“Nasci num farol, cresci num farol e fiz dos faróis uma parte inseparável da minha vida”

1 de nov. de 2026, 08:00 — Susete Rodrigues

Nasceu no Farol da Ribeirinha, na ilha do Faial, é filho de faroleiro e cresceu entre luzes de navegação, mudanças de ilha, caminhadas para a escola e uma ligação ao mar que nunca mais perdeu. Mário Riscado, faroleiro-chefe na secção dos Açores, tem memórias muito felizes da sua infância, “profundamente ligadas ao mar, aos faróis e à vida familiar”. Entre as recordações mais vivas da infância estão as caminhadas até à escola, os dias passados junto ao mar. Quando frequentava a primeira classe, no Faial, Mário Riscado percorria cerca de três quilómetros a pé para cada lado. A mãe, por vezes, ficava preocupada com a demora do regresso, mas “lá aparecia eu, no meu passo tranquilo, entretido a observar os bichinhos pelo caminho, a dar pontapés nas pedras e a descobrir tudo aquilo que despertava a curiosidade de uma criança (...)”. Outra memória muito especial “é a de ter visto televisão pela primeira vez. Teria cerca de quatro ou cinco anos e vivíamos ainda no Farol da Ribeirinha”. Conta-nos que o “mar foi outra presença constante e talvez uma das influências mais importantes da minha infância. Desde muito novo acompanhava o meu pai, ou outros faroleiros, nas idas à pesca, na apanha de algas e nas descidas aos pesqueiros (...)”. Guarda ainda, “com especial carinho os meses que passei na Ribeirinha do Pico, terra natal do meu pai, onde tive a oportunidade de conviver de perto com o meu avô paterno e com os meus tios. O meu avô marcou profundamente a minha formação, transmitindo-me valores humanos e ensinamentos que ainda hoje me acompanham e que procuro preservar”, disse.Depois de iniciar a escolaridade no Faial, frequentou a escola em São Miguel, regressou ao Pico e concluiu o 9.º ano na Graciosa, antes de seguir para o Faial, onde frequentou o ensino secundário. O desporto assumiu um papel importante na sua formação. Mário Riscado praticou atletismo, voleibol e futebol, representou o Pico em competições regionais e sagrou-se campeão açoriano de juniores de futebol pelo Atlético Futebol Clube, durante o período em que estudou na Horta. Foi também nessa altura que “conheci a Fátima, que viria a tornar-se minha mulher e mãe dos nossos filhos”. Concluído o 12.º ano, surgiu a oportunidade de lecionar Educação Física, porque existia falta de professores habilitados. Exerceu funções na ilha Terceira e no Faial, experiências que recorda como “enriquecedoras” e que lhe deram “autonomia, responsabilidade e um contacto muito gratificante com os jovens (...)”. Seguir a carreira de faroleiro não foi uma decisão imediata. Já casado, com casa adquirida e o primeiro filho, João André, o surgimento de um concurso, após cerca de 12 anos sem abertura de vagas, levou-o a ponderar uma mudança profissional. A decisão foi tomada em família, “entendemos que poderia proporcionar-nos maior estabilidade profissional e segurança para o futuro”, salientou, para frisar que “existia igualmente uma ligação afetiva muito forte. Os faróis nunca tinham deixado de fazer parte da minha vida e aquela oportunidade representava, de certa forma, um regresso às minhas origens”. Frequentou o curso elementar de faroleiros, na Direção de Faróis, em Paço de Arcos, durante nove meses. Foi também nessa fase que nasceu o interesse pela eletrónica, uma paixão que viria a acompanhar toda a sua carreira. Concluída a formação, foi colocado no Farol da Ponta da Barca, na ilha Graciosa, onde o pai tinha iniciado a sua carreira, “foi uma coincidência muito especial e um momento que guardo com particular carinho”. Esta foi uma colocação marcante também porque “nasceu o meu segundo filho, o Tiago Miguel, e terminei a minha carreira de futebolista, representando o Futebol Clube Marítimo”. Depois, foi para o Farol das Contendas, na Terceira, onde esteve dois anos; seguido do