Município da Praia da Vitória recorre à Universidade dos Açores para combater "desinformação"
30 de mai. de 2019, 09:09
— Lusa/AO Online
“Vai
dar mais tranquilidade e vai dar uma resposta efetiva, bastante clara,
com todo o rigor técnico e científico sobre as matérias que a Praia da
Vitória tem, neste momento, sobre a mesa e, com isto, combater toda a
desinformação e todos os alarmismos”, afirmou o presidente do município,
Tibério Dinis, na cerimónia de assinatura do acordo.Em
causa está a contaminação de solos e aquíferos na Praia da Vitória, na
ilha Terceira, provocada pela Força Aérea norte-americana na base das
Lajes, identificada em 2005 pelos próprios norte-americanos e
confirmada, em 2009, pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil
(LNEC), que monitoriza desde 2012 o processo de descontaminação.O
município da Praia da Vitória tem acusado várias personalidades e
órgãos de comunicação social de transmitirem informação não fundamentada
sobre esta matéria, alegando que isso poderá ter consequências na
economia do concelho, nomeadamente no turismo.Em
setembro de 2018, a autarquia anunciou que iria avançar com um processo
cível contra o investigador da Universidade dos Açores Félix Rodrigues,
com doutoramento em Ciências do Ambiente, ramo poluição, que tem
alertado para a contaminação dos solos na Terceira.Segundo
Tibério Dinis, com este acordo o município pretende ter uma “entidade
independente, credível e de enorme prestígio a nível nacional e
internacional como principal consultora” em todas as matérias relativas à
pegada ambiental da base das Lajes.“A
verdade é que este assunto, pelo mediatismo que comporta, pelo facto de
ter uma grande potência mundial associada, pelo facto de ter uma base
militar associada, pelo facto de despertar em alguns alguma curiosidade,
tem permitido profícuas declarações que, de alguma forma, não têm tido
da componente técnica e científica o devido acolhimento”, frisou. O
reitor da Universidade dos Açores, João Luís Gaspar, adiantou, em
declarações aos jornalistas, à margem da cerimónia, que o acordo não
prevê a realização de novos estudos, alegando que os que existem foram
feitos por “técnicos de reconhecida competência”.“O
que a universidade vem fazer é ajudar a câmara municipal a interpretar,
de um modo integrado, toda a informação que é produzida – e ela é muito
diversa – e ajudar fundamentalmente a câmara municipal a comunicar com
fundamento técnico e científico aos cidadãos, não só do concelho, mas da
ilha e dos Açores”, avançou.Além da
análise dos documentos produzidos e do aconselhamento da autarquia na
divulgação dos resultados, a universidade vai “apresentar propostas para
a avaliação e mitigação de eventuais riscos para a saúde pública”
relacionados com a contaminação.O trabalho
será desenvolvido por uma equipa multidisciplinar, com investigadores
do Instituto de Investigação em Vulcanologia e Avaliação de Riscos e do
Instituto de Investigação e Tecnologias Agrárias e do Ambiente, liderada
pelo professor José Vergílio Cruz, estando já firmadas parcerias com
outras “entidades nacionais e internacionais”.Questionado
sobre a desinformação que o município alega existir sobre a
contaminação de solos e aquíferos, João Luís Gaspar disse que “tem
havido muita discussão”, por vezes até “estéril”.“Não
está aqui em causa a existência do problema, não está aqui em causa a
necessidade de se procurarem soluções eficientes e eficazes para
minimizar o impacto deste problema, o que está aqui em causa
fundamentalmente é ter uma comunicação clara, transparente, que permita à
população reagir, responder em conformidade”, salientou.Confrontado
com o facto de uma das vozes críticas da forma como está a decorrer o
processo de descontaminação ser um investigador da Universidade dos
Açores, o reitor sublinhou que a academia “nunca foi envolvida sob o
ponto de vista institucional”. “Não é para
a Universidade dos Açores uma boa medida ver alguns dos seus
investigadores, docentes, técnicos, com toda a credibilidade que lhes é
reconhecida, a falar em termos pessoais”, considerou.João
Luís Gaspar defendeu que a contaminação de solos e aquíferos na Praia
da Vitória só deve ser discutida quando “assente em bases técnicas e
científicas bem fundamentadas”.“Devo dizer
que não há em parte nenhuma do mundo certamente um único especialista
que possa comentar esta matéria. Terá de ser sempre uma equipa
multidisciplinar, porque estamos aqui a falar em matérias que abrangem
muitos domínios da ciência”, frisou.O acordo terá um custo anual de 10 mil euros para a Câmara Municipal da Praia da Vitória.