusco para a sua recuperação, Gustavo M. Martins divide-se na necessidade de endurecer as medidas restritivas. Isto porque, no seu entender, o quadro legal existente “não é respeitado”, o que torna difícil perceber se são as adequadas ou se são necessárias mais medidas.“Regra geral, a estipulação de uma época de defeso, de um tamanho mínimo de apanha e de áreas de reserva onde não é permitida a apanha de lapas deveriam ser eficazes. No entanto, sabemos que na prática, nos Açores, estas medidas não são eficazes devido ao desrespeito generalizado pelas medidas de conservação e a consequente falta de fiscalização”.Apesar de já se ter conseguido fechar o ciclo de vida da lapa em cativeiro, esta não é uma medida viável para garantir o seu repovoamento, devido às características da espécie, nomeadamente, à sua suscetibilidade ao manuseio.Por isto, entende que a preservação deste recurso tão precioso só pode advir de uma fiscalização mais apertada: “A solução mais simples e fácil neste momento passaria por garantir uma eficaz aplicação das medidas de gestão existentes e, possivelmente, por uma fiscalização dos respetivos atores (apanhadores, distribuidores, restauração)”.