Negócios locais de portugueses em Macau fecham por falta de clientes
Vírus
7 de fev. de 2020, 10:47
— João Carreira/Lusa/AO Online
“Não tenho
palavras. Não sei, não sei. O impacto [é] de 100% para quase 0%”, disse à
Lusa Santos Pinto, dono de um restaurante que habita há trinta anos a
rua que mais turistas atrai na ilha da Taipa, “O Santos”.É
dos poucos restaurantes abertos. Meia dúzia deles, ligados à
restauração, já fechou portas. Na casa, habitualmente cheia, há um casal
sentado a uma mesa. Hoje, a contabilidade está feita: há mais
empregados do que refeições servidas.“Este
fim de semana ainda vou estar aberto. Na segunda-feira talvez vá fechar
porque (…) não vem aqui ninguém. O que estou aqui a fazer?”, pergunta,
perto de uma fotografia em que o próprio surge acompanhado do vocalista
dos Rolling Stones, um dos muitos famosos que já visitaram o
restaurante.“Noutros tempos, no tempo da
SARS [Síndrome Respiratória Aguda Grave, que matou 774 pessoas em todo o
mundo], a situação nunca foi tão grave, ou pelo menos tão explosiva”,
lembrou o benfiquista que fez da sua casa quase um santuário para os
adeptos das ‘águias’. “Tinha um grupo que
chamava os solteiros, divorciados e os mal casados. Vinham aqui sempre,
15, 20 pessoas. Neste momento não sei onde é que eles andam”, lamenta.À
semelhança de Santos Pinto, Manuela Salema ainda estava a recuperar do
impacto que os protestos na cidade vizinha de Hong Kong tiveram no seu
negócio de importação/exportação de produtos portugueses, quando a
epidemia apareceu para infetar toda a contabilidade. “Quando
nós finalmente começámos a ver alguma luz ao fundo do túnel,
esperançados novamente … isto foi a gota de água. Não há ninguém, não
temos clientes nenhuns”, sublinha a dona do “Cool-Thingz &
PortugueseSpot”, numa das ruas da velha Taipa que há pouco mais de duas
semanas fervilhava de movimento.É preciso
recordar-se do que aconteceu antes de 1999, “com as tríades e mortes nas
ruas” de Macau para tentar explicar por que razão evitaria dizer que
este é um momento trágico.Mas a antiga
funcionária pública que se aventurou na criação do próprio negócio,
familiar, a pensar também nas duas filhas, depressa admite “o momento
muito complicado na vida normal das pessoas, na vida dos empresários,
das lojas”.Há conservas de atum e de
sardinha, cerâmica, vinhos, compotas e têxteis impregnados de algum tipo
de ‘ADN português’ na loja, mas desapareceram os clientes.“Tudo
está vazio, enfim, é um impacto extraordinário, e eu não sei onde vamos
parar”, confessa, outrora habituada aos clientes chineses, de
Singapura, Taiwan, Japão e da Coreia do Sul, que desembarcavam na loja a
partir de Hong Kong, agora apenas perturbada, quanto muito, pelo ruído
de uma obra que decorre duas casas abaixo.A
loja, esclarece, “está semiaberta para aqueles que precisarem alguma
coisa”, para um café, uma sandes e até uma máscara, se a farmácia
estiver fechada. Já aconteceu antes: “Temos um sentido de cidadania”,
justifica.Uns metros mais à frente, o
restaurante “A Petisqueira” não mais abriu as portas após um período de
férias que coincide normalmente com o do Ano Novo Lunar.Eusébio
Tomé deveria abrir hoje meter a chave na porta e voltar a servir
refeições. A falta de clientes e algumas empregadas Filipinas que estão
no seu país impedidas de viajar para a China, numa proibição preventiva
das autoridades que também inclui Macau, estragou-lhe os planos.“Agora
não sei quando vou abrir. É esperar mais uma ou duas semanas, ver o que
acontece e esperar que as minhas empregadas consigam regressar a Macau
para trabalhar”, resume, conformado o português.Noutra
rua, outro negócio da restauração luso fechado. A cervejaria portuguesa
Portugália. Quase em frente, “A Toca” ainda tem uma tarja com a qual se
tentava seduzir os turistas e locais, com o pretexto de um festival
dedicado ao polvo e ao bacalhau, mas as luzes estão apagadas e a porta
não abre.Na terça-feira, dia em que o
chefe do Governo anunciou o fecho dos casinos, a população adivinhou que
as medidas do Governo começavam a ganhar, de facto, o estatudo de
excecionais.Poucas horas foram necessárias para o cenário de paralisação económica fosse óbvio. Uma
das primeiras medidas do Governo de Macau para reduzir o risco de
contágio foi a de enviar milhares de funcionários públicos para casa,
onde continuam a trabalhar, mas à distância.Macau,
onde existem atualmente nove pessoas infetadas com o coronavírus,
anunciou também o encerramento de espaços culturais e desportivos,
parques, jardins e espaços de lazer, bem como de todo o tipo de
negócios, o que praticamente está a paralisar a economia.Na
rua, carrinhas equipadas com altifalantes passam durante todo o dia uma
gravação que serve para incentivar as pessoas a permanecerem em casa
face ao momento crítico do surto que já matou 636 pessoas na China e
infetou mais de 31 mil.