1 de nov. de 2019, 10:00
— Sónia Bettencourt/AO Online
Bola
no pé e sopro no trompete. Uma rotina de paralelos no desporto e na
música. Portanto se não for no campo, será nos palcos que, por
norma, encontramos Roberto Rosa. Ora
sensível a José Mourinho, Jorge Jesus e Jurgen Klopp, ora a Wynton
Marsalis, Cris Botti e Chet Baker, o jovem nascido no Canadá, filho
de pais da Ribeira Seca, na ilha de São Jorge, depressa aprendeu que
tudo na vida resulta de trabalho, esforço e dedicação, alguma
sorte e um sem número de alegrias e desilusões próprias de quem se
mete em projetos seja de que área for. Por outras palavras, é como
quem diz “a sorte dá muito trabalho” ou, ainda, “sê todo em
cada coisa”.
Será
uma das formas de tentar chegar à perfeição, diz o
músico/treinador, fazendo lembrar as palavras do seu avô José
Garcia da Rosa, uma das referências na sua educação. Aliás, se há
coisa que Roberto Rosa não se esquece é de quem lhe deu a mão. E o
pé, se quisermos fazer uma analogia ao futebol.
Assim,
por um lado, nomes como Paulo Borges, Antero Ávila, Anabela
Albuquerque, Antonella Barletta, Sara Miguel e Tomás Lamas Pimentel
surgem vezes sem conta durante a nossa conversa, por outro, Nicolau
Carvalho e Pedro Lima. Escusado será dizer que se tratam de músicos,
professores e técnicos desportivos; figuras de proa no percurso de
um jovem que deu os seus primeiros passos na Sociedade Filarmónica
União Popular da Ribeira Seca, uma das bandas de metais mais antigas
dos Açores, ainda em atividade, era então Porfírio Pacheco o seu
maestro, a quem, hoje, lhe reconhece uma visão à frente do seu
tempo.
“Não
gostava de ir para a filarmónica. Fui obrigado pelo meu pai.
Chorava. Sentia medo do que era diferente e, na altura, a música era
[um lugar] mesmo diferente”, confessa Roberto Rosa, contando que,
mais tarde, aos 12 anos, escolheu o seu instrumento por influência
de um primo que tocava trompete na mesma filarmónica.
“Depois
de tocar com um emprestado, chegou o meu trompete, novo, do Canadá.
Os meus olhos brilharam e aí deu-se um 'click' e um sentido de
responsabilidade acrescido pelo esforço dos meus pais nesse
investimento financeiro”, recorda.
Uma
época determinante que integrou inclusive uma viagem da filarmónica
aos Estados Unidos da América, em finais dos anos 90, num misto de
aventura e “passagem de nível”, fomentando o gosto e a
importância da educação musical; enaltecendo o papel do seu
próprio pai também ele ligado à música e às tradições locais
jorgenses.
Do
Jazz ao OrfeãoAos
16 anos conheceu o terceirense Paulo Borges, músico e professor de
trompete, agora a lecionar na Escola Secundária Tomás de Borba, em
Angra do Heroísmo, que considera o seu melhor amigo. Foi da Terceira
a São Jorge dar uma formação e então começou uma nova vida para
Roberto Rosa que ainda antes de fixar residência na ilha de 'Jesus
Cristo', passou pelo Faial para frequentar o Conservatório Regional
da Horta.
Do
seu currículo e dos projetos musicais em que tem vindo a inscrever o
seu nome, é caso para dizer que “o primeiro dia do resto da tua
vida” começou na “terra dos bravos”, aos 21 anos, ou seja os
convites e as oportunidades surgiram-lhe como se fosse obra do
destino, traçada lá atrás, perdida nas Fajãs, quando em criança,
por receio, evitava ir aos ensaios da centenária banda filarmónica
ligada ao reconhecido compositor e musicólogo Francisco de Lacerda.
