Municípios querem mais investimento público para ajudar economia local
Covid-19
7 de mai. de 2020, 17:14
— Lusa/AO Online
Em
declarações à Lusa, o presidente da Associação Nacional de Municípios
Portugueses (ANMP), Manuel Machado, realçou que as câmaras têm investido
meios ainda não quantificáveis no combate de primeira linha à pandemia,
mas estão já preocupadas com as consequências no futuro próximo, que se
prevê de “desemprego, salários que correm o risco de não serem pagos,
um conjunto de problemas que podem ser minorados ou resolvidos através
de uma maior proximidade nas medidas de natureza económica de apoio às
empresas e também às pessoas”.
A
retoma após a pandemia, de acordo com os municípios, passa “também pelo
investimento público municipal ou autárquico”, realçando que, com a
redução, dos impostos cobrados, entre outras coisas, as próprias câmaras
poderão ter rendimentos insuficientes para enfrentar uma nova crise.
Por
isso, agora que a fase do desconfinamento se iniciou, enviaram ao
primeiro-ministro um documento no qual se mostram disponíveis para um
diálogo para “uma resposta articulada à crise financeira, social e
económica, sem descurar a resposta à pandemia”, que permita acelerar
investimento a nível local.
Machado
defendeu ser necessário “acelerar os investimentos públicos municipais
com alguns procedimentos que devem ser simplificados a nível da
contratação pública e, por outro lado, o reforço das dotações dos fundos
europeus para operações que já se encontram aprovadas ou em vias de
aprovação”.
O
autarca salientou que, mesmo para quem já tem os planos aprovados e
contratados na generalidade, com dotações financeiras alocadas com
fundos europeus, “cada operação leva algum tempo” por estar “sujeita a
um conjunto de procedimentos complexos no âmbito do Código dos Contratos
Públicos”, que podem “atrasar um ou dois anos a concretização de uma
obra ou uma operação no âmbito desse plano estratégico”.
“Se
nós conseguirmos aperfeiçoamento legislativo para, com toda a
responsabilidade, tomarmos as decisões, nós conseguimos acelerar o
investimento público a nível autárquico. Ora, esta é uma forma de
colocar dinheiro na economia, de estimular as empresas de construção
civil, de equipamentos, as fábricas. Tudo isso ajuda, e de um modo
generalizado, todo o território nacional”, defendeu.
Manuel
Machado defendeu ainda que estas componentes devem ser consideradas no
âmbito da revisão do Orçamento de Estado e na preparação do Orçamento do
Estado para o próximo ano.
Entre
outras medidas que os municípios querem discutir com o Governo estão
também a contratação de empréstimos e a adoção de “um fundo de
solidariedade para todos os países membros da União Europeia”.
“De
outro modo estará em descrédito também a União Europeia, que pode
correr riscos que serão evitáveis se houver esta consciência [de que o]
futuro comum é comum a todos os países da Europa. Mesmo [para] aqueles
que pensam que são ricos, a situação de pandemia veio evidenciar que há
aqui uma fragilidade muito relevante muito importante”, salientou.
O
presidente da ANMP considerou que esta “fragilidade muito relevante”
decorre de, nas últimas décadas, “ter havido uma centrifugação da
capacidade produtiva do espaço europeu para outros territórios”, com uma
motivação com base “no lucro e na exploração de mão-de-obra barata”.
“Ora
isso deve merecer uma reflexão de todos os responsáveis políticos e não
só, mesmo dos cidadãos. As dificuldades com que nos deparamos nestes
dias, que foram intensíssimos, não podem deixar de nos preocupar, porque
as coisas mais elementares, quando foram necessárias, não estavam
armazenadas em Portugal ou sequer na Europa. Estavam algures no mundo a
ser produzidas e a capacidade produtiva da Europa foi evidente que não é
suficiente, não está capacitada e tem de ser retomada essa capacidade
de produção de bens no espaço europeu, incluindo em Portugal”,
considerou.
O
autarca defendeu que “o reforço da capacidade produtiva em Portugal, no
espaço europeu, é essencial para reduzir a dependência (…) do avião, do
voo, do avião de carga que transporta zaragatoas, ou as máscaras ou
outros bens”.
“Não
o dizemos neste documento, mas preocupa-nos também o risco que se corre
de, perante respostas eficazes e atempadas, a pandemia passar para além
do vírus, que já é altamente preocupante, para o vírus da política e da
democracia. E isto há que evitar mesmo. E nós podemos dar esse
contributo”, salientou ainda.