“Não tinha nenhum interesse em ser artista, mas queria aprender coisas sobre arte”
6 de set. de 2026, 08:00
— Susete Rodrigues
O artista plástico, Luís Herberto, nasceu em Angra do Heroísmo, ilha Terceira, em 1966. Filho de pai terceirense e mãe faialense, cresceu entre os Açores e África, para onde os pais se mudaram. Apesar de ter deixado os Açores aos 19 anos, as memórias da sua infância são muito relacionadas com a ilha: “Tenho muitas memórias”, afirma, acrescentando que “tenho recordações visuais muito divertidas, de um sito, que era o Pico da Bagacina que tinha umas cores incríveis de ferro, a Serra de Santa Bárbara, as praias, de acampar com os meus pais, os escuteiros - fui expulso dos escuteiros, era ‘terrível’ já naquela idade”, diz-nos entre risos. Refere ainda que “vivemos em África até à Revolução de 25 de Abril, e regressamos à Terceira. Depois, saímos da Terceira uns dias antes do terramoto, fomos, para Lisboa”. Já vamos contar um pouco da sua vida em Lisboa, mas antes, Luís Herberto fala da sua juventude na ilha Terceira. Fez o liceu na área de desporto porque “não queria estudar, era preguiçoso”, diz, sempre com boa disposição, acrescentando que teve uma banda de rock, entre os 14 e os 19 anos, “depois aprendemos mesmo a tocar seriamente”. Aos 19 anos começou a trabalhar na Base das Lajes, “estive lá três meses, ganhei algum dinheiro em relação à média e fui dar uma volta à Europa. Não disse nada a ninguém”. Foi precisamente nesse anos (1985), que “tomei a decisão que ia estudar algo ligado com artes, mas não queria ser pintor”, enfatiza. Assim, a seguir à viagem pela Europa e de regresso a Lisboa, Luís Herberto ingressou no ensino noturno da Escola Artística António Arroio, onde frequentou Artes Gráficas. Fez a tropa, terminou o liceu e “fui trabalhar para uma empresa gráfica, a Gráfica Monumental que teve o primeiro grande scanner de rolo”, recorda. Entretanto, “resolvi inscrever-me na universidade, mas sempre com a ideia de não querer ser artista, embora já conhecesse alguns artistas, ia às exposições, tinha trabalhado em serigrafia, tinha conhecido, na altura, o Júlio Pomar, foi um dos grandes mestres, tinha um trabalho muito rico no desenho, e ainda hoje tento associar-me ao traço expressivo dele”. Então, foi estudar restauro para o Instituto Politécnico de Tomar. Afirma que “há sempre uma ligação aos Açores porque, numa das primeiras aulas, ouço uma pronúncia que me parece familiar... era um professor da Terceira - era o Emanuel Félix, o poeta, ele tinha criado o Centro de Restauro de Angra e foi dar aulas de restauro para Tomar”. Emanuel Félix, tornou-se uma figura importante no seu percurso porque convidou-o a participar num projeto de restauro de pintura contemporânea e chegou a publicar trabalhos seus na revista ‘Atlântida’. Entretanto, ele morre nesse ano e “resolvi inscrever-me em Belas Artes, em Lisboa”.A partir daí, começou uma carreira artística e “nunca mais parei de trabalhar e de expor”. Um dos momentos decisivos aconteceu quando começou a frequentar uma praia na Parede. Conta-nos que “como açoriano, sempre tive muita ligação ao mar e a Parede era interessante”. Naquele lugar, encontrou pessoas interessantes, “vi uma colónia de velhos, depois aprendi que era uma zona para recuperação da tuberculose óssea, porque tem qualidades muito intrínsecas. Comecei a desenhá-las e a fotografá-las, estive no meio deles...”. O trabalho realizado naquele verão resultou na sua primeira exposição, no Museu do Barroco, em Setúbal.A pintura tornou-se uma atividade central na sua vida. Diz-nos que começou a trabalhar muito na pintura, “compulsivamente, comecei a fazer mais exposições”. Ao mesmo tempo, conciliou com o ensino, chegando a prolongar o curso de Belas-Artes por sete anos, porque “era preciso pagar as contas como toda a gente. Mas era lucrativo, mesmo com horários incompletos, eram uns tempos divertidos”.Questionado se existe algum projeto que lhe seja mais especial, Luís Herberto afirma que trabalha “muito a sério as temáticas. Analiso, estudo aquilo que quero fazer. Neste momento, estou há três anos num limbo de criatividade, uma espécie de ‘caldo morno’. Este projeto da paisagem é bom para equilibrar o ritmo”. A provocação é um elemento marcante da sua obra e reconhece que sempre teve interesse por temas controversos: “Trabalho sempre com a área da provocação, não me pergunte porquê...”, disse rindo. Uma das exposições que mais polémica provocou foi dedicada à zoofilia. O projeto surgiu no contexto dos seus estudos em Estética e Filosofia da Arte e acabou por estar na origem da sua tese de doutoramento. “O meu objetivo era chocar a sociedade. (…) Aquilo deu tanta polémica que deu origem à minha tese de doutoramento e isso permitiu-me fazer o trabalho teórico sobre a censura e, provar uma série de questões: que somos uma sociedade fechada e podemos ser cada vez mais fechados”. Luís Herberto rejeita a ideia de que “uma obra de pintura resulte de um processo rápido. Não. Temos que estudar, investigar, fazer uma série de aplicações, ensaiar”, explica. Essa metodologia está presente no projeto ‘Lugares da Paisagem’, que reúne trabalhos desenvolvidos em residências, nomeadamente em julho passado, onde realizou uma residência artística e uma exposição, na Universidade dos Açores, e deverá dar origem a uma publicação.Numa conversa muito descontraída, que teve lugar no Campo de São Francisco, em Ponta Delgada, Luís Herberto contou-nos também que já passou pelo jornalismo. “Foi um acaso”, disse, explicando que o “jornalismo apareceu naqueles célebres anos 80, quando estava na transição do ensino secundário para o ensino noturno. (…) Fiz um curso de imprensa regional, no Cenjor. O que queria mesmo era fotojornalismo. Ainda fui fotógrafo muito tempo também. Recebi uma bolsa para fazer o curso e como era muito bom aluno, convidaram-me para integrar a redação da Agência Lusa, em estágio. Depois estive no jornal ‘África Semanário’, que era formado por jornalistas que vinham de Moçambique. O meu trabalho era traduzir os telex da France Press sobre a Guerra da Libéria do nosso correspondente”. Esteve ainda, uns meses, no ‘Imigrante’, mas “já estava nas Belas Artes e desisti do trabalho”.O ensino tornou-se igualmente uma parte do seu percurso profissional. Atualmente, leciona na Universidade da Beira Interior, na Covilhã, sobretudo na área do Desenho Industrial. Para Luís Herberto, a relação com os estudantes é também uma forma de aprendizagem. “Não quero ser demagógico, mas aprendemos muito com os alunos. Comecei a dar aulas na Universidade em 2003, e com os alunos vou sempre renovando os processos. Por exemplo, o projeto ‘Uma Casa na Praia’, nasce de uma perspetiva de modo automático e está tudo ligado. Não podia ser professor sem ser pintor e vice-versa”. Não mantém muita ligação aos Açores, mas desde 2022 retomou algum contacto: “Saí dos Açores em 1985, com 19 anos. Voltei em 2022 para fazer a exposição no Museu da Angra, ‘O que faz falta... É malhar na malta’, que foi um acaso. De lá a esta parte tenho feito algumas coisas nos Açores, e fiz agora esta residência e exposição em São Miguel, ‘Lugares da Paisagem’. Mas continuo a trabalhar muito”.