Roberto
Rosa fala com carinho da extinta Orquestra Regional Lira Açoriana e
da participação na Federação de Bandas Filarmónicas dos Açores,
e mostra orgulho e paixão pela Orquestra Angrajazz, um género de
“primeiro amor” que teve como intermédio um Curso Livre de Jazz
orientado pelos músicos Claus Nymark e Pedro Moreira. “Na
altura, a minha cabeça começa a virar-se para o jazz. Embora oiça
todos os géneros musicais, o jazz é a minha primeira opção”,
destaca.
E
entre o jazz que se tornou pulmão e as contínuas formações,
contrariando a máxima que a tirania estimula a criação, o músico
luso-canadiano agarrou nas suas ferramentas, reforçou laços com
quem faz das partituras o seu 'modus vivendi', e impulsionou a
criação da Orquestra de Sopros da Ilha Terceira – OSIT, em 2012,
com os músicos Paulo Borges e Antero Ávila.
Deixou
fluir a música e abraçou ainda os projetos Lava Brass Quintet, Sara
Miguel Quarteto, Bruma Project (cofundador) e, em 2018 o Orfeão da
Praia da Vitória, este último na qualidade de maestro, uma função
que demorou a aceitar. “Devemos
sair da nossa zona de conforto para crescer”, considera.
Fairplay Recuando
no tempo, até São Jorge, Roberto Rosa confessa que sempre jogou
futebol e que desde cedo percebeu o quão “desajeitado” era para
dar um pontapé numa bola. Porém o gosto estava lá no campo onde ia
com o seu pai ver as partidas. Se,
na realidade, o desempenho parecia difícil como jogador, no virtual
o cenário aliciava o lado do treinador – os videojogos passaram a
fazer parte dos seus tempos livres, sem expectativas, longe de
imaginar que no futuro iria chegar a treinador de futebol de formação
da Escola Academia Sporting de Angra do Heroísmo (EASAH).
Entretanto
apostou nos cursos de treinador de futebol, passou pelo Sport Clube
Praiense, e épocas depois foi convidado pelo Sport Clube Lusitânia
que tem uma parceria com a EASAH. Hoje, aos 34 anos, treina sub 5 e
sub 11. “Ponderei
muito. É uma das escolas de futebol de formação de referência a
nível mundial e com uma metodologia de treino que faz a diferença.
Basta ver jogadores como Cristiano, Nani, Quaresma, William
Carvalho... Foram e são também uma referência”, salienta o
treinador que defende a importância das crianças viverem o
'desporto-rei' de forma “divertida e apaixonada”, sem pressão
para serem “bons” como o jogador A ou B, pois, esclarece,
sobretudo para os pais, “o resultado nesta fase não é o mais
importante”.
Neste
sentido, questionado acerca das conquistas que procura um treinador
de futebol de formação, o 'mister' considera acima de tudo “ter a
consciência de que não sabemos se vão ser jogadores de futebol,
mas sim que vão ser cidadãos”. “Procuro
ter um papel de formador antes de ser treinador. Não vou preparar
uma equipa para perder jogos, mas os valores têm de estar em
primeiro lugar e, então, depois, vem a parte técnica. Claro, o meu
papel passa por fazer com que eles evoluam tecnicamente para
prosperarem enquanto jogadores”, explica a propósito, também, da
relevância do 'fairplay'.
Com
tantos projetos, diz que organização e planeamento são
palavras-chave. São todos trabalhos diferentes, mas o músico/
treinador é perentório quando questionado sobre o ponto que lhes
será comum: a partilha. “A partilha tem de estar presente em cada
projeto para que as coisas possam funcionar entre todos os que dele
fazem parte”, defende o também formador de Expressão e Educação
Musical no ATL 'Olhar Poente', no concelho da Praia da Vitória, e
indivíduo com um papel social ativo que preza e defende.
“Procuro
que os meus alunos oiçam música de qualidade e que os meus
jogadores sejam melhores pessoas no futuro. Fazer com que tenham
espírito crítico e não aceitem tudo sem refletir”, concretiza
Roberto Rosa.