Mulher de membro do Governo açoriano abdica de cargo em serviço tutelado pelo marido
11 de jan. de 2023, 11:11
— Lusa/AO Online
“Não tenho apego a
cargos ou dirigismo. Tenho apego ao meu prestígio profissional. Por ele,
e só por ele, abdico do lugar a que me candidatei por concurso, não
tendo até ao momento aceite a nomeação, nem assinado o termo de posse”,
disse à agência Lusa Fernanda Ventura.Numa
posição escrita, a engenheira zootécnica acrescenta que a sua carreira
profissional foi “sempre pautada pelos valores de lealdade, diligência,
competência e brio” e defende que aquela “não foi uma nomeação de
confiança pessoal ou política”.A 27 de
dezembro, foi publicado em Jornal Oficial a nomeação de Fernanda Ventura
para diretora dos Serviços de Apoio ao Investimento e à
Competitividade, integrados na Direção Regional do Desenvolvimento
Rural, tutelada pela Secretaria da Agricultura e Desenvolvimento Rural
do Governo dos Açores (PSD/CDS-PP/PPM), liderada por António Ventura.A
nomeação surge depois de um concurso público, tendo o júri considerado
que Fernanda Ventura tinha o “perfil exigido para o desempenho das
funções inerentes ao cargo”, segundo o despacho.Fernanda
Ventura, que é técnica superior na Direção Regional do Desenvolvimento
Rural desde 20 de outubro de 2010, afirma que “nunca misturou a vida
pessoal ou institucional com a isenção e imparcialidade” das suas
decisões profissionais.A especialista em
Tecnologia Leiteira “repudia as insinuações ou ataques de caráter”,
independentemente de “quem quer que seja", e realça que “nunca teve
interesse ou motivação para a carreira política”.“Acredito
no princípio republicano de que ninguém deve ser nem privilegiado nem
favorecido por raça, género, crença ou parentesco. O mesmo princípio
defendo, e que também acredito, com a mesma intensidade, de que ninguém
deve ser prejudicado pelas mesmas razões”, assinala.Segundo
diz, os “ataques de caráter” de que foi alvo “atentam contra a
normalidade da vida dos profissionais da administração pública, que
apenas pretendem progredir na sua carreira”.“Não
aceito estar sob suspeição falsa de privilégio. Ninguém pagará o
prejuízo profissional que me imputam, mas também ninguém está ou estará
acima da minha retidão e imagem”, destaca.A 28 de dezembro, em declarações à RTP/Açores, o secretário da
Agricultura, António Ventura, defendeu que a sua mulher “teve acesso a
um concurso como qualquer açoriano”, recordando que o procedimento “não
estava limitado a ser esposa de um governante ou de um político em
funções”."A minha esposa é uma cidadã, uma
açoriana como qualquer outra, e candidatou-se a um concurso público,
com prova escrita e oral. Foi classificada em primeiro lugar e daí não
vejo mal nenhum”, afirmou o secretário regional do executivo açoriano
liderado pelo social-democrata José Manuel Bolieiro, que tomou posse em
novembro de 2020, após 24 anos de governação do PS.A 05 de janeiro, o Chega exigiu explicações ao executivo regional sobre
os contornos deste concurso, por uma "questão de transparência e
clarificação", pretendendo saber se todas as etapas e regras concursais
foram cumpridas sem a intervenção do secretário regional.O
júri do concurso foi composto pelos diretores regionais da Agricultura e
das Florestas, pelos diretores dos Serviços de Desenvolvimento Agrário
das ilhas de São Miguel e Terceira e pelo presidente do Instituto
Regional de Ordenamento Agrário.Além de
técnica na direção do Desenvolvimento Rural, Fernanda Ventura foi
técnica superior do Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas
(de 1997 a 2010) e professora de Matemática do terceiro ciclo do ensino
básico (entre 1996 e 1997).