Farol da Ferraria, em São Miguel, onde exerceu funções de chefia durante três anos. Seguiu-se a Balizagem da Horta, no Faial, durante cinco anos. Uma comissão que ficou marcada por um acontecimento pessoal muito difícil, “o falecimento da minha mãe. Apesar da tristeza, guardo o conforto de ter podido estar próximo dela e acompanhá-la nos seus últimos momentos”.Em dezembro de 2012, foi promovido a faroleiro-chefe e, em julho de 2013, iniciou funções no Departamento Marítimo dos Açores, em São Miguel, como adjunto do chefe do departamento para a área do Assinalamento Marítimo. Diz-nos que ser faroleiro nos Açores é exercer uma profissão muito particular, marcada pela “nossa condição arquipelágica, pela proximidade ao mar e pelas características dos locais onde estão instaladas as ajudas à navegação”. Mas ser faroleiro nos Açores “significa também trabalhar em lugares de extraordinária beleza e com um enorme valor histórico”. Cada colocação “trouxe novos desafios e aprendizagens. Mais do que uma sucessão de locais de trabalho, foram diferentes etapas da minha vida profissional e familiar”. Relata-nos uma história que demonstra o quão desafiante é ser faroleiro: “Foi na Ponta da Barca, um farol que era frequentemente atingido por ondas de enorme dimensão, cuja água, empurrada pelo vento, chegava a ultrapassar a cúpula da torre. Vivíamos numa casa anexa e, nesses dias, as janelas voltadas para o mar pareciam a proa de um navio a enfrentar a ondulação (…). Para os meus filhos, ainda pequenos, aqueles momentos eram quase uma festa (...)”.Se outrora a profissão de faroleiro significava isolamento, hoje, os meios de comunicação e a melhoria das acessibilidades “reduziram algumas das dificuldades do passado”. No seu caso, o isolamento exigiu capacidade de adaptação, e refere que “a minha mulher, Fátima, teve um papel fundamental nesse percurso. Decidimos em conjunto que se dedicaria à família, assegurando a estabilidade do lar e acompanhando o crescimento e a educação dos nossos filhos. Foi uma opção que nos permitiu enfrentar com maior tranquilidade as sucessivas mudanças de residência e as exigências da profissão”, explicou para enaltecer que “considero que os nossos filhos tiveram o privilégio de crescer com a presença constante da mãe, que foi um verdadeiro pilar da nossa vida familiar”. A promoção a faroleiro-chefe trouxe-lhe uma nova “dimensão de responsabilidade (...)”. Ainda assim, considera que a “dimensão humana é a parte mais importante de qualquer função de chefia. Procuro exercer as minhas funções com proximidade, sentido de justiça e respeito pelo trabalho de cada profissional. Antes de ser faroleiro-chefe, sou faroleiro”.Entre as experiências vividas, há episódios que recorda com humor. Um deles aconteceu numa deslocação ao ilhéu das Formigas, para uma missão de manutenção ao farolim local: “A equipa era transportada numa embarcação pneumática e durante uma das manobras de aproximação às rochas, o militar que conduzia a embarcação atrapalhou-se e a embarcação subiu as pedras. Foi tudo tão rápido que, quando demos por nós, estávamos todos dentro de água. Felizmente, ninguém ficou ferido. Depois do susto, a equipa conseguiu reorganizar-se e prosseguir com os trabalhos”, contou. A recordação é acompanhada por um sorriso, mas também pela consciência de que a experiência e a serenidade são fundamentais quando surgem imprevistos.Questionado se trocava a profissão de faroleiro por outra, Mário Riscado responde prontamente: “Não. E respondo com a tranquilidade de quem conhece bem as exigências e os sacrifícios desta profissão. É verdade que a minha vida poderia ter seguido outro caminho.  (…) Mas os faróis sempre fizeram parte da minha vida. (…) Se pudesse voltar atrás e escolher novamente o meu caminho, não tenho dúvidas de que voltaria a ser faroleiro. Porque nasci num farol, cresci num farol e fiz dos faróis uma parte inseparável da minha vida”.