Na Mata do Pópulo as crianças reaprendem a brincar ao ar livre
9 de out. de 2023, 08:31
— Nuno Martins Neves
“Deixai as crianças em liberdade; deixai-as correr lá
fora sob a chuva, tirar sapatos e pular nas poças d’água; pisar,
descalças, a relva húmida dos prados; que elas possam descansar
tranquilamente sob a sombra acolhedora de uma árvore, gritar e rir à
tépida luz de um Sol nascente que acorda todos os seres vivos que têm
seu dia dividido entre vigília e sono”. Este excerto do livro “A
Descoberta da Criança” da educadora, médica e pedagoga italiana Maria
Montessori é quase um cartão de apresentação do projeto de Telma
Miragaia e do seu marido Marco Martins. A Mata do Pópulo, um terreno
privado de 2000 metros quadrados na freguesia do Livramento, em Ponta
Delgada, tem um objetivo ambicioso: ensinar as crianças a brincar ao ar
livre, em contacto com a natureza.O sonho, tornado realidade a 16 de
setembro, veio junto com o nascimento do Xavi, o filho do casal.
“Queríamos que ele tivesse uma infância feliz como nós tivemos. Longe
vão os tempos em que as ruas se enchiam de crianças para brincar e jogar
com outras crianças livremente. O divertimento só era interrompido à
noite com o grito dos pais ‘Vamos jantar!’, como acontecia na minha
pequena aldeia de Donfins no Jarmelo, na Guarda”, conta Telma Miragaia.Num
mundo onde os ecrãs digitais e o cimento já substituíram o contacto com
a natureza e a rua, a Mata do Pópulo surge quase como um oásis. Para
o casal, os 2000 metros quadrados são um espaço onde as crianças podem
brincar livremente: “Respeitando todo o entorno da mata e a sua
biodiversidade, construímos pequenos ambientes onde as crianças podem
explorar e aprender num contexto mais informal. Ao brincar na nossa
cozinha de lama ou na caixa de areia, correr pela Mata ou até a
descansar na rede, as crianças conectam-se com a natureza, de forma
extremamente natural”.Telma Miragaia aponta a
“perturbação/transtorno de défice de natureza” que o autor
norte-americano Richard Louv refere no seu livro “A última criança na
natureza”, que se reflete em problemas de saúde como o sedentarismo,
obesidade, doenças mentais, hiperatividade e doenças crónicas, como
hipertensão arterial e diabetes tipo 2, em idades cada vez mais jovens.“As
crianças que estão a nascer agora pertencem à primeira geração de
filhos cujos pais já não brincaram na rua, pelo que é ainda mais
difícil, para estes, reconhecerem a importância do brincar na natureza
quando eles próprios já não o fizeram. Também é a primeira geração que
se estima que vá viver menos anos que os seus pais, caso não mudemos o
atual estilo de vida das nossas crianças. Se repararmos bem, as crianças
vão de carro para a escola, ficam entre as quatro paredes da sala quase
todo o dia, voltam de carro para casa ou para as atividades
extracurriculares”, acrescenta.Para o casal responsável pelo
projeto, num mundo digital, torna-se urgente haver espaços onde as
crianças possam tocar com as mãos na terra. Ambos vêm com preocupação a
crescente utilização dos manuais digitais nas escolas, bem como a falta
de natureza e o excesso de telemóveis existente nos recreios. “A nível
de saúde, um estudo realizado na Finlândia em que trocaram o cimento dos
recreios das escolas e substituíram por relvado e terra melhorou o
sistema imunológico das crianças e saúde mental em poucos meses.
Precisamos muito de debater estes assuntos de forma transversal,
realista e fundamentada”. Da roda dos troncos à cozinha de lamaDepois
de “ensaiar” com famílias amigas, Telma Miragaia e Marco Martins
abriram portas a 16 de setembro com a presença da consultora pedagógica
Ana de Mesquita Guimarães, que dinamizou as primeiras sessões de
brincar, e dirigiu o workshop “Se a Natureza inventasse a escola”, que
contou com a presença de pais, educadores e professores interessados.As
sessões acontecem ao fim de semana, para crianças com idades entre os 3
e os 5 anos e os 6 e 8 anos, havendo ainda uma sessão em inglês para
crianças estrangeiras dos 3 aos 8. É necessário fazer inscrição prévia.Antes
de qualquer sessão, é feita uma avaliação das condições meteorológicas,
por questões de segurança. Cada sessão tem o apoio de monitores e a
duração de 2 horas: começam na roda dos troncos, onde todos se
apresentam, seguindo-se meia hora de uma atividade orientada, ficando as
crianças com o resto do tempo para brincarem livremente nos baloiços
tradicionais, cabanas, cozinha de lama, caixa de areia ou simplesmente
desfrutarem da mata.E apesar do clima açoriano, o casal quer fazer vingar o provérbio nórdico: “não existe mau tempo, apenas roupa inadequada”.