Municípios pediram meios para impor limpeza de terrenos mas não tiveram resposta
Incêndios
22 de ago. de 2025, 12:01
— Lusa/AO Online
Em
entrevista à RTP, após a conferência de imprensa do Conselho de
Ministros, Luísa Salgueiro (PS) realçou que a ANMP enviou
em outubro ao Governo um documento com propostas para a Proteção Civil e
a gestão integrada de fogos rurais e florestais “que infelizmente não
mereceram sequer uma resposta ou uma análise”.Entre
as medidas propostas, a autarca destacou a revisão da carta de
perigosidade, porque “as cartas de perigosidade não são reais, não
correspondem à situação concreta das várias parcelas do território”, e
assegurar “que seja possível uma resposta pronta da limpeza dos
terrenos”.“As pessoas, porventura, não têm
conhecimento que um presidente de Câmara, se tiver conhecimento de um
terreno que esteja em más condições de limpeza e que ofereça perigo, não
tem condições para avançar para essa limpeza rapidamente. Tem de seguir
um conjunto de procedimentos”, disse.Salgueiro salientou que cumprir estes procedimentos pode demorar demasiado tempo.“A
autarquia identifica a necessidade de limpeza do terreno, notifica o
proprietário para proceder à limpeza do terreno, tem naturalmente de
cumprir os prazos do Código de Procedimento Administrativo que requerem
um conjunto de etapas, a pessoa pode-se opor à realização dessa limpeza
e, caso pretenda realizá-la, realiza-a no tempo que considera possível. E
a autarquia só pode substituir-se ao proprietário passados meses depois
de ter iniciado o procedimento”, explicou.A
autarca destacou ainda que o cumprimento destes passos também “depende
da capacidade da autarquia a vários níveis, seja técnica, seja
financeira”, porque “não se pode esperar que as autarquias, sejam quais
forem, consigam responder com os escassos meios que têm a este
problema”.“Há autarquias que não têm
condições financeiras para realizar estes trabalhos porque não têm
nenhum financiamento, portanto era importante que houvesse a dotação dos
municípios, dos recursos humanos e financeiros”, sobretudo nos
municípios em regiões de maior desertificação.Luísa
Salgueiro criticou ainda o centralismo do país, em que “a
descentralização não avança porque não se quer que avance, a
regionalização está congelada” e há “um país a várias velocidades”, sem
“capacidade de decisão imediata”, dependente de autoridades “que,
estando em Lisboa, acabam por ser sempre aqueles que tomam as decisões
sobre todas estas parcelas do território”, enquanto “o país assiste a
isto”.“Não é só com este Governo. É com
sucessivos Governos. Isto não se trata de uma questão partidária,
trata-se de interesse público, do interesse nacional, do interesse das
pessoas, da defesa do território, que está em causa”, afirmou a autarca
socialista.Salgueiro considerou que “é
evidente” e “inquestionável” que houve problemas e descoordenação no
combate aos incêndios dos últimos dias, e afirmou que a culpa é
“multinível, desde o nível nacional ao nível regional”.Salientou
também que não teve tempo ainda para analisar as propostas do Governo,
apresentadas na quinta-feira, mas, se forem “uma resposta àquilo que há
muito está identificado e que tarda em ser feito, vem no bom sentido”.“É tarde, mas é melhor que se faça agora (…) o país não pode esperar mais”, considerou.Além
da revisão das cartas de perigosidade e de mais meios legais, técnicos,
humanos e financeiros para fazer cumprir com maior rapidez a limpeza de
terrenos pelos privados, no documento com propostas enviado pela ANMP
ao Governo, a que a Lusa teve acesso, os municípios propõe a
simplificação das regras de funcionamento do sistema de incêndios,
“diminuindo a dispersão e a complexidade dos instrumentos de planeamento
e de programação”.Os municípios pretendem
que o Estado dote as Câmaras “de instrumentos legais e administrativos
para assumirem a posse dos terrenos privados com matos e/ou floresta mal
estruturada onde haja risco de incêndio, para tomarem medidas
operacionais e de diminuição do risco, no caso de incumprimento por
parte dos privados”.Defende também meios
para prosseguir no cadastro das propriedades e o aumento da capacidade
de fiscalização do Instituto de conservação da Natureza e da Floresta
(ICNF) e que a GNR/SEPNA.“Reforçar a
capacidade de vigilância e dissuasão através da presença da autoridade
na floresta, chamando também as Forças Armadas a este desiderato,
nomeadamente o Exército e a Força Aérea para ações de reconhecimento em
períodos de risco e de combate aos incêndios, com mecanismos de
acionamento que permitam uma ação em tempo próximo ao das ignições, em
áreas em que os meios operacionais terrestres dos bombeiros sejam
marcadamente insuficientes”, defendeu.No
extenso documento, defendem ainda a reestruturação da cadeia integrada
de comando nas operações de combate, com definição objetiva do papel dos
responsáveis, maior articulação entre as autarquias e as associações
humanitárias e as corporações de bombeiros e a revisão das condições de
trabalho dos bombeiros sapadores e em regime de voluntariado, pedindo ao
Governo que “desencadeie o processo legislativo tendente à aprovação de
um novo Estatuto Profissional dos Bombeiros Sapadores”.