“Não temos dado atenção ao preço a pagar” pela mineração em alto mar para baterias
1 de jul. de 2022, 16:50
— Lusa/AO online
“A
mineração em alto mar tornou-se uma atividade popular, […] estão a
tirar pedaços do fundo marinho para produzir baterias, para armazenar
energia. […] Nós precisamos disto, mas qual é o custo? Estamos apenas a
começar a compreender a magnitude do que estamos a fazer”, afirmou a
oceanógrafa norte-americana, que está em Lisboa por ocasião da
Conferência dos Oceanos das Nações Unidas, que termina hoje.Sylvia
Earle participava no evento paralelo promovido pela EDP e pelo Conselho
Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável (BCSD Portugal), no
Convento do Beato, em Lisboa, com o objetivo de debater a abordagem do
setor privado ao oceano.“Não
temos prestado atenção ao preço a pagar [pela exploração dos recursos
do oceano]. Há 50 anos talvez tivéssemos a desculpa de não saber o que
estava lá em baixo, mas não podemos dizer isso hoje”, sublinhou a
investigadora, que foi considerada a primeira Heroína pelo planeta, em
1998, pela revista Time.Sylvia
Earle vincou que a humanidade deve estar “grata” aos combustíveis
fósseis, porque permitiram o seu desenvolvimento, embora tenha falhado a
“calcular os custos” da sua exploração, advertindo para que não se
cometa os mesmos erros com a mineração em alto mar.Este
tipo de mineração do fundo do mar envolve a extração de minerais e
depósitos encontrados em profundidades de 200 metros ou mais, utilizados
na produção de baterias, entre outras aplicações.“Trata-se
dos nossos vizinhos [a vida marinha], eles têm uma história que precede
a nossa existência no planeta. […] Não é difícil para os seres humanos
darem um passo atrás e perceberem que não estamos sozinhos no planeta.
Precisamos deles todos”, vincou a bióloga marinha.Por
seu turno, o presidente executivo da EDP, Miguel Stilwell d’Andrade,
defendeu que é necessário aproveitar o potencial do oceano, para a
produção de energia ‘limpa’ e acessível, mas de uma forma que seja
“compatível com o ambiente”.A
EDP anunciou recentemente que vai investir cerca de 1.500 milhões de
euros em energia eólica no mar (‘offshore’), através da Ocean Winds, que
pode representar até 17 gigawatts (GW) de capacidade renovável no
oceano.Em
declarações aos jornalistas no final do evento de hoje, Stilwell
d’Andrade lembrou que se trata de um investimento até 2025 e que, em
Portugal, não estão previstos investimentos em eólicas ‘offshore’, pelo
que a verba se destina a projetos na Escócia, Bélgica, Estados Unidos,
Coreia do Sul ou França.Também
presente na sessão esteve o secretário de Estado do Mar, José Maria
Costa, que foi presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo entre
2009 e 2021, local onde a EDP está a desenvolver um projeto de energia
eólica ‘offshore’ flutuante, o WindFloat Atlantic.O
governante lembrou os compromissos assumidos pelo primeiro-ministro,
António Costa, no início da Conferência dos Oceanos, de proteger 30% das
áreas marinhas nacionais e atingir 10 gigawatts (GW) de energia
renovável oceânica, até 2030.“A
economia azul sustentável é a economia do conhecimento, é a economia da
ciência. [Temos de] convocar o melhor que temos da nossa ciência para
salvarmos o oceano”, afirmou o secretário de Estado.A
sessão contou ainda com a participação do presidente do BCSD Portugal,
António Pires de Lima, do administrador da Ocean Winds (‘joint venture’
formada pela EDP e pela Engie) Grzegorz Gorski, do vice-presidente do
Banco Europeu de Investimento (BEI), Ricardo Mourinho Félix, do diretor
geral do Fundo Mundial da Vida Selvagem (WWF International), Marco
Lambertino, e de Raquel Gaião Silva, da Faber Ocean.