Mundo vive crise de direitos humanos causada por "efeito Trump"
29 de abr. de 2025, 10:51
— Lusa/AO Online
“Os primeiros 100
dias do [mandato do] Presidente [norte-americano, Donald] Trump
intensificaram os retrocessos globais” dos direitos humanos, avançou a
organização não-governamental (ONG) no seu relatório anual sobre o
estado dos direitos humanos no mundo.“A
campanha anti-direitos da administração Trump está a impulsionar
tendências prejudiciais já presentes, destruindo as proteções
internacionais dos direitos humanos e colocando milhares de milhões [de
pessoas] em risco”, sublinhou a Amnistia Internacional no documento.De
acordo com a organização, este “efeito Trump” agravou os danos causados
por outros líderes mundiais ao longo de 2024 e corroeu décadas de
trabalho árduo para construir e promover direitos humanos universais.“Cem
dias após o início do seu segundo mandato, o Presidente Trump mostrou
ter um desprezo absoluto pelos direitos humanos universais. O seu
governo tem atacado rápida e deliberadamente instituições e iniciativas
vitais dos Estados Unidos e internacionais, concebidas para tornar o
nosso mundo mais seguro e justo”, afirmou, citada no relatório, a
secretária-geral da Amnistia Internacional, Agnès Callamard.As
suas ações, lamentou a representante, não só agravam a situação da
justiça racial e de género, da saúde global e do clima, entre outros
temas, como encorajam outros líderes e movimentos a assumirem a mesma
postura.Embora a Amnistia Internacional
reconheça que nos últimos anos tem alertado sempre para os perigos do
retrocesso dos direitos humanos, garante que o último ano mostrou ser
“um inferno de leis e práticas autoritárias” que se multiplicaram em
todo o mundo.“Os acontecimentos dos
últimos 12 meses – incluindo o genocídio israelita, transmitido em
direto, mas ignorado, contra os palestinianos em Gaza – expuseram o quão
infernal o mundo pode ser quando os Estados mais poderosos abandonam o
direito internacional e desconsideram as instituições multilaterais”,
criticou a ONG.No entanto, sublinham os autores da análise anual a 150 países, a culpa da situação não é só de Trump e da sua administração.“Esta
doença é muito mais profunda do que as ações do Presidente Trump. Há
anos que assistimos a uma crescente disseminação de práticas
autoritárias entre Estados de todo o mundo”, frisou a Amnistia
Internacional, avisando que todos os que acreditam na liberdade e na
igualdade “devem preparar-se para combater ataques cada vez mais
extremos ao direito internacional e aos direitos humanos universais”.No
ano passado, referiu a organização, os governos de todo o mundo
tentaram fugir à responsabilidade, consolidar o seu poder e incutir o
medo.Fizeram-no “através da proibição dos
meios de comunicação social, dissolvendo ou suspendendo organizações
não-governamentais e partidos políticos, prendendo críticos sob
acusações infundadas de ‘terrorismo’ ou ‘extremismo’ e criminalizando
defensores dos direitos humanos, ativistas climáticos, manifestantes
solidários com Gaza e outros dissidentes”, acusou a ONG.Além
disso, as forças de segurança de vários países utilizaram detenções
arbitrárias em massa, desaparecimentos forçados e, muitas vezes, força
excessiva – por vezes letal – para reprimir a desobediência civil.Os
exemplos dados pela organização são variados, começando por Israel que,
segundo a Amnistia, está a cometer um genocídio dos palestinianos e que
tornou mais violento o ‘apartheid’ (regime de segregação) e ocupação
ilegal da Cisjordânia.A ONG também aponta
caso da Rússia que “matou mais civis ucranianos em 2024 do que no ano
anterior” e que continua a atacar infraestruturas civis e a sujeitar os
detidos a torturas e desaparecimentos forçados.Outros
exemplos passam pelo Bangladesh, cujas autoridades tiveram ordem para
“disparar à vista” contra os protestos estudantis, o que fez quase 1.000
mortos, ou pela Turquia, que proibiu protestos e continua a usar força
ilegal contra manifestantes pacíficos.A
Amnistia Internacional destaca também a suspensão da ajuda externa dos
Estados Unidos e o impacto que teve sobretudo nos países mais
vulneráveis.Foi o caso da Síria ou do
Iémen, onde os cortes abruptos fecharam programas que salvam vidas,
incluindo a tratar a subnutrição de crianças, mães grávidas e lactantes,
a dar abrigos seguros para sobreviventes de violência de género e ajuda
médica a crianças que sofrem de cólera e outras doenças.O
custo destas falhas é gigantesco, sublinhou a Amnistia Internacional,
nomeadamente ao perderem-se proteções vitais construídas para
salvaguardar a humanidade após os horrores do Holocausto e da II Guerra
Mundial.“Apesar das suas muitas
imperfeições, a obliteração do sistema multilateral não é a solução”,
avisou, adiantando que, “hoje, a administração Trump parece determinada a
cortar com uma motosserra os resquícios da cooperação multilateral para
remodelar o mundo através de uma doutrina transacional impregnada de
ganância, interesse próprio insensível e domínio de poucos”.