Não se organiza a saúde em ilhas “reproduzindo modelos pensados para o continente”
Hoje 09:24
— Lucas Rebelo
Está a decorrer, em Ponta Delgada, o XIX Congresso de Endocrinologia e Nutrição dos Açores. O evento permite aos profissionais de saúde dos Açores, do Continente e do estrangeiro atualizar o seu conhecimento e partilhar experiências.A cerimónia de abertura contou com a presença de Carlos Cortes, bastonário da Ordem dos Médicos, que deixou claro que a realização de um “congresso desta natureza revela a dinâmica científica dos médicos da Região e a vontade de oferecer aos doentes uma medicina cada vez melhor”.Uma vez que a diabetes é um dos temas de destaque do evento, Carlos Cortes destacou a importância de se ter em atenção a realidade da doença nos Açores.“Esta região sabe, melhor do que muitas outras, o peso que a diabetes e a obesidade têm na vida das pessoas. Os inquéritos nacionais de saúde colocam os Açores entre as regiões com maior prevalência de ambas. Não são só doentes, são famílias, são postos de trabalho, são anos de vida”, referiu.“Não se organiza a saúde num território insular reproduzindo modelos pensados para o território continental contínuo. Ao planear uma consulta, um tratamento ou uma referenciação, é preciso contar com a deslocação do doente dentro de cada ilha, interilhas e para o continente, com a família que o acompanha e com a continuidade dos cuidados quando regressa a sua casa”, deixou claro o bastonário. Distância geográfica não é distância para a inovaçãoAs primeiras declarações da sessão de abertura do congresso foram de Isabel Sousa, diretora do Serviço de Endocrinologia e Nutrição do Hospital Divino Espírito Santo, que destacou o “significado especial e complexo” de organizar um congresso científico nos Açores, uma vez que a “condição arquipelágica” da Região convoca “desafios particulares no acesso a cuidados diferenciados e na formação contínua dos profissionais”.“A distância geográfica não deverá representar a distância ao reconhecimento, à inovação e à qualidade dos cuidados de saúde”, afirmou a dirigente durante as suas declarações. Programa do congressoTendo estes aspetos em vista, o programa científico do evento contempla a discussão de “temas da atualidade”, tais como “a diabetes, a obesidade, as doenças da tiróide e a saúde da mulher”.“Destaque também para as novas tecnologias, as abordagens terapêuticas emergentes e as perspetivas de diagnóstico precoce da diabetes tipo um”, destacou Isabel Sousa.O congresso inclui igualmente a realização do X Simpósio de Nutrição, que será dedicado à desnutrição, particularmente em contexto hospitalar oncológico, uma realidade “frequentemente subdiagnosticada e subvalorizada, apesar do seu impacto significativo no prognóstico dos doentes”.No passado dia 28, foi realizado um curso pré-congresso, dedicado à nova classificação da obesidade clínica, reforçando “a importância da formação prática e da aplicação dos conhecimentos científicos na atividade assistencial”.A importância do eventoJá Pedro Paes, diretor regional da saúde dos Açores, indicou que o congresso constitui uma referência no que diz respeito a aspetos como a “atualização científica, a partilha de conhecimento e a qualificação dos cuidados de saúde” da Região.“A diabetes, a obesidade e as restantes doenças metabólicas têm um impacto significativo na qualidade de vida dos cidadãos, frequentemente associada a outras doenças crónicas, a complicações evitáveis e uma maior necessidade de cuidados de saúde”, enumerou. Deste modo, o dirigente considera que a resposta dos profissionais de saúde não se deve limitar ao “tratamento da doença isolada”, sendo necessário “reforçar a prevenção, identificar precocemente os fatores de risco, promover hábitos de vida saudáveis e assegurar um acompanhamento de continuidade continuado capaz de prevenir complicações e melhorar os resultados clínicos”.“A prevenção e o controle de doenças não transmissíveis constituem dimensões fundamentais deste compromisso”, reforçou.“A alimentação saudável, a atividade física, a prevenção da obesidade e a identificação precoce do risco metabólico devem ser prioridades transversais envolvendo os serviços de saúde, as escolas, as famílias, as comunidades e os restantes setores da sociedade”, complementou.Tendo em conta estes aspetos, Pedro Pais considera que a literacia em saúde é um “pilar essencial”, uma vez que “um cidadão mais informado e capacitado participa mais ativamente nas decisões relativas à sua saúde”.O mesmo destaca ainda outras “prioridades incontornáveis”, tais como a integração dos cuidados, uma vez que o acompanhamento “das pessoas com diabetes, obesidade e outras doenças endócrinas e metabólicas exige articulação efetiva entre os cuidados de saúde primários e hospitalares”.Para o diretor regional, o objetivo é claro: “evoluir para um Serviço Regional de Saúde que não se limite a responder à doença, mas que seja cada vez mais capaz de antecipar riscos, acompanhar percursos e promover melhores resultados para a população”.Segundo Pedro Paes, o valor do congresso reside na oportunidade de “questionar práticas, discutir novas abordagens, partilhar experiências e fortalecer a colaboração entre profissionais e instituições”.