Museu de Angra do Heroísmo acolhe 60 obras do pintor luso-canadiano Miguel Rebelo doadas pelos herdeiros
Hoje 16:43
— Lusa/AO Online
“A sua obra é uma obra dura,
martirizada, é uma obra que expressa um sentimento de vivência difícil
que ele teve durante o seu período de vida, mas é uma obra que tem uma
atualidade muito grande e de excecional qualidade”, afirmou, em
declarações à Lusa, o diretor do Museu de Angra do Heroísmo, Jorge
Paulus Bruno.Neto do pintor Domingos
Rebelo, natural da ilha de São Miguel, e filho do arquiteto João Correia
Rebelo, Miguel Rebelo, que morreu em 2016, com 58 anos, foi um dos
artistas açorianos da diáspora com maior reconhecimento.Com
uma obra “marcadamente modernista”, o arquiteto João Correia Rebelo
“não foi compreendido no seu tempo” e acabou por emigrar para Montreal,
no Canadá, quando Miguel Rebelo tinha apenas 12 anos.Foi
entre Portugal e o Canadá que o pintor desenvolveu “uma linguagem
plástica de caráter muito pessoal, marcada pela experimentação, pela
intensidade ‘matérica’ e por uma pintura gestual onde a cor, a textura e
a memória ocupam um lugar central”, refere uma nota da Direção Regional
da Cultura dos Açores sobre a exposição no Museu de Angra do Heroísmo.“A
sua obra afasta-se de fórmulas convencionais e explora uma expressão
livre, frequentemente associada ao abstracionismo lírico e ao
expressionismo contemporâneo. Críticos e curadores destacam na sua
produção a permanente tensão entre a tradição familiar e a procura de
uma linguagem autónoma e inovadora”, acrescenta.Referenciado
nos arquivos da National Gallery of Canada, Miguel Rebelo era
representado em Portugal pela Galeria 111, uma das mais importantes de
arte contemporânea do país (com artistas como Paula Rego e Lourdes
Castro, entre muitos outros), e a sua pintura está integrada em coleções
públicas e privadas.Na exposição “Belo
Insubmisso”, o Museu de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, expõe cerca
de 40 obras de Miguel Rebelo, de um total de 60 doadas pelos herdeiros,
após a morte do pintor.“Foi uma doação
muitíssimo importante, que o Museu de Angra, com muito orgulho,
acolheu", porque, sendo um museu açoriano, "o conjunto desta obra vem
enriquecer todo o património da arte contemporânea” dos Açores,
salientou Jorge Paulus Bruno.A ligação de
Miguel Rebelo à ilha Terceira decorre de duas exposições, em 2005 e
2007, na Carmina Galeria, do artista plástico terceirense Dimas Simas
Lopes.Quando a galeria de arte
contemporânea foi doada ao Museu de Angra do Heroísmo, a instituição
tentou adquirir cerca de uma dezena de obras de Miguel Rebelo que lá se
encontravam e o filho Rapahël doou-as.“Há
dois anos, veio aqui, conheceu o museu, conheceu a Carmina Galaria e
ficou convencido de que o destino das obras que estavam em Lisboa
deveria ser o Museu de Angra”, revelou Jorge Paulus Bruno.“É
um conjunto de 60 obras notáveis. Deixou algumas à Fundação Calouste
Gulbenkian, também, o que engrandece esta doação”, acrescentou.O
diretor do Museu de Angra do Heroísmo frisou que Miguel Rebelo é “um
nome grande da arte contemporânea, não só portuguesa, mas acima de tudo
internacional”.O pintor
luso-canadiano utilizava uma “linguagem única” para refletir os seus
sentimentos nas suas obras. Chegava mesmo a utilizar uma lixadora e a
rasgar as suas telas.“É uma obra que
expressa uma angústia do criador. Nem todas as obras de arte expressam
sentimentos confortáveis”, ressalvou Jorge Paulus Bruno.A ideia é corroborada pelo filho do pintor, Rapahël Rebelo, num texto emotivo que escreveu para a inauguração da exposição.“Embora
o seu trabalho seja fruto de uma exigente pesquisa intelectual, as suas
emoções transpiram através da pele das suas telas. As cores
correspondem à sua alegria de viver e aos períodos felizes da sua
existência, o que, para o meu pai, significava quase sempre períodos de
amor. Já os cinzentos, os negros e os brancos são o reflexo de um homem
que foi entrando progressivamente em depressão e que lutou, durante os
últimos dez anos da sua vida — demasiado breve, apenas 58 anos — contra
episódios psicóticos e contra as consequências devastadoras de vinte
anos de terapêutica antirretroviral para combater o VIH”, adiantou.Rapahël Rebelo destacou a “enorme coragem” do pai para “viver à margem”, na escola, na carreira e na vida política e amorosa.“É
difícil existir numa sociedade que parece não ter previsto um lugar
para nós. É, por isso, a coragem que, antes de mais, retenho da vida do
meu pai. Manteve-se de pé contra ventos e marés e entregou-se
inteiramente à pintura, apesar dos juízos e das incompreensões que o seu
modo de vida inevitavelmente suscitava”, sublinhou.