Mulheres Juristas e IAC defendem alterações legais para prevenir violência doméstica
26 de jan. de 2023, 16:39
— Lusa
Dulce Rocha falava
durante uma audição parlamentar, a requerimento do PAN, sobre as causas
da violência doméstica em Portugal, na qual participou também a
presidente da Associação Portuguesa de Mulheres Juristas, Teresa Féria.De
acordo com Dulce Rocha, a violência doméstica é hoje a principal causa
das queixas apresentadas nas comissões de proteção de crianças e jovens
em risco, anteriormente dominadas pelas questões do abandono escolar.A
responsável pelo Instituto de Apoio à Criança considerou que a
violência no seio da família deve ser considerada uma matéria
prioritária, pelas marcas que deixa nas crianças e pelo estado em que as
vítimas adultas chegam a tribunal: “Há mulheres que chegam ao tribunal
sem dentes, com narizes partidos, com ossos partidos”.“Está na altura de procurarmos fazer um quadro jurídico que seja compatível com esta forma de violência, que deploramos”, disse.Também
a presidente da Associação de Mulheres Juristas considerou que as
alterações legislativas adotadas nas últimas décadas “não têm sido
suficientes e bastantes” para prevenir e reprimir as condutas que no
seio da família consubstanciam atos de violência contra as mulheres e as
crianças. Para Teresa Féria, é imperioso
elaborar “um quadro normativo global, coerente e eficaz”, que preveja e
regule um regime jurídico específico para prevenir e punir a violência
doméstica e assegurar apoio social às vítimas.Defendeu
igualmente a criação de tribunais de primeira instância com competência
especializada mista, que em casos de violência na família “possam
conhecer simultaneamente matérias do foro criminal e do foro cível”
relativas às relações conjugais e parentais.“Faria
sentido também, a criação, nos tribunais judiciais de primeira
instância, de unidades de apoio à vítima, com equipas de atendimento
multidisciplinar, para encaminhamento das vítimas e dos filhos,
avaliação de risco e de perigosidade do agressor”, afirmou a juíza
conselheira. A mesma responsável sublinhou
ser “imprescindível” que o Estado, através da Ordem dos Advogados,
nomeie um mandatário judicial às vítimas dos crimes desta natureza
“imediatamente após a denúncia dos factos ou da apresentação da queixa”.“Não
dispomos ainda de um quadro normativo que seja eficaz e isso é visível
através do número muito elevado de queixas”, anuiu Dulce Rocha, citando
números apresentados na sexta-feira num seminário em que participou.
“Neste ano de 2022, houve um recorde de 35.000 queixas, 35.000
inquéritos, ao contrário dos outros anos, em que não chegavam a 30.000”.“Houve
um aumento muito grande e um aumento também dos homicídios, a expressão
mais grave da violência que se prolonga no tempo (…), porque as medidas
não têm sido eficazes”, acrescentou, lembrando que no ano em apreço
morreram “28 mulheres, duas meninas e dois meninos